Uma capa de disco sobreposta a outras quatro

FUSION À PAMPA – LUCIO CARVALHO

Em meados da década de 80, precisamente em 1985, o Brasil oficializou a existência do jazz em território nacional. O Free Jazz Festival, evento simultâneo no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de trazer nomes consagrados da cena internacional, popularizou um pouco mais o gênero e obrigou as lojas de discos a abrir uma seção a mais entre as suas fileiras de longplays. Ali, deveriam aparecer agora, ao lado da música brasileira e estrangeira (além das trilhas de novela), nomes internacionais famosos que desfilaram nos palcos do festival e outros – brasileiros da gema – mais conhecidos por acompanhar os intérpretes nacionais, fossem medalhões ou menos conhecidos.

Não é que os músicos e instrumentistas brasileiros não tivessem a essa altura certo público para seu trabalho autoral, mas infinitesimal diante ao pop (e suas derivações) que tomou conta da mídia da época, toda ela um conjunto muito controlado em uma partilha da difusão televisiva e radiofônica.

Naquele ano, desfilaram no Free Jazz Festival os grande nomes da música instrumental brasileira consagrados nas décadas anteriores. Egberto Gismonti (a essa altura mais que reconhecido mundo afora), os guitarristas Hélio Delmiro, Toninho Horta e Heraldo do Monte, o saxofonista e clarinetista Paulo Moura, Wagner Tiso, o trompetista Márcio Montarroyos e os lendários Pau Brasil e Zimbo Trio. Todos estiveram lá, na primeira edição do festival. Nas seguintes, outros tantos e, na esteira do momento propício, discos e mais discos abarrotaram as lojas e coleções de velhos e novos adictos.

Além dos brasileiros, os nomes estrangeiros também popularizaram-se sobremaneira no país inteiro no período. Até mesmo nas lojas de discos do interior do estado podia-se encontrar gravações dos selos mais cultuados do jazz internacional, como a Blue Note norte-americana e a ECM alemã, que já gravara Egberto Gismonti muitas vezes, mas também uma miríade de sonoridades inovadoras em que fusionavam o jazz com o erudito, com o rock, com a música oriental e o que mais fosse possível.

O fim dos anos 70 e o começo dos 80, que haviam marcado o esgotamento de muitos gêneros que faziam a cabeça de muita gente jovem, especialmente o rock progressivo do Pink Floyd, Yes, King Crimson e outros, assistiu a aparição (não me ocorre termo melhor) súbita nas lojas dos discos do Pat Metheny Group, da Mahavishnu Orchestra, do Return to Forever de Chick Corea, também o Weather Report que já havia flertado bastante com a música brasileira de Milton Nascimento e outros mais efêmeros, consagrando o fusion na sua vertente mais difundida, o jazz-rock, como um estilo sonoramente alternativo e diferenciado em relação ao pop internacional e também à renascida cena do rock nacional, o verdadeiro arrasa-quarteirão comercial do disco nacional na segunda metade daquela década.

O fusion, embora abençoado desde a origem, no final dos anos 60 ainda, por ninguém menos que Miles Davis, tornou-se estilisticamente cada vez mais ousado e tecnicamente arrojado. Como o rock nem sonhava fazer, os músicos experientes do jazz e da cena instrumental brasileira logo trataram de aproveitar toda a nova gama de recursos de estúdio, de instrumentos e técnica musical para produzir discos muito impactantes. Mesmo assim, essa tendência parecia restrita ao eixo Rio-São Paulo, como sempre, e por aqui no sul respingaria alguma coisa com muita sorte.

Por aqui, a cena instrumental já tinha registros importantes com o pianista Geraldo Flach e o gaiteiro Renato Borghetti também havia já impactado muito com sua técnica arrojada num instrumento rude como a gaita ponto, até que praticamente em um ano apenas apareceram dois discos que inauguraram e consolidaram um conceito muito avançado do que se estava produzindo Brasil e mundo afora no que diz respeito ao jazz contemporâneo, incluindo aqui todas as suas matizes. Com Trajetória, de 1984, o Raiz de Pedra consagrava a seu modo a transição do rock progressivo para o jazz contemporâneo trazendo as guitarras de Pedro Tagliani e o sax e flauta de Marcio Tubino para o centro solista de uma base muito bem arranjada e concebida, executada por Cezar Audi, Ciro Andrade e Marcelo Nadruz. Do outro lado da fita (ou na mesma extensão da panorâmica), aparecia logo a seguir o disco homônimo do Cheiro de Vida.

É difícil explicar tantos anos depois o impacto sonoro desses dois discos, mas especialmente o do Cheiro de Vida. O grupo formado por Carlos Martau, Renato Alscher, Paulo Supekóvia, André Gomes e Alexandre Fonseca, embora fosse relativamente conhecido desde o final da década de 70, em 1985 atingira uma maturidade sonora ainda hoje indelével. Mais de três décadas da gravação, tempo hábil para aposentarem-se sonoridades e harmonias, o disco de estúdio do Cheiro de Vida (em 1988 foi lançado um disco ao vivo, gravado no Teatro da OSPA em Porto Alegre) mantém intacto o poder e a afinação instrumental como poucos discos brasileiros do estilo (e de qualquer estilo) obtiveram. Além disso, por ser único registro e irrepetível, está assegurado sem dúvida nenhuma entre as peças de culto de qualquer apreciador com juízo.

Com um repertório muito marcado pela batida e pelo slap dos funk-grooves de André Gomes, mas também heterogêneo ao evidenciar a tonalidade brilhante das guitarras de Martau e Supekovia (não por acaso o guitarrista Pedro Tagliani está com eles para gravar o tema Crepúsculo), o Cheiro de Vida fez com que muitas pessoas suspendessem o espanto sonoro com o fusion estrangeiro para prestar um pouco mais de atenção no que estava aqui, bem ao lado. Às vezes, quem tem por hábito dizer diz que santo de casa não faz milagre erra e muito feio. O Cheiro de Vida, passadas (como num tapa) mais de três décadas já, comprova isso muito bem. E o seu “milagre”, basta que se o escute atentamente, ainda é de causar espanto.

Lucio Carvalho é editor de sepé.

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