DE ‘LÍCIDAS’, DE LEONARDO ANTUNES

Do prefácio de Rafael Brunhara

“Não diferem o historiador e poeta”, diz Aristóteles em trecho que constitui o cerne de sua Arte Poética, “senão em que diz um as coisas que sucederam, e outro como poderiam suceder”. Esta pequena obra de Leonardo Antunes, poeta, helenista e tradutor, exemplifica bem e tensiona, nos limites de nossas representações estéticas contemporâneas, a preceptiva aristotélica.

Lícidas retira seu argumento de um episódio das Guerras Pérsicas, relatado no século V a.C. por Heródoto em sua obra Histórias. Logo depois da Batalha de Salamina, Mardônio, comandante persa, envia um embaixador de nome Miríquidas para fazer aos Atenienses uma oferta de paz. É aí que surge Lícidas, um membro do conselho dos atenienses. Assim relata o historiador (Histórias, Livro IX, 5, minha tradução):

  Um dos conselheiros, Lícidas, deu a opinião que lhe parecia melhor: aceitar a oferta que Miríquidas lhe trazia e levá-la ao povo. Declarou essa opinião ou porque recebera dinheiro de Mardônio, ou porque de fato ela o agradava; mas os Atenienses ficaram imediatamente indignados, tanto os do conselho como os de fora, quando souberam disso. Cercaram Lícidas e o apedrejaram até a morte, enquanto ao helespôntio Miríquidas expulsaram ileso. Como houve muito tumulto em Salamina sobre Lícidas, as mulheres de Atenas tomaram conhecimento do incidente e, incitando-se e exortando-se umas às outras, foram por impulso próprio à casa de Lícidas e também apedrejaram a sua esposa e filhos.

Não se sabe que uso o público de Heródoto teria feito deste episódio. O próprio historiador não deixa de aludir, rapidamente, à ironia de condenar um cidadão de Atenas e devolver o inimigo ileso à sua terra. Sabemos que, posteriormente a Heródoto, outros autores se serviram deste relato ou similares para elogiar a aguerrida e intransigente inclinação dos Atenienses para a liberdade, que se refletia nos combates contra os invasores persas. Não se questionam as deliberações do povo, uma vez que age em conjunto visando o bem coletivo. Nestes panegíricos, estaria implícito o princípio de que a decisão da maioria, nascida da deliberação coletiva, é capaz de alcançar melhores soluções do que o governo de um homem só.

Livre de qualquer romantismo atribuído à democracia ateniense, o autor Leonardo Antunes resgata o triste fim de Lícidas e faz dele uma alegoria política em que sobressai a triste constatação de que a vontade popular pode ser violenta, equivocada, inclemente, em vez de unicamente um receptáculo de virtudes em prol de uma vida melhor.

Os próprios gregos, na alvorada da democracia, a problematizavam: é essa percepção que faz com que Platão abomine a democracia, tratando-a como uma forma de governo superior apenas à tirania; o próprio Heródoto dramatiza um surreal debate na corte dos persas sobre as diversas maneiras de governar (Histórias, VIII, 80-82) em que respectivamente há uma defesa da democracia, da oligarquia e da monarquia. Vence a monarquia, como convém aos Persas, pois é melhor o governo de um único homem, desde que excelente, do que o de uma multidão descomedida.

Com Lícidas, porém, não estamos mais no âmbito do particular, que Aristóteles professa pertencer à História. Ao transformar o episódio de Lícidas em uma alegoria política, que reverbera contemporaneamente, Antunes também passa o relato de Heródoto para o domínio do universal. É, portanto, poesia, segundo a lição aristotélica.

Como outros leitores de Heródoto na Antiguidade, Antunes é atento ao potencial trágico dos relatos das Histórias. Ele transpõe a insuspeita e terrível atualidade do episódio de Lícidas formatando-o nos moldes do gênero trágico grego. Desta feita, produz uma sobreposição de tempos e estéticas: Antunes resgata o fato romanceado por Heródoto para que constatemos, aterrados, o próprio tempo em que vivemos; do mesmo modo, diante da pletora das representações artísticas contemporâneas, Antunes retoma e subverte um gênero antigo, a estrutura da tragédia grega. Em outras palavras, se no plano do conteúdo a história de Lícidas volta a nos soar recente, igualmente, no plano formal, se dá o mesmo com o gênero trágico, também reabilitado contemporaneamente para recontar um destino funesto. Trata-se da regra clássica do decorum poético-retórico: cada circunstância terá o um gênero poético correspondente, como se fosse possível aos gêneros literários refletirem-se ética e politicamente.

Há, contudo, um tensionamento: diante dos eventos narrados em sua peça, Antunes se permite brincar e subverter as preceptivas do gênero trágico. Apresento aqui dois exemplos de como isso se articula na peça.

Nas tragédias gregas o coro atuava como uma metonímia da cidade e, como tal, expunha valores caros a ela, como o louvor à temperança (sophrosýne) quando confrontado com os inadequados excessos (hýbris) dos heróis que as protagonizavam. Mas em Lícidas a voz da cidade é ela mesma perpetradora de hýbris e vítima do jugo e das palavras do mais forte. As típicas advertências prudentes dos coros trágicos tornam-se, aqui, “canto sombrio” que exalta e ratifica a violência. Depois do assassinato da esposa e dos filhos de Lícidas, e do próprio Corifeu (!!!), o coro entra em cena cantando (vv. 693-712):

  Ínferas potestades,
bebei o sangue de nossos traidores
e liberai o caminho de casa
para a volta os filhos de Atenas!

Agora na balança Zeus sopesa
as chances que teremos na batalha.
As vísceras exsurgem para a luz!
O quanto for possível
a nós mortais sabermos
o vale vai torná-lo manifesto!

A toda pátria um fármaco é bem-vindo,
um único mortal que em si concentre
as máculas de toda a sociedade.
Nós hoje temos quatro!
O pai, a mãe e os filhos!
É quádrupla a fortuna deste povo!

Dulcíssimas deidades,
bebei o sangue de nossos traidores
e liberai o caminho de casa
para a volta os filhos de Atenas!

Aristóteles define que o objeto de imitação da tragédia são os homens superiores que, embora não se distingam excessivamente pela virtude ou justiça, são representantes de famílias insignes e gozam de prestígio e fortuna. Só assim a tragédia poderia alcançar o seu efeito, pois a queda de tal figura, por homologia ao nosso destino, se tornaria para nós digna de compaixão. No Lícidas, o argumento de uma presumida superioridade é evocado apenas para justificar a violência. Depois de representar um assassinato – momento que contraria a preceptiva trágica de que a morte não deve ser mostrada em cena – Heterócrates se justifica, com um argumento contra o qual o coro não pode opor (vv. 656-663):

  […] Não há como acontecer
alguma coisa dessa natureza
com homens belos e bons, como nós –
não só porque atuamos com coragem,
tanto na fala quanto nas ações,
mas porque somos de estirpe divina,
nascidos em famílias gloriosas,
em clãs fundados por grandes heróis,
que foram nutridos por Zeus eles próprios.

Tudo somado, Lícidas é uma obra eminentemente atual, não só por causa de vertigens temporais que provoca mas também por causa de suas sobreposições de estéticas: tragédia, grega e contemporânea. A obra de Antunes logra nos causar o efeito há muito preconizado por Aristóteles para a tragédia: suscitar terror e piedade. Que, assim, ela também possa resultar na purificação de nossos próprios sentimentos.

Leonardo Antunes (São Paulo, 1983) é poeta, tradutor e professor de língua e literatura grega na UFRGS. É autor de “João & Maria – Dúplice coroa de sonetos fúnebres” (Editora Patuá), que recebeu os prêmios AGES (melhor livro de poesia) e Açorianos (melhor livro de poesia e livro do ano). Tradutor do “Édipo Tirano” de Sófocles (Editora Todavia), atualmente dedica-se a uma tradução da “Ilíada” de Homero em decassílabos duplos.

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