O COLECIONADOR – CONTO INÉDITO DE ANTÔNIO SCHIMENECK

Nico tinha os olhos acostumados ao chão. Uma pedra diferente, uma figura de chiclete, um papel de bala, uma tampinha de garrafa, qualquer bugiganga poderia fazer parte de uma coleção. Em época de eleições, o garoto corria atrás dos carros que entupiam as ruas de panfletos. Quem não gostava disso era Dona Cenira, que implicava com as dezenas de caixas empilhadas no quarto do filho.

Mas, ao contrário do que se possa imaginar, ele era muito organizado. Cada caixa de sapatos era revestida de papel pardo, doado por Dona Olga, proprietária da farmácia, que possuía uma coleção de perucas e unhas postiças e simpatizava com o comportamento obstinado do menino.

A mãe dizia que, assim que ele arranjasse uma namorada, a mania desapareceria. Dito e feito. Adolescente ainda, o primeiro beijo roubado na saída do colégio fez o acúmulo de caixas no quarto parecer ridículo. Para surpresa de Dona Cenira, elas pararam no caminhão do lixo.

A primeira decepção amorosa provocou nele um profundo lamento pela perda de seus guardados. Caminhando a esmo, remoendo suas amarguras, parou em frente a uma tabacaria. A vitrine decorada exibia diversos produtos e novidades da loja. Um objeto quase insignificante lhe chamou a atenção, uma caixa de fósforos com a estampa de jovem guerreira. Entrou. Perguntou o preço. O balconista, um homem sério e magricela, respondeu que aquela era uma edição comemorativa e, por isso, custava cinquenta vezes mais que uma caixa de fósforos comum. Eram importadas da França.

O rapaz segurou o pequeno objeto, balançou entre os dedos para conferir se estava cheia. Encantou-se com aquela figura determinada. Sobre uma nuvem, segurava uma lança numa das mãos e trazia uma espada na cintura. Raios luminosos envolviam sua cabeça. Uma mistura de mulher-anjo.

─ E então, vai levar? ─ esbravejou o atendente.

─ Sim ─ respondeu Nico do fundo de seus pensamentos.

Entregou o valor ao empregado da tabacaria e ganhou a rua.

Ali começou sua perdição.

Se Dona Cenira achou ruim as caixas de papelão, imagine agora as centenas de caixas de fósforos espalhadas pelo dormitório. Sim, ele não se contentou com a primeira. Sua busca foi além. Descobriu que, através daquelas embalagens, a história de um país poderia ser contada.

A maior parte do seu salário destinava-se à compra de caixas de fósforos vindas do Brasil inteiro. Só não foi despedido, porque ocupava um cargo em repartição pública e ninguém se interessava em supervisionar sua produção. Os poucos amigos que conquistou no ambiente de trabalho lhe trouxeram, como lembrança de viagem, suas caixas mais raras: Uma do início do século, em homenagem a um sultão árabe e que trazia uma imagem de Maomé, outra com a seriedade de Stalin e uma com a efígie do Papa Pio XII.

Enfim, o negócio tomou um vulto que Nico não mais conseguia controlar. O quarto ficou pequeno. As caixas de fósforos começaram a se espalhar pelos demais cômodos da casa, para desespero da mãe, que não sabia mais como tirar o pó de tudo aquilo. Não via a hora de ele encontrar uma moça direita, ajuizada e que pusesse fim àquele pesadelo.

No entanto, a vida amorosa de Nico era tão ardente quanto um palito de fósforo apagado. Não tinha, na verdade, um interesse maior por outra coisa que não a sua coleção. Nem por isso se vá pensar que fosse um homem desinteressante. Ao contrário. Tinha estabilidade profissional, filho único, casa própria e bem-apessoado, muito embora não aparentasse nenhuma vaidade.

Mesmo não tomando conhecimento, começou a ser disputado pelas colegas desejosas em abocanhar um bom partido. A mais empenhada era Joana. Com jeito decidido e positivo, achegou-se para os lados do fleumático Nico. Quando percebeu, ela já havia se instalado na vida dele. Com intenções definitivas.

Os fatos sucederam sem causar-lhe muito impacto: A primeira visita de Joana à mãe, o noivado, o casamento, a mudança na casa para abrigar mais uma pessoa. Aos acontecimentos somaram-se caixas de fósforos, agora agrupadas por países de origem e coladas em molduras de quadros, que foram espalhadas pelas paredes da casa.

A coleção começou a chatear Joana durante o primeiro inverno que passaram juntos. A umidade deixava a casa impregnada de um nauseabundo cheiro de pólvora molhada. Esse foi o estopim para a série de reclamações que se desprenderam da boca da jovem esposa, decidida a colocar fim na loucura do marido. Faria o impossível para que ele acordasse para a vida, mudasse por completo e lhe desse mais do que as migalhas de carinho até então recebidas.

No entanto, a morte de Dona Cenira fez Joana perceber que a atenção de Nico se voltava mais para sua coleção do que à vida real. A velha senhora teve a vida interrompida sem mais nem por quê. Foi dormir e não acordou.

─ Morte boa ─ disse ele olhando para uma pilha de caixas de fósforos chegadas pelo correio no dia anterior.

─ Mas não deixa de ser morte ─ disse Joana entre lágrimas.

Durante o velório, Nico se mostrou distante, sem dar conversa a ninguém. As amigas de longa data de Dona Cenira murmuravam que aquilo era consternação, abalo pela perda da querida mãe. Argumento que Joana até poderia aceitar, não fosse o fato de vê-lo aproximar-se do candelabro no qual o padre acabara de acender três velas, justo quando iniciavam as exéquias, e discretamente colocar no bolso a caixa de fósforos utilizada pelo sacerdote.

O desassossego chegou ao limite, quando Joana descobriu estarem no vermelho.

A morte da sogra demandava algumas decisões que a nora teve de tomar. Pediu licença por dois dias da repartição e, ao ficar sozinha em casa, resolveu entrar no quarto da falecida para definir o que fazer com seus pertences.

Esse era o único cômodo livre das malditas caixas de fósforos. Encaixotou as roupas. Levou-as para a sala. Ligou para uma entidade beneficente, que buscou a doação logo depois do meio-dia. Fez uma mudança significativa no antigo quarto. Ali seria o seu refúgio. Porém, na inocente gaveta do criado mudo, encontrou algo que a fez perder o chão, um calhamaço de faturas de empréstimos vencidos realizados pela sogra na tentativa de saldar os gastos do filho e, como se não bastasse tudo isso, uma hipoteca da casa.

Joana assemelhou-se a um bicho ferido. Seria capaz de agarrar o marido pelo pescoço se ele aparecesse na sua frente. Cambaleou até a sala. Emitia grunhidos ininteligíveis. Cega de raiva, num impulso primitivo, arrancou as molduras cheias de caixas de fósforos das paredes. Quanto mais despedaçava as embalagens, mais os soluços se libertavam da sua garganta. Jogava-se pelas paredes e colocava por terra o motivo de sua ira. Um furacão parecia ter invadido a casa e não deixado pedra sobre pedra. E, para completar o cenário de guerra, num átimo de loucura, riscou um palito, dando início ao fogo que tomou conta do ambiente altamente inflamável.

Nico desceu do ônibus a uma quadra de casa. Não precisou caminhar muito para avistar a movimentação na rua. Correu ao perceber a fumaça escura se desprendendo de sua residência. A multidão abria-se para dar passagem ao homem desesperado que, de quando em quando, gritava fora de si:

 ─ Joana.

─ Pobre homem ─ disse Dona Olga, a farmacêutica. ─ Não bastou a mãe, agora perde aquela santa esposa, tão novinha…

 Chegou frente à casa a tempo de ver o carro de bombeiros dobrar a esquina com as sirenes ligadas. Dois vizinhos tentaram segurá-lo, mas ele livrou-se com um safanão, jogando-se contra a porta em chamas e entrando, enquanto chamava cada vez mais alto:

─ Joana.

Todos ficaram apavorados com a tragédia que se abateu sobre tão pacata família. Torciam para o homem conseguir sair com vida do incêndio e, quem sabe, salvando a jovem esposa.

─ Uma paixão sem limite! ─ disse uma senhora com um terço enrolado no pulso.

Os bombeiros direcionaram as mangueiras para a casa em chamas. Uma viga despencou, no exato momento que o homem saiu porta a fora tossindo e caiu desmaiado logo à frente.

Os curiosos se aproximaram; os bombeiros acionaram os jatos de água que bateram fortes contra as chamas para que não se espalhassem.

─ Não conseguiu ─ lamentou uma velha amiga de Dona Cenira, enquanto se aproximava de Nico que jazia inconsciente. Percebeu algo na mão do homem. Abaixou-se e pegou o objeto.

Uma caixa de fósforos.

Com a estampa de Joana D’Arc.

Antônio Schimeneck é de Tupanciretã e reside em Porto Alegre (RS). Trabalha na Ama Livros Distribuidora. É formado em Letras pela Unisinos, fez o Curso de Escrita Criativa da PUC com o escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, cursou Especialização em Literatura Brasileira na UFRGS e tem livros publicados para o público infantil e juvenil. Com Horas mortas, venceu o Açorianos infantojuvenil de 2019.

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