Sombras de um gradil

4 POEMAS INÉDITOS DE MARCO DE MENEZES

introdução à contabilidade I

quantos rostos esquecemos
na parca destinação de comparsas
que a existência provê aos visitantes

de pai e mãe e irmãos
e parentes mais próximos
posto que se transladam
de um a outro
como um projetor de slides enguiçado
os rostos escondem
ainda que familiares
um certo brilho esquisito
ou uma opacidade de cera negligente
sobre a tábua antiga

do Seu Aquiles, o olhar racemoso
desesperado, a cuia na mão enquanto raspa a terra com um graveto

da guriazinha que era cuidada
junto de mim, a bochecha machucada
e da Rita, a que cuidava
muito pouco
a cal de um nariz de linhas magras

do ancião
(José? Getúlio?)
que contava histórias
sobre encarnação
só os lábios limpos
e em perpétua desculpa
e da tia Zaida, irmã da Zoé
um facho branco e baixinho
como se passasse um bicho
um vento um cabelo

da dona do Tibola
a delicadeza do buço
ao anotar outra refeição
na caderneta
e da criança que enlouqueceu muito cedo
fica justamente isso:
não há rosto, essa
lição maltomada

há alguns outros
todavia
não muitos



os ternos de Charlie Parker

o de xadrez fininho, cinza e preto
que foi comprado há tanto tempo
com os bolsos internos em pano verde
ligeiramente pálido
que tirava e apoiava na cadeira do quarto
nunca em um cabide
e que lhe sentava tão bem

onde o papelzinho indecifrável do Minton’s
[diríamos aqui “comanda”
ou simplesmente “a conta”]
com um mau haikai sobre a neve
em que rolava e tornava a rolar
atravessando a avenida até o parque
e retornando
a neve nas sobrancelhas
para mais um take
de “Tico Tico”
ou “Cherokee”

irmão de um outro papelzinho
escrito por Helle Busacca
a quem encontrou
sem saber quem era
em uma festa rica
e de quem ficara amigo
e amigo dos amigos
ela que lhe dedicara sem dizê-lo
um dos poemas de
I quanti del suicidio
ele já bem mortinho

Chan na janela
mostrando a pilha
de ternos velhos
como velhos planetas arremessados
e dizendo
que ele não vestiria mais
nem este nem aquele

ele salvando um deles, de flanela
macia e singela
com certo corte beatnik
em sua elegância oblonga
muito requisitado pelos bateristas
(Doc West, por exemplo)
para compor o enchimento do bumbo

a agulha atirada e buscada
duzentas mil vezes
dentro do bolso direito
daquele terno negro
como a um arpão ingênuo
que esburacasse o mar indúctil
e dele recolhesse uma enguia
uma enguia que no final
era seu coração falido e antracoso
a volutear como uma sinfonia
ainda não inventada
que falasse de marinheiros e forcas
de petúnias e arrependimento
uma enguia que enfim
retornasse seca à terra do Nunca
onde Pree deveria estar agora
coitadinha
e onde ele nunca esteve
emparedado sempre
entre o Sempre e o Agora

o terno azul
que usara
em uma memorável noite
da qual já não lembrava
noite em que lhe surgiu
“Ko Ko”
e da qual voltavam
em trajes andrajosos
retângulos de memória
um luar sobre o dorso de um cavalo
um inseto temeroso na haste de um jasmim

não raro ele
nesses melhores momentos
mostrava seus olhos
sem cristalino ou musculatura

ele e seus ternos
eram uma tão-só noite
onde a dor se encalhava
permanentemente
uma tempestade
sem barcos
entre o Sempre e o Agora



beirando a linha temerária

da caxias, vila dos lobos
linha maternidade
travessão barata góes
terceira légua, galópolis
até vila cristina
e sebastopol
fossem o que fossem
viagens levianas
a mais pura baldeação

o caí sombrio
como se pensasse
uma rotina de famílias afogadas

as aves singelas
dormiam sacos brancos
em árvores varridas
pela enchente que não era

o morto do joão puto
e o dinheiro pro churrasco
que estudantes franzinos
jamais juntamos

jantar o melhor nariz entupido do mundo
em frente à cabeça de galló que lembra
a de um lenin mais gordo

uns barbantes coloridos
que o licks trazia da petenatti
e que nós falsos hippies
esnobávamos nas lancherias
sorvendo tussiflex

os zorrilhos esmagados pelas rodas
não devolver mais
o blusão da namorada

tudo isso já foi água
será água
já se avista a imensa massa monstruosa
nas tardes de quem vai
como as águias
beirando
a linha temerária



o Sapo

poucos se lembrarão
do Sapo

foi a primeira pessoa que mentiu
e eu não acreditei
(as mentiras de verdade eram sussurradas, como sempre, e essa não era uma delas)

o Sapo havia dito uma vez
na preleção aos pequenos:
o clube deu tudo pra vocês
então joguem bem

mas em verdade houve uma rifa
que os pequenos exaustivamente venderam
e da qual foram exaustivamente cobrados

foi o Sapo também
quem primeiro cobrou
responsabilidades
me sacando da lateral direita
e me tornando goleiro
função a cujas pedras
fui inteiramente dedicado

foi o Sapo
com suas mãozinhas membranosas
e unhas como luas minguantes por roídas
o primeiro a quem notei assim
com unhas tão escassas
e sempre vi um Sapo
no colega pediatra
e na dona do Tibola

nunca soube o nome do Sapo
ou pode ser que tenha esquecido
ele já ia pelos 30
quando treinava os pequenos
para o futebol na pedra
atividade das mais comoventes
e das mais estúpidas que há

Marco de Menezes nasceu em Uruguaiana (RS) e vive em Caxias do Sul (RS). É autor dos livros de poemas As horas dragas (1999), Pés de aragem (2007), Fim das coisas velhas (2009) e Pequena madrugada antes da meia-noite (2016). Vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura nas categorias Poesia e Livro do Ano com Fim das coisas velhas, em 2010 e finalista em 2011, com Ode paranoide.

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