Capa de Cavalos de Cronos - Um cavalo esculpido

COTUBA DOS ERMOS – JOSÉ FRANCISCO BOTELHO

Para Francisco Bino.

Mato, cantando.
Antigo sortilégio micmac.

Alta madrugada, e a ventania soçobrava as copas do arvoredo, os encaixes da janela estralejando no inchaço da friagem ‒ e, no impreciso momento do romper da lua, alguém veio bater à porta da quase-tapera. Ou no que havia de porta: pois zunido e vento ali passavam como a água que se escapa entre uns dedos meio abertos. Na caminha de pelego sobre o chão de pedra, Maninho saiu do sono raso e levou a mão ao lampião verde, que, por descuido, tinha deixado aceso. Acostumara-se a dormir entre os ruídos do vento seco, mas a batida solitária e brusca destoara na algaravia da noite. Esperou, indeciso entre pegar a faca e continuar deitado. Podia ser só um bicho, forageando. Se fosse mesmo batida de gente, não haveria de ser coisa boa, àquela hora, naqueles ermos. E, de toda forma, se havia homem ou bicho lá fora, por que é que o cachorro não latia? “Está mui velho”, pensou Maninho. E sua vontade ficou suspensa no halo do lampião, metade do olhar na faca sobre a mesa, um raio de atenção estremunhada contra o farrapo de porta; enquanto isso, a casinha continuava a dar rangidos na madrugada dos campos.

O ranchinho tinha duas peças, sem corredor que as ligasse; o banheiro era uma fossa no lado de fora. No quarto vizinho, separado deste apenas por um vão arredondado e vazio, a mãe de Maninho dormia o sono escuro e pastoso dos doentes, meio abraçada à filha de oito anos ‒ prostradas, ambas, pela mesma febre nos pulmões. Para todos os efeitos, era como se Maninho, e mais ninguém, fosse a sentinela da casa; e teria ele de se haver sozinho com qualquer criatura que agora estivesse ali, no desprotegido limiar do rancho.

O vento de repente amainou e veio então a segunda batida. Era estranho esse jeito de bater, em espaçadas vezes, como o soluçar de uma agonia. E, no fundo daquele instante, Maninho acreditou, sem reticências, que era um fantasma quem viera alvoroçar seu sono. A três coxilhas de distância, para o norte, ficava o Cemitério dos Lopes, com suas cruzes magras e suas lápides de duzentos anos, espetadas sobre os ancestrais de Maninho; e o rarefeito povo da Sesmaria Perdida asseverava, com antiga convicção, que os mortos saíam pelos ermos, em noites de vento seco, para saldar dívidas reais ou imaginadas. Para o sul, no rumo da fronteira, após o entrecruzar de quatro sangas, avultava o Cerro dos Assustados. No assovio daquelas escarpas, habitavam caranchos, morcegos e víboras de cruz. Havia ali umas grutas cuja fundura ninguém jamais havia sondado: quem ousasse se aventurar lá dentro, portando vela ou lampião ou mesmo lanterna a pilha, sentiria a luz mermar a cada passo, como se a treva nervosa fosse comendo o facho pelas beiradas, até restar apenas um miolo de brilho que não clareava coisa nenhuma; e se o incauto seguisse andando, logo ficaria preso para sempre num labirinto de escuridões. Ninguém sabia aonde aquelas furnas iam dar; mas os antigos diziam que, lá dentro, no severo coração da serrania, ficava o rancho de Cotuba, o velho Cotuba dos Ermos, cacique de todos os mortos daquela região. Vivia de olhos abertos, no escuro, vestido em andrajos de caraguatá, escutando tudo o que se passava lá fora, nos campos e nas canhadas; em noites ventosas, subia aos picos e rochedos, observando o vaguear dos fantasmas no descampado e assoviando uma cantiga tão velha que nem ele lembrava onde e quando a aprendera. Às vezes, caso sentisse gente viva andando em seus domínios, saía correndo das pedras, num risco de sombra, para empurrar a insensata criatura nos peraus pontiagudos; e depois lhe extraía, a modo de tributo, uma falange, uma tíbia, um fêmur, para ornar sua tapera subterrânea. Se às vezes Cotuba deixava algum peregrino temerário cruzar seu tétrico potreiro, fazia-o por obscuros caprichos de sua vetusta, indecifrável cabeça; e até os andarilhos vindos de outros lados, sem nunca haver escutado essas estórias, paravam de repente, só com bater os olhos na soturna cordilheira, e cambavam para longe. Maninho, contudo, não tivera opção; nasceu e cresceu ali, entre o cerro e o cemitério. Impossível descobrir desde quando seus ancestrais habitavam as cercanias dos Assustados; é certo que  alguns haviam partido em guerras, outros sumiram no roldão das desgraças ‒ mas, até onde chegava a memória humana, sempre houvera um Lopes na Sesmaria Perdida. Sua família era antiga agregada das sombras.

Veio a terceira batida. Maninho se esgueirara do pelego e agora tinha a mão quase no cabo da faca ‒ mesmo sabendo que é nula a serventia de arma branca contra assombração. Pra ter certeza, continuou esperando. Se viesse a quarta batida, saberia que a visita noturna era dos vivos, não dos mortos. Porque ‒ asseveravam também os pelos-duros do Tucumirim ‒ os mortos daquelas sesmarias só sabiam contar até três; e tudo o que faziam, faziam-no nessa exata, agoniada quantia de vezes. A amena insanidade da morte lhes desensinava os antigos hábitos, impondo estranhas obsessões e arbítrios.

Aguçava-se o instante, suspenso nessa dúvida espantosa. E, parado o vento, um corujão deu de piar nalguma velha viga do ranchinho. Era como se a noite mesma titubeasse; e o som que veio então, do além-da-porta, não era mais uma batida e, sim, um misto de gemido e ronco, fosca nuvem de sílabas desmanchadas, em meio à qual, intermitente, coalesceu uma palavra, que Maninho a custo soube ser:

‒ Mariana, ‒ o nome de sua mãe.

E pior: daquela voz estropiada corria um fio de reconhecimento. Seria um dos avôs semeados lá na campa brava, sob as lápides cobertas por ramos de araçá e flor de tuna? Maninho tinha ouvido dizer que os espectros às vezes vinham atrás dos parentes mais queridos: assim, o vô vinha buscar o neto, que depois voltava pra pegar a mãe ‒ até a linhagem toda se extraviar nos arrabaldes entre a vida e a morte. E, detrás desse sobressalto, despontava uma suspeita ainda mais ardida e inverossímil.

Para não ter de seguir pulando de um pensamento a outro, Maninho matou em três passos a distância que o separava da porta, sem pegar da faca, sem fazer sinal da cruz; abriu-se de supetão a fresta, e a luz do lampião cortou uma clareira no tremedal das trevas. E, enquanto o corujão piava num galpão perdido, Maninho viu que, sim, a visita desta noite era pior do que um fantasma: era seu pai.

2.

Tinha sido golpeado e estava sangrando.

Lá atrás, na boca do mato, as sombras se remexiam, atiçadas pelo tremelicar do lampião, e o bichará de lã preta que cobria o torso de Mano Lopes era como um retalho da noite angulosa. A mão dele, enegrecida também pelo sangue, comprimia um ponto pouco abaixo do ombro, onde a lã do poncho estava rasgada. E o peitilho do bichará subia e descia lentamente, na respiração cuidadosa de quem a muito custo, e há longo tempo, vem aguentando uma dor. Acima da gola, o rosto de Mano Lopes pegava em cheio o facho do lampião. Parecia ter envelhecido pouco, mas isso era porque, desde os vinte e tantos anos, já tivera aquela mesma aparência de madeira maltratada e persistente. O tempo, depois, acrescentara alguma fundura nos olhos e duas cicatrizes no zigoma. De resto, tinha ainda o mesmo jeito de olhar, a mesma apatia criteriosa, a mesma desconfiança cortês e desinteressada, em cuja austera neblina qualquer pensamento podia se camuflar. Chupando o ar de forma especialmente cautelosa, contemplando o rosto de Maninho com a fixidez serena de quem perscruta um acidente do terreno, Mano Lopes disse, de forma casual e espaçada, quase com leveza:

‒ Eu preciso da garrucha.

A garrucha, claro. Mano Lopes a havia deixado nas mãos de Mariana, naquele dia, anos atrás, quando fora embora, em busca do deus-dará. A arma era tão velha que talvez já nem funcionasse. Ali ficara, no entanto, nem que fosse como defesa simbólica para a pequena família sem pai. Maninho tinha, na época, mais ou menos a idade que sua irmã teria agora. Lembrava-se do vulto de Mano Lopes, coberto naquele mesmo bichará, montado no malacara, um dos três cavalos do rancho, e indo-se embora pela quebrada do mato; e a mãe de Maninho não havia olhado para o marido que se ia, olhara apenas para a garrucha na mão dela, como se fosse um objeto estranho, até que o ranger de bastos, cinchas e caronas se dissipou na distância. Então ela foi ao quarto e guardou a garrucha no velho baú de cabriúva, onde estava até hoje.

Agora já não havia sinal do malacara, mas ali estava Mano Lopes, com o bichará preto, querendo a garrucha, como se tivesse partido anteontem.

Recém abrira-se a porta, mas parecia que estavam os dois há muito parados ali na soleira, e Maninho se sentia preso no espasmo do tempo, o braço doendo com o peso do lampião, os olhos fitando o rosto de guajuvira que parecia suspenso entre o negror do bichará e o espaço mais vasto da noite. E Mano Lopes simplesmente esperava, respirando grosso. De repente, Maninho percebeu outro resfolegar, abaixou os olhos e entendeu por que não escutara latidos, antes: ali estava Baìto, o vetusto ovelheiro, deitado aos pés de Mano Lopes. Havia reconhecido o mestre e agora se deixava estar, contemplativo, silencioso e filosófico, o falso sorriso de cachorro mostrando os dentes muito brancos na noite. Mas o antigo dono da casa não podia mais entrar sem que alguém, da soleira, lhe franqueasse o rancho: os anos haviam se passado e as leis profundas da sesmaria funcionavam em silêncio. Maninho olhou Baìto, que olhava para Mano Lopes; e Mano Lopes olhou para Baìto e depois de novo para Maninho; e assim o feitiço da porta se rompeu. Maninho abriu alas, Mano Lopes automaticamente claudicou para dentro de casa, o cachorro fitou a porta que se fechava, e o tácito andamento das coisas foi retomado.

A visão do sangue e a sombra da morte, ainda que vagamente sugerida, têm o poder de simplificar o mundo: tão logo Mano Lopes colocou os pés na casa, ele e o filho iniciaram automaticamente o conhecido ritual da cura, sem precisar de palavras que o desencadeassem.  Entrando, Mano Lopes parou por um instante apenas junto à mesa.  O lugar tinha mudado pouco, mas a tremura do lampião lhe dava o ar de um cenário instável, emergindo mal e mal de um sonho sôfrego. Lá estavam a cruz de pau sobre o fogão e as vassouras de chirca encostadas num canto. Faltava, porém, alguma coisa na parede: um retângulo branco marcava o lugar de um objeto sumido, no borrão de fuligem preta. Mano Lopes considerou aquilo, de soslaio, e sentou no banco de cinamomo, que continuava no mesmo lugar. Depois, tirou o bichará. Tinha uma lanterna atravessada no cinto e um saco amarrado na cintura, tudo meio pintado pelo sangue que correra do ombro, lavando o peito e a barriga. O corte, no vazio acima do peito, era um talho de adaga, mais comprido do que fundo: dava pra ver que não tinha pegado órgão de vida, só nervo e músculo. Ia sarar; mas havia de doer a qualquer balanço, porque ali se enfeixava o movimento do corpo. Maninho trouxe a água, o unto e a infusão de guaçatunga. Limpou o corte, untou-o, fechou-o com um emplastro, amarrando bem na volta do tronco. Tudo se desenrolou num silêncio em que oscilavam, apenas, os haustos e cicios das duas doentes no quarto ao lado e o piar do corujão. Fechada a ferida, o bichará voltou ao lugar. O último passo na liturgia era beber a guaçatunga na cachaça, pra pisadura sarar por dentro. Mano Lopes chupou três tragos compridos e apertou os olhos, como forçando a propriedade aliviante a lhe correr pelas veias. Descerrou as pálpebras e, por um acaso que pareceu de propósito, o olhar bateu diretamente no quadrado vazio da parede.

‒ Tinha um retrato ali – ele constatou, numa entonação meramente informativa. Maninho, cuja atenção há pouco se concentrava toda na ferida, olhou a parede, pensou um pouco, confirmou:

‒ Tinha, mesmo, sim senhor – sendo essas as primeiras palavras que dizia ao pai em cinco anos.

Mano Lopes assentiu, como se tivessem chegado a um acordo: Maninho lembrou de repente que o seu pai tinha esse costume de sancionar os fatos com alguma aquiescência lacônica.

‒ Cadê a Mariana? ‒ perguntou.

‒ Doente na cama ‒ informou Maninho. E lembrou-se de acrescentar, porque vinha ao caso: ‒ A garrucha tá no baú.

Mano Lopes ainda ficou parado um tempo, sentado no banco de cinamomo, olhando o lampião sobre a mesa. Num movimento que pouco a pouco ia se tornando menos receoso e travado, a mão tisnada serpenteou devagar para baixo do bichará, meneou lá dentro procurando um bolso oculto, e voltou à luz com um cigarro. Não era cigarro de enrolar, como os que Mano Lopes fumava antigamente, mas palheiro pronto, em palma de buriti, atado em cordão preto. Vinha meio sujo e amassado, sinal de que estivera muito tempo guardado fora do maço. Mano Lopes largou-o sobre a mesa e o fitou por um instante: a mortalha meio úmida, vincada no meio, com uns fios de tabaco escapando. Parecia que tinha algo muito sério e importante a dizer sobre aquele cigarro; mas, como geralmente acontecia nesses casos, não falou nada. Levantou-se, com certa dignidade dolorida, mas já sem aquela fixidez vidrada de quem está prestes a perder os sentidos. Apanhou o lampião e foi ao quarto. Por um tempo, que a Maninho pareceu longuíssimo, ficou parado no arco vazio, olhando as formas prostradas e inquietas sobre a cama. Depois, entrou. Talvez tenha caminhando até a cama; Maninho não viu direito. Os clarões do lampião adejaram nas paredes como as asas de uma cigarra enorme e confusa. Quando voltou à sala, Mano Lopes trazia a garrucha, mais o saco de munição que estivera guardado no mesmo lugar.

Começou a enfiar a bala na boca do cano e, sem olhar Maninho, perguntou:

‒ Ainda vive o baio ruano?

‒ Sim, senhor. Tá na soga.

‒ E a tordilha?

‒ No potreiro.

‒ Pega e encilha eles.

Mano Lopes apanhou o cigarro. Olhou a ponta, como que ponderando. Depois soergueu o poncho e voltou a guardar o pito entre dois comparsas, no bolso. Meteu a garrucha na cintura e anunciou, sem colocar ênfase em palavra alguma:

‒ Eu tenho que fugir esta noite. Tem gente no meu rasto. Tu vai comigo até a fronteira. Eu no baio, tu na tordilha. Depois eu sigo de a pé e tu traz os cavalos de volta.

Maninho ouviu a determinação da noite sem esboçar reação. Embora não soubesse, já se parecia muito a Mano Lopes: o tipo de homem para quem o fatalismo é a única força humana respeitável, sendo a principal tarefa da vida distinguir entre o que era destino e o que eram circunstâncias mutáveis ‒ havendo idêntica virtude em aceitar o primeiro e em se lutar contra as segundas. Também sem que o soubesse, já trabalhava em seu rosto o antigo amadeiramento da estirpe: ali, à luz do lampião, não havia em sua face marca alguma do que acontecera ou estava por acontecer. Ajudaria o pai a fugir do país, depois voltaria para casa; sobre isso não havia o que dizer. Restava pensar nas circunstâncias pragmáticas, e foi o que Maninho fez. Ali, do ranchinho, vários trajetos abertos ou ocultos se irradiavam até a fronteira seca, enredando-se nela, como afluentes que caíssem na desolação de um rio de grama. Uns acompanhavam os corredores de terra batida e eram os favoritos de quileiros e chibeiros. Outros tropicavam no queixo das serranias, vadeando arroios, esgueirando-se em buritizais. Ainda outros rasgavam mapa em campo aberto, numa corrida lisa, e para atravessar a divisa era só baixar os alambrados ‒ sendo essa a trilha predileta entre os contrabandistas de gado ou de cavalos. Mas numa noite daquelas, que ia clareando e clareando, no forte rebrotar da lua, qualquer caminho de fuga tinha que ser por picada oculta, por ranhuras em que a bicharada se esgueira.

‒ A gente vai por onde? ‒ Maninho perguntou, e Mano Lopes o fitou de repente, de soslaio, como se aquela pergunta destoasse da conversa. Por um instante, pareceu que não ia responder. O vento tinha recomeçado a soprar, e as fendas do telhado deixaram passar um rumor agudo. Mano Lopes apertou o peitilho do bichará com a mão ainda meio suja de sangue e disse:

‒A gente vai cruzar os Assustados.

3.

Que terras Mano Lopes vira ou que atos cometera, que inimigos fizera e em quais correrias se havia metido, nos anos de obscura andança? Para que essas coisas fossem ditas, seria necessário desfazer o mundo e reconstruí-lo de novo, da pedra mais profunda até o coração renitente dos homens: somente em outro universo, em outra espécie de vida poderia Maninho, naquela noite, perguntar algo além do que já havia perguntado. Mesmo assim, enquanto Maninho descia ao mangueirão para juntar o cavalo sogueiro, no clarão da lua que já andava a duas braças do horizonte, a vida invisível de Mano Lopes voltava a espreitar no limiar do passado, como um desses animais agrestes que às vezes rondam as casas, sem querer chegar muito perto, mas também sem querer ir embora de vez.

Ao longo daqueles anos, de tempos em tempos, o ranchinho recebera certas mensagens quebradas vindas de muito longe, sinais quase mudos de que Mano Lopes ainda andava entre os vivos. Era algum andarilho, algum mascate, algum velho conhecido que parava no rancho, entregava uma manta de charque, uma fazenda nova para remendar as roupas, um embrulho com dinheiro, uma boneca de pano ou de plástico, algum remédio, um par de alpargatas para Mainho, tudo acompanhado pelos invariáveis dizeres: “Da parte de Mano Lopes”, mas sem outra notícia. E Mariana nunca perguntou nada, e ninguém na semitapera voltou a falar o nome dele em todo aquele tempo. Maninho jamais soube se sua mãe esperava algo além daquelas remessas lacônicas, que apeavam no rancho como que vindas de outro hemisfério da existência, enquanto as invernadas chegavam e passavam, e a vida mais ou menos continuava, e aquele ronco do pulmão ia crescendo nela e também na filha pequena, a tosse de uma respondendo no peito da outra, até virem as sezões e as tremedeiras, intermitentes, insolúveis. Para não vê-las se apagar, Maninho muitas vezes pensou em fugir também, em deixar que a casa toda virasse tapera de uma vez e em buscar aquele mundo estranho por onde Mano Lopes vagava; em algumas de suas imaginações, unia-se ao pai em correrias misteriosas; mas outros devaneios eram confusamente vingativos. E agora, agora mesmo, enquanto ele puxava o baio ruano para o galpãozinho arrebentado, à luz forte do luar, o que ia crescendo nele era a ideia de cortar o látego da cincha, ou encilhar o cavalo perto da virilha, para que um galope súbito derrubasse Mano Lopes nos peraus da madrugada: e todos pensariam que o velho Cotuba dos Ermos o empurrara para coletar seus ossos. E quando a mãe e a irmã morressem, Maninho iria embora para sempre, e assim acabaria a legenda dos Lopes naquela terra: deles sobraria, apenas, o nome do cemitério.

Mas, no galpão sem teto, Maninho parou com o látego na argola da cincha e olhou para o sul, para o Cerro dos Assustados. Seria verdade que o velho Cotuba escutava tudo o que se passava naqueles campos, até o rumor dos pensamentos? Ficaria ofendido, ao se saber metido naquele esboço de conspiração?  O vento tinha soprado as nuvens para potreiros distantes e o luar fundiu as estrelas contra o céu noturno, que agora tinha a cor de um sonho liso e sem feições. Após penar nas trevas do início da noite, o mundo emergia nitidamente de si mesmo. E em algum lugar, na penumbra lavada de lua, andavam os homens que queriam matar Mano Lopes.

Maninho ajeitou a cincha e puxou o látego com força, no lugar certo, bem no meio da barriga, como seu pai lhe ensinara anos atrás.

4.

O corujão tinha parado de piar quando Mano Lopes e seu filho enveredaram a cavalo pela picada ao sul do rancho. Por alguns metros, Baìto trotou melancolicamente atrás da tordilha: era velho demais para uma campereada daquelas, mas uns remanescentes de dignidade canina o impeliam a simular esforço. Maninho virou-se, com os lábios apertados, e produziu um estalo longo e chupado, gesto inconfundível de escorraçar cachorros. Não o fez por crueldade, mas pena: fornecia assim uma desculpa para que Baìto desse meia-volta sem desonra. O cachorro estacou de imediato e ficou ali, na boca do mato, agradecido, expectante, tristonho. Enquanto isso, o olhar de Maninho prolongou-se uns segundos à retaguarda: ao virar-se para ralhar piedosamente o cão, apanhara de relance um luziluzir na soleira do rancho. Firmando a vista, percebeu que era a irmãzinha, segurando uma vela, olhando os ginetes que se afastavam. A chama drapejava no vão da porta e a menina estava ereta e imóvel na orla da brisa. Mesmo à distância Maninho notou que ela respirava normalmente, como se a febre, por mistério, houvesse subitamente evaporado de seus pulmões. Ali quieta, agarrada numa chispa de luz, ocupando por um instante o coração da noite outonal, ela parecia o emblema de alguma coisa que Maninho, em caminhos tortos de sua mente, podia enxergar apenas de viés. A ramaria de sombras sussurrava ao passar dos viajantes, e lá atrás a menina parecia guardar o rancho, sozinha com seu lume; mas Mano Lopes tinha os olhos fixos no caminho à frente e não a viu.

Em silêncio atravessaram a desolação da campanha. Na face do deserto, entre as gradações das sombras, apontavam às vezes os vestígios deixados pela prolongada ruína das gerações: os restos de uma cerca, o perfil denteado de uma parede há muito caída. Naquela sesmaria houvera outrora fortins e taipas de pedra, encimadas de pau-a-pique, erguidas contra os jaguares noturnos; mas os jaguares haviam se dissipado e os fortins voltaram ao pó; entre as ondulações dos mangueirões semiapagados, brotaram casas de pátio e algibe, branquejando os cerros; mas continuaram sobrevindo os anos, no rio contrário do tempo, empuxando montoneiras e adagas, invernias agrestes e verões de morte, desenganos e vinditas, e de tanto em tanto tudo se tornava um ermo novamente; e nos alicerces das casas caídas haviam brotado macegas, trevos e chilcais; e do fundo das chircas renasceram ranchos e dos ranchos brotaram galpões; e assim a rarefeita humanidade enchera surdamente as décadas sem jamais se aglutinar no espaço nem romper o domínio da solidão atávica. Espessos sobre a terra se deitavam seus fantasmas, quietos agora, enquanto os dois ginetes cruzavam o campo, e o cume dos Assustados crescia paulatinamente rumo ao Cruzeiro do Sul.

O silêncio abriu-se de repente num alvoroço de asas, no sussurro de um voo rasante; depois, veio o grito da tajã, que se propagou pelos campos até se perder nos matagais negro-azulados. Quem estivesse de tocaia no descampado decerto escutaria o buliço da passarada, mesmo a légua e meia de distância; mas os dois obscuros cavaleiros já tinham cruzado a restinga e chegavam à boca do despenhadeiro, que rasgava caminho na cordilheira e serpeava até onde a terra muda de nome. Na clara penumbra, pestanejou um fogo: era Mano Lopes que finalmente acendia o cigarro, não se importando que alguém de longe visse o pito. E só então Maninho compreendeu: seu pai escolhera este caminho porque aqui ninguém se atreveria a segui-los.

Entraram numa outra noite, mais áspera e angulosa que a noite externa, como um castelo de calhaus no fundo de um lago escuro. Durante longo tempo cavalgaram por essa terra estranha e sem firmamento, cujo céu era a vertigem dos paredões de pedra erguendo-se além da vista, selados pelas nuvens de neblina que brotavam dos buritizais; e a luz que aqui boiava parecia vir de uns veios fantasmais na penedia, que soltavam dissipados lusco-fuscos. Não havia sulco nem picada, e era preciso confiar na prudência dos cavalos em achar um passadiço. De tempos em tempos Maninho imaginava se não rolariam, o pai e ele, numa caverna sem fundo, lá onde morrem todas as faíscas; porém, a dizer a verdade, o que mais o assustava agora não eram as funduras da terra, mas a altura ensimesmada dos rochedos, que se sucediam e se sobrepunham ao infinito, como a formar um universo à parte, feito só de pedra. Mais que o medo das almas fantásticas, foi o peso daquele velho mundo encastelado o que fez Maninho debruçar-se na tordilha e abraçar-lhe a tábua do pescoço. Enfiou o rosto nas crinas, fechou os olhos, misturou-se à andadura sestrosa da égua, respirando-lhe o suor grosso, apertando as panturrilhas no calor de sua barriga; e assim o tempo surdamente transcorreu. Suspenso entre a morna pulsação da tordilha e a nítida friagem do outono, Maninho acabou esquecendo onde estava e para onde ia, e por pouco não se convenceu de ser um outro guri, cruzando outras paragens, enancado noutro destino, rumo a terras que jamais conheceria, lá onde os ventos têm outros nomes e as estrelas desenham coisas diferentes; mas então ergueu a cabeça, como animal que escuta um prenúncio da trovoada ‒ pois, em algum lugar na noite agreste, despontava uma espécie de música.

No início parecia só o rodopio do vento nas brenhas do penhasco, mas aquele ciciar rolava e tomava corpo entre as fragas, duplicando-se num eco vago, tremulando às vezes no limite da audição, pra ressurgir de pronto na forquilha de um penedo e percutir na bocada das furnas; e às vezes parecia haver palavras nesses giros, mas palavras desgastadas de tanto rodopiar nas rochas e no tempo, como um segredo que dá muitas voltas no fogo e acaba chegando aos ouvidos como a pele solta de um sussurro. E a melodia era ao mesmo tempo estranha e familiar, como algo que se conheceu um dia, mas depois se esqueceu. Enquanto isso, um incêndio branco clareava a fenda dos paredões, era a lua abrindo o teto escuro do perau, e agora dava pra ver as brenhas se mexendo lá em cima, enquanto o pensamento de Maninho se espalhava sobre a serrania: e a cantiga, a cantiga só podia ser o velho Cotuba recorrendo os campos, decidindo se esta noite buscaria algum butim entre os vivos, estudando as criaturas que atravessavam o vale, percebendo o estalar dos ossos sob a aragem fria; e as vestes de caraguatá roçagavam nas pedras enquanto ele saltava de furna em furna, os olhos velozes abarcando o universo escurecido. Mas a atenção de Cotuba se desviou de repente para outros lados, pois havia muita coisa acontecendo nesta noite: havia os gauchos malos que rondavam o cerro pelo norte, vindos de longe pra cobrar a dívida sangrenta, descobrindo-se incapazes de cruzar a boca do perau, titubeando entre duas ou três veredas que contornavam os montes e planejando campear o haragano Mano Lopes em Cerro Largo ‒ mais cedo ou mais tarde pegamos ele, pode fugir, mas não pode se esconder; e havia a mulher que arfava na cama sem saber se o vulto que lhe beijara o rosto horas antes era mesmo seu homem voltando para casa ou mais um demônio da febre ‒ a mulher que até o clarear do dia estará ou morta, ou curada, mas nada sabe do próprio destino; e havia a menina que ainda segurava o lume à beira do rancho e confusamente recordava outro dia, cinco anos atrás, quando vira Mano Lopes partir a cavalo pela primeira vez, e agora se perguntava se o irmão voltaria para casa ou também sumiria no mundo, esse mundo que ela própria mal e mal podia imaginar ‒ e pensava essas coisas sem medo ou rancor, apenas decidida a ficar ali na porta guardando o limiar da sombra até a vela se extinguir; e havia o ovelheiro Baìto finalmente adormecido entre os araçás, sonhando os sonhos dos cachorros, apenas ele alheio ao silencioso turbilhão que varria os ermos sob a lua. Tudo isso o velho Cotuba reparava de forma simultânea e total, mas então voltou os olhos para o fundo da penedia, e ouviu de novo o estralejar de ossos e teve ganas de correr cantando cordilheira abaixo, esmagar os incautos andarilhos nas canhadas mortíferas, tirar-lhes uma lasca de fêmur e mandar suas almas à invernada dos mortos, dançando ao som da milonga antiga; mas, ao debruçar-se no paredão, inspirou as brisas ascendentes, farejou o sangue deles e sentiu algo agitar-se na memória entreverada pelos séculos; sua cantiga elevou-se um tom, dois tons, e começou a recuar, confundindo-se pouco a pouco com os outros barulhinhos da noite, mergulhando gradualmente nas sete profundidades até sumir.

E a todas essas, Mano Lopes dava fogo ao novo pito, calmamente, sem erguer o rosto, firme no ruano que o filho encilhara a preceito.

5.

Existe um momento na madrugada dos campos em que todos os barulhos ficam suspensos e a natureza das coisas misteriosamente se transforma: é então que o leão baio volta à toca, e as lechiguanas congeladas estremecem nas colmeias, e até a sentinela mais atenta cabeceia nos pelegos; quando as pálpebras traiçoeiras enfim se entreabrem, corre por tudo uma luz de prata velha e cantam os cardeais. Um alvoroço nas folhagens, e Maninho firmou a cabeça, oscilando em decrescentes ondas de vertigem; os paredões haviam sumido e a antemanhã enchia seus olhos. Lá atrás, o claro da aurora começava a lamber a encosta dos Assustados e a boca do vale era um triângulo de neblinas cravado no buritizal. À frente, havia um alambrado meio caído e uma lhanura com pasto alto. Era a divisa. Apearam. Mano Lopes tirou o saco da cintura e começou a mexer nos peçuelos. Chegava a hora de cada um tomar seu rumo.

Mas por que, por que o Cotuba nos deixou passar? ‒ era a pergunta que girava na cabeça de Maninho misturando-se agora à tontura do alvorecer, enquanto virava o pelego para apertar a cincha. O pai decerto conhecia a resposta ‒ a bizarria dele ao puxar um pito naqueles fundões terríveis tinha de ser um sinuelo, indicador de algum conhecimento obscuro que Maninho, no desespero de quem pressente um desfecho, queria partilhar. Mas Mano Lopes só averiguava a lanterna, a garrucha, uns papéis, o curativo. Não falaria, não falariam. O sol agora subia dos banhados, ofuscando as feições da noite até mesmo nas reentrâncias da mente: a melodia do despenhadeiro se dissipava da memória, como a forma de um sonho que se desmancha à primeira luz da manhã. E, pensando bem, não teria mesmo sido um sonho, tudo aquilo? Talvez o aconchego das crinas e o balanço da tordilha o houvessem enganado, fazendo-o confundir as paisagens do sono e da vigília. Lá nos Assustados, a cantiga lhe parecera mais real que a própria carne e até pensara ouvir os pensamentos do velho Cotuba nos fortins da serrania; mas idêntica certeza tivera no início da noite, esperando que a terceira batida na porta comprovasse a visita do fantasma ‒ e no fim das contas, o espectro era Mano Lopes que vinha arrastá-lo nessa absurda campereada. E se fosse tudo engano? Vai ver fugiam de inimigos inventados, vai ver o pai só queria pegar a garrucha pra cometer maldades terra afora, vai ver precisava de alguém que lhe aplicasse a guaçatunga e encilhasse os cavalos; os Assustados eram só mais um caminho de fuga e agora partiria de novo, sem explicação, talvez para sempre. Não, não havia Cotuba, e as almas penadas eram eles mesmos, os que andavam sob o sol, presos num rumo torto que as gerações não sabiam corrigir; se o pai tinha grandes cousas a cumprir no mundo, por que não levava o filho junto, por que não lhe ensinava suas artes de herói ou bandido, por que se preparava agora para largá-lo na curva da trilha? Por que Maninho tinha de ficar aqui, do lado errado do arame, preso na terra feito a ossada dos ancestrais? Não, Mano Lopes não guardava enigmas, era só um andarengo que ia colhendo por aí a inhapa que pudesse e deixando pra trás o que não lhe servia.

Embrenhava-se Maninho nessa derradeira conclusão, repuxando o látego e pensando que talvez devesse mesmo ter entortado os arreios do pai no início da jornada ‒ quando a mão de repente resvalou na argola da cincha e a cabeça volteou num sobressalto. Ajeitando o cinto sob o bichará, Mano Lopes começara a puxar um assovio, e a ciciada melodia oscilou pra um lado, oscilou pro outro, achou o prumo e se encorpou: nitidamente reviveram as mortiças memórias da noite. Essa copla, arremedada e sem palavras, era contudo a mesma de antes, era a canção de Cotuba, escorreita milonga que passava além da alegria e da tristeza, às vezes planando, às vezes arremetendo, sisuda e forte como voo de coruja ‒ e assim como pensara reconhecê-la no deserto da meia-noite, Maninho sentia agora revolver-se a feição de um difuso e misterioso entendimento. Sempre enredado no assovio, Mano Lopes puxou o cabresto do ruano, pegou da garrucha e colocou-os juntos nas mãos do filho; ao toque do metal gelado, ao oscilar da toada insólita, Maninho terminou de compreender o que todos os Lopes nascem sabendo, mas precisam, em algum momento, recordar. Dois homens não podem sonhar o mesmo sonho, e a assoviada milonga confirmava o legado que agora trocava tacitamente de mãos: para todo rio há um barqueiro, para todo ermo, um vaqueano; o mundo escolhe quem pode adentrar suas regiões de sombra e delas sair para contar a história. Em tempos nebulosos e irrecuperáveis, fora confiado aos Lopes aquele rancho fronteiro junto à grande encruzilhada: somente eles, soturnos como a terra soturna, podiam cruzar o híbrido caminho tenebroso, ouvir a canção fatal e voltar ao rancherio dos vivos assoviando a milonga de Cotuba dos Ermos. Por ali retornaria, sozinho, montado na tordilha, com o ruano a cabresto, a garrucha na cintura ‒ e mais uma vez o Senhor dos Assustados lembraria a antiga aliança e o deixaria passar.

Calou-se o assovio, no alevantar do minuano.

‒ Tu cuida do rancho, Mano ‒ disse o Lopes mais velho ao Lopes mais moço. Depois baixou o arame frouxo e enveredou pelo pastiçal; o sol oblíquo ardia em seu pescoço cor de terra na alvorada dos campos. E enquanto o bichará sumia nos santa-fezais, o guri com rosto de madeira e olhos de pedra retomou o assovio quebrado e a milonga cresceu dentro dele como um pedaço de vento e ali à beira da divisa ele contemplou seu quinhão na partilha universal das coisas: a alguns cabe rodar a Terra, ao sabor da desventura e do assombro, sem conhecer o dia do retorno; a outros cabe ficar aqui, de sentinela, nas taperas da memória, no país da solidão. E por saber tudo isso, Maninho já não era mais Maninho. Era o guardião dos ermos e continuaria a sê-lo enquanto seu pai não voltasse ou algum outro viesse rendê-lo: pois há de haver um Lopes na Sesmaria Perdida até que os peraus se fechem e as estrelas mudem de lugar.

José Francisco Botelho é autor de A árvore que falava aramaico (Zouk, 2014) e Cavalos de Cronos (Zouk, 2018), escolhido o livro do ano no Prêmio Açorianos de 2019. Tradutor de Shakespeare para a Penguin-Companhia.

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