DE ‘SPOILERS’, DE DIEGO GRANDO

PREÂMBULO PARA UM POEMA TARDIO

Ir para o inferno toma tempo
à cata do incidente emaranhado
toma tempo e trinta e tantas
tentativas, primeiras palavras
pedidos de desculpa e demissão:
ricocheteios de cascalho
na superfície da memória.

Não basta boa vontade
para chegar ao inferno
é preciso o reflexo condicionado
de não estar pensando e de repente
estar: voltar a si, se descobrir
antes da próxima rodada
durante um jogo de tabuleiro.

Também estudo insistente
sobre circunstâncias agravantes
suscetibilidades compatíveis
com as dimensões e o caráter
irrevogável do incidente:
o inferno, afinal, é dos autodidatas
não dos autocomplacentes.

Diante da ausência de um guia
adequado à faixa etária
e aos índices de umidade
a disposição ao segredo, ao resta um
da existência é requerida:
o resto é vade retro e tira-gosto
de luto, vitamina c e cama.



PRESTAÇÃO DE CONTAS

Conheço o jeito exato de fazer errado
perdido nesta teia que não tem enredo
(como bater na porta com a ponta dos dedos
como buscar um bit num banco de dados)

Conheço de cabeça o que não interessa
aos donos da verdade, este bilhar sem mesa
(o rio não tem por que fugir da correnteza
a lesma só se arrasta por que não tem pressa)

Conheço pelo som o que não tem sentido
o que não tem segredo, puro falatório
(os riscos nas paredes dos reformatórios
os traços e de audiência dos desconhecidos)

Conheço por inteiro o meio do caminho
e até ali eu vou: depois dali não passo
(relendo folha a folha os mesmos calhamaços
ilhando-me no espelho a milhas dos vizinhos)

Conheço com frequência o que não passa nunca
e deixa marcas roxas no fio da navalha
(um pássaro acalenta tanto que atrapalha
um copo de aguardente mais que alegra trunca)

Conheço pontualmente a falta de horário
dos que me fazem falta nesse dia a dia
(atrás dos velhos álbuns de fotografias
atrás das folhas rasuradas dos diários)

Conheço e recomeço e logo mais esqueço
(no ouvido a mão em concha perguntando onde
na testa a mão em aba procurando longe)
atalhos, chaves mestras para o lado avesso



PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO

A vida – esse burrito de argamassa
que a gente vem comer com fome e pressa
e para digerir leva um bocado

O tempo – esse temaki de água-viva
um cone algodoado feito luva
que a mão humana nunca é que se livra

O ser – essa salada contingente
de folhas frutas brotos
chochos de esperança

A lógica – esse hambúrguer carbonato
de sódio lítio glúten glutamato
e uma porção pequena de poliestireno

A moral – essa pasta nada à moda
escalopes ao molho madeira e talheres
pretos plásticos embalados

A razão – essa torre de chopp
esse xarope útopico
gaseificado

A ética – esse suco descartável
polpa de água batida
em copo ecológico certificado

A fé – esse café de águas passadas
por cápsulas viçosas de alumínio
aos pingos espartanos de aspartame

A metafísica – essa paleta intraduzível
palito enobrecido
entorpecido de recheio

O cosmo – esse amontoado de pequenos sóis
com tampo de granito onde orbitamos
acenando ansiosos para sermos vistos



PÓS-ESCRITO PARA UMA POEMA TARDIO

Faz vinte cinco ou mais que não nos vemos
e não são meses nem semanas de que estou
falando, nem que culpa haja, ou seja
tua, minha: acontece simplesmente
um de nós ter morrido.

E como carta não chegava
em qualquer endereço que passasse
na Rua do Templo ou em Canoas
na Casa das Baratas, nu terraço
do Bom Fim, no Piemonte
nos fundos de uma fábrica de mármore
em frente ao mausoléu de Halicarnasso
achei por bem não dar mais uma volta
ao mundo das ideias soterradas.

Do que nos livramos: as piadas
e trocadilhos derivados
com nomes de duplas sertanejas
as trocas e o quem-é-quem decorrentes
da heteronímia, da paronomásia.

O que persiste: sete ou oito fotogramas
e respectivos positivos
de uma festa de aniversário
a imagem pixelada numa rede
num grupo em que fui
incorporado, e tu
ao centro, mostrando os dentes
sem sorrir, de pé, uma ex-colega
fazendo um eufemismo convincente
na caixa de comentários
e assim os que não recordavam
recordaram, lastimaram e curtiram
o cupê made in Hong Kong
com portas e capô articulados
no fundo da gaveta das cuecas.

O que não interessa mais: o fato
por uma vogal apenas
do meu nome soar melhor
se alguém o chama
a mim, no diminutivo.

Diego Grando nasceu em Porto Alegre, em 1981. Publicou os livros “Desencantado carrossel”, “Sétima do singular” e o in-fólio “25 Rua do Templo / Palavra Paris”. Faz parte do elenco do Sarau Elétrico, tradicional evento de literatura que acontece em Porto Alegre. “Spoilers” foi desenvolvido como parte de sua tese de doutorado em Letras, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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