10 MINICONTOS DE JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA

A Larva

A vida dos insetos é efêmera. Para pouco prazer, o esvoaçar contra as vidraças, a ofuscação nas lâmpadas do mundo. Assim pensava a larva pousada no mais alto ramo. Ao florescer o pessegueiro, ela rebentaria o casulo. Sabia que para grandes coisas havia sido criada. Não fora em vão tantas gerações se sucederem, para que ela estivesse, no mais alto ramo, esperando a primavera chegar e o pessegueiro florescer. Nada no mundo desviava sua atenção da obra para a qual fora destinada. A agitação de tantas antes dela não deixaria de ter um sentido que nela se albergava. A explicação do mundo, ela o ser perfeito, a larva.

Com tantas divagações não pressentiu o pássaro que a engoliu e saiu pensando que para alguma coisa muito importante havia sido enviado: de outra maneira não haveria significado para aquele movimento de penas em ares infinitos, para tanto vôo e cópula. O pássaro estava perdido em seus devaneios e não viu a pedra atirada pelo menino, que estava pensando nas grandes coisas para as quais havia sido criado.

The maggotlalikowa

The life of insects is ephemeral. For a little delight, the fluttering against the glass panes, the obfuscation in the lamps of the world. This way thought the maggot resting on the highest branch. At the blossoming of the peach-tree, it would disrupt the cocoon. It knew it has been created to big things. It wasn’t in vain so many generations succeeded, so that it was on the highest branch waiting for the spring to arrive and for laliko wathe peach-tree to blossom. Nothing in the world diverted its attention from its legacy. The excitement of so many before would not stop making sense. The explanation of the world. The perfect being. The maggot.

With so many digressions it did not presaged the bird that swallowed it and left thinking that had been sent for something very important: otherwise there would be no sense to that movement of feathers in infinite air, also for flight and for coupling. The bird was lost in its reverie and could not see the stone thrown by the boy who was thinking on the great things he has been created for.

As borboletas

Colecionava borboletas. Tinha-as pelos cantos, pelas paredes, na mesa, no chão. Fim de semana saía com a rede pelos matos. À noite o trabalho paciente de ressecá-las e botá-las nos quadrinhos. Espetava com toda a delicadeza para não estragar um milímetro sequer daqueles corpos delgados.

A mulher não gostava nada daquilo. Vivia dizendo que acabaria maluco, se já não estava. Dava de ombros pacientemente. Quem há de entender as mulheres? Ele entendia de borboletas.

Uma noite acordou e viu a grande borboleta pousada na cama. Teve dificuldade em transpassá-la com o espeto de churrasco e, com muito esforço, colocou-a na parede da sala. Estava admirando o belo espécime que conseguira tão facilmente quando o assaltou a dúvida se a borboleta teria duas, quatro ou seis pernas. Posteriormente escreveria para a sociedade dos colecionadores de borboletas, da qual era sócio benemérito, para esclarecer seu cérebro um pouco confuso. Quanto à mulher, nunca mais a viu. Não se preocupou muito com isso. A única coisa que o interessava eram borboletas.

The butterflies

He collected butterflies. He had them on the house corners, on the walls, on the table, on the floor. On weekends he used to leave with the trap through the woods. At night the patient work to dissect and put them in the little cadres. He jabbed the insects with all delicacy not to screw up one iota of those slender bodies.

The woman did not like that even a little. Kept saying he would go crazy if he were not already. He patiently shrugged. Who can understand women? He knew about butterflies.

One night he woke up and saw a big butterfly resting on the bed. It was difficult to pierce it with the barbecue skewer. After much work he put it on the living room wall. He was admiring the beautiful specimen he picked up so easily when he suddenly was not sure if a butterfly had two, four or six legs.

Subsequently he would write to the butterflies collectors society in which he was a worthy partner to enlighten his a little confused brain. As for the woman, he has never seen her again. He did not get much worried about it. Butterflies were the unique interest.

O lobo do mar

O papagaio pousado no ombro, ensinando-lhe palavras ao acaso, caminhava pela casa como se estivesse num navio. Não lhe importava que lá fora a tempestade afundasse pesqueiros de bandeiras diversas e náufragos viessem bater à sua porta. Corria-os a pontapés. Comprava motivos marinhos com o que enfeitava a sala de visitas. Aos amigos que perguntavam pela nova mania, dizia, dirigindo-se ao papagaio, que era um lobo do mar. Sua mulher passou a ter náuseas, sentia como se o chão balançasse sob os seus pés. O marido olhava para o papagaio e sorria. A mulher caiu no tanque de lavar roupas e foi devorada pelos tubarões. Na polícia, o velho lobo do mar disse: tudo pode ser encontrado num tanque de lavar roupas, inclusive tubarões.

The sea wolf

He walked around the house as if on a ship with the parrot perched on his shoulder, teaching it words at random. He did not care that outside the storm sank several fishing boats and shipwrecked came knocking on his door.

He drove them off with kicks. Garnished the living room with marine fineries.To the friends that asked him for the new fad, he used to say turning to the parrot that he was a sea wolf. His wife has started having nausea, she felt as the ground underneath her feet were swinging. The husband used to smile looking at the parrot. The woman fell into a washtub and was eaten up by sharks. At the police, the old sea wolf said everything could be found in a washtub, including sharks.

Matador de passarinho

Da janela em movimento alvejou o primeiro passarinho. De tão pequeno nem viu onde o corpo caiu. Depois foram centenas que colecionava simbolicamente: traços na coronha da espingarda. Mas jamais fez passarinhada com eles, como seus amigos, com muito vinho.

Respeitava a morte. Nada mais vivo, na memória, do que um pássaro morto.

Bird killer

From the window, moving, he shot the first bird. It was so small he could not see where the body fell. After that, he collected hundreds symbolically: traces on the butt of the shotgun. But he’s never made a meal with them like his friends, with a lot of wine. He respected the death. There is nothing more alive in the memory than a dead bird. 

A mariposa

Cansada de andar pelas calçadas, nas ruas escuras, nos becos dc medo e ratos, ela só esperava ter alguém para terminar a noite. Algum hotel no centro, casa assobradada do início do século. Para estirar o corpo e garantir o sustento.

O senhor gordo e de bigodes estacionou o carro a poucos metros dela. Aproximou-se esperando a cantada que, na certa, viria. O homem abriu a porta do carro em silêncio. Não se falaram ao despirem-se das roupas.

Entregou-se maquinalmente, como profissional que era. Olhando um ponto do teto. Uma mariposa pousada entre as manchas. Mexeu as asas num estremecimento. O homem pensou que fosse prazer e a esmagou com seu peso.

The moth

He’s started hunting dogs and cats in the neighborhood, the unwary bird on the branch. He’s become expert in the craft. The house was filled up with stuffed animals. He had a dream where he saw the whole humanity stuffed. He threw away all the animals he had. It would take to much place to the new collection.

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A salamandra

Era bonita. Furtiva e rápida ao desnudar-se, prosa, os peitos empinados, lenta no vestir-se, nua, poesia.

Às vezes, contemplativa, ficava tomando sol na areia da praia, outras fugia entre pedras, medrosa. Ninguém poderia dizer: ela foi minha, a misteriosa.

Até que apareceu um dia no quarto do hotel onde morava, e doou-se única: na coxa direita tinha tatuada uma salamandra.

The salamander

He’s started hunting dogs and cats in the neighborhood, the unwary bird on the branch. He’s become expert in the craft. The house was filled up with stuffed animals. He had a dream where he saw the whole humanity stuffed. He threw away all the animals he had. It would take to much place to the new collection.

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Um peixe de águas profundas

Mergulhou na vida como um escafandrista mergulha no mar. Seu corpo foi afundando lentamente. Seus olhos viram profundezas inesperadas, com seres os mais estranhos. Seu corpo foi tomando a forma de um peixe longo e escamoso. Mãos tentavam segurá-lo mas ele foge por entre os dedos dos pescadores. Penetrou na região de águas mortas. Nenhum peixe ou alga vive nessa profundidade. Seu sangue gela. O fundo do mar é a quietude. Com todas as forças tenta subir à superfície. Sabe que não mais conseguirá ver a luz do sol.

A deep-water fish

He’s started hunting dogs and cats in the neighborhood, the unwary bird on the branch. He’s become expert in the craft. The house was filled up with stuffed animals. He had a dream where he saw the whole humanity stuffed. He threw away all the animals he had. It would take to much place to the new collection.

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O empalhador de animais

João era empalhador de animais. Não fazia para vender. Bastava-se na pura arte. Ninguém como ele para saber o tipo de palha, a erva de cheiro em lugar da víscera. Desde menino agiu assim com animais: detestava-os vivos. Em casa muito o repreenderam. E tanto falaram que acabou mudando. Unir o útil ao agradável passou a ser sua preocupação.

Começou caçando cães e gatos nas redondezas, o pássaro incauto no galho. Tornou-se hábil no ofício. A casa entulhada de animais empalhados. Teve um sonho em que viu a humanidade inteira empalhada. Atirou fora os animais que possuía. Precisaria de muito espaço para a nova coleção.

The stuffer of animals

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Pescadores de homens

Foi no reinado do antipapa que aconteceu o ora narrado. Naquele tempo andava escassa a adesão de novos mártires para os espetáculos circenses. Sem os crentes devorados pelos leões não tinha graça ir ao circo.

A situação tornou-se insustentável quando o povo, já sem pão e sem circo, passou a fazer saques em estabelecimentos comerciais. Os ministros reuniram-se em estado de emergência e concluíram, depois de enervantes discussões, a necessidade de voltar à pesca de homens.

Pescadores foram recrutados. Passariam a lançar suas redes no mar da humanidade. Viram-se frustrados, no entanto, logo no início. As redes não tinham furos pequenos, prendiam os corpos, deixavam passar as almas. Homens sem alma não interessam ao circo.

Fisherman

It happened on the kingdom of the anti-pope. At that time, the adhesion of new martyrs to the circus show was limited. There was no fun by going to the circus without believers eaten up by lions. The situation has become unsupportable when the people – already without bread and circus – began withdrawing money at shops. After enervating discussions, the ministers met in an emergency and concluded about the necessity of to return fishing for men.

Fishermen were recruited. They would cast their nets into the sea of humanity. However they became frustrated early on. The nets have not had small holes, captured the bodies, but let souls go by. Soulless men do not interest to the circus.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Publicou dezenas de artigos e crônicas em jornais e revistas do Brasil e do exterior. Tem publicados os livros de poemas, Lavra permanente, Cidade submersa, A porta do sol, Piano arcano, e A urna Guarani; seus livros de contos são: O atleta recordista, A orelha do bugre, A terra sem malesOs leões selvagens de Tanganica. Traduziu livros de Pablo Neruda, poetas latino-americanos e italianos. Os minicontos aqui reproduzidos pertencem ao livro Os leões selvagens de Tanganica, publicado pela Editora Movimento em 2002 e foram traduzidos por Daniela Damaris.

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4 comentários

  1. Gilberto Motta

    Saúdo a chegada da Revista Sepé. Fundamental iniciativa em tempos tão sombrios de desrespeito à vida e, em especial, à educação e à cultura. Estes minicontos do Degrazia são estupendos. Criatividade, síntese e universos abertos ao nosso prazer.

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