Tomada antiga da Rua Marcílio DIas

MARCÍLIO DIAS – CONTO INÉDITO DE NAIDA MENEZES

Osmar, de calça branca, camiseta branca, mente branca. Nada pensava, apenas sentia o leve peso do violão nas costas e o sofrimento dos pés na calçada irregular. Nunca havia percebido as casinhas “porta e janela, porta e janela, porta e janela”. Essa sucessão, talvez, tenha-o deixado alheio a tudo e colaborado para o incidente.

Ele caminhava rente à parede das casas quando, de repente, veio o susto: terminada a limpeza, a senhora joga o balde com água e o acerta em cheio. Foi um “deus nos acuda”. Os vizinhos chegando, a senhora se desculpando pretendia reaproveitar a água para limpar a calçada. Osmar, pensando no violão, é interpelado por um rapaz que morava ali ao lado e trazia roupas secas, enquanto um senhor contava sobre um fato similar sucedido em sua infância.

Mas Osmar não escuta mais nada, é levado pela senhora para o que ela chama de quarto de banho – um banheiro velho, com tantos detalhes a observar. Pó de arroz, penico de ágata em um canto, banheira aloçada no outro, e assim por diante. Ele lembrou do banheiro da casa da avó: grande, só cimento, tudo cinza sem azulejos. Em um canto, uma prateleira coberta por uma cortina de pano em que sua avó guardava objetos que não estavam em uso. Quando criança, Osmar não resistia e vasculhava com os dedos rápidos. Lá encontrara um pedaço de jornal amarelado com um artigo sobre o então Presidente Getúlio Vargas e também havia uma fotografia antiga do centro da cidade. Só depois de adulto entendeu que aquela prateleira no banheiro não era misteriosa e nem guardava segredos, quer dizer, os segredos certamente existiam, mas os objetos ali guardados eram apenas indícios.

Aproveitou que a senhora ainda estava lá fora com os vizinhos – papo de vizinho é sempre interminável – e caminhou pelo corredor comprido observando os outros quartos que não eram de banho. Em um deles deparou-se com uma antiga e majestosa “penteadeira” com espelhos de bordas trabalhadas. Os espelhos, de tão velhos, apresentavam pontos irregulares pretos. Um espelho que não espelha se recusando, talvez, a mostrar à senhora tantos e tantos sinais do tempo.

Em cima da penteadeira, três perucas postas em pequenos pedestais. Também havia uma porção de objetos de maquiagem, caixinhas com pulseiras, braceletes e adornos para o cabelo como plumas e coroas, tudo muito colorido.

Osmar houve o barulho de passos arrastados. Ela se aproxima e ao ver o rapaz junto à penteadeira lhe remete um olhar inquisidor, tão inquisidor quanto o dele. Por isso, a senhora logo explica que coleciona objetos antigos e rapidamente o encaminha para a porta de saída se desculpando mais uma vez pelo infortúnio e prometendo nunca mais atirar água ao léu.

Osmar, a essas alturas, perdera a aula de música. Faz o caminho de volta para casa, e mais uma vez seu pensamento se perde entre as portas e janelas sucessivas da Rua Marcílio Dias. Aquele quarto; aquela penteadeira. Não. Não eram objetos fortuitos de antiquários. Ora, ora, mas é claro! Cedo ou tarde ele saberia mais sobre a vida da senhora. No quarto de banho esquecera suas roupas molhadas.

Um sorriso daqueles em que a boca não demonstra, mas os olhos sim, toma conta de seu semblante. Osmar pega o violão, ali mesmo na rua, e dedilha antigas canções de cabaré, olhando os paralelepípedos irregulares, como se fossem o contorno de cabeças em teatro escuro e lotado.

Naida Menezes é escritora e poeta. Licenciada e Mestre em história pela UFRGS, Doutora em Ciências Socias pela PUCRS. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s