O ROMANCE BRASILEIRO NO SÉC. XXI – LUÍS AUGUSTO FISCHER

Estimar o futuro pode ser exercício ocioso, a menos que nasça do exame de interesses e tendências relevantes do presente. Vale lembrar o exemplo de Machado de Assis, que aos 40 anos de idade, em 1879, desenvolveu um diagnóstico de singular inteligência no artigo “A nova geração”.

Ele observava que, para os jovens, ocorrera “uma circunstância grave, o desenvolvimento das ciências modernas, que despovoaram o céu dos rapazes, que lhes deram diferente noção das coisas”, de tal modo que “um dos caracteres da nova direção intelectual terá de ser um otimismo, não só tranquilo, mas triunfante”. Era a força não dos temas da ciência de moda, figurada no evolucionismo, mas sim do espírito triunfante dessa corrente.

(Forçando um pouco a nota, ele flagrou o nascimento da vanguarda moderna. Na América hispânica, aliás, essa geração que Machado diagnosticou é a que recebe o rótulo de “modernista”, que entre nós foi chamada de parnasiana e simbolista. O zênite desse sentido “tranquilo e triunfante”, no Brasil, veio a acontecer no que aqui se chama de Modernismo, aquele centrado na Semana de 1922, que por certo merecerá celebrações eufóricas em seu centenário, daqui a pouco.)

Com um sentido aguçado para os processos históricos, Machado percebeu: os jovens tripudiavam do romantismo, mas algo dele permaneceria – “alguma coisa entra e fica no pecúlio do espírito humano”. A pergunta então é: o que temos de realmente forte, no fim da segunda década do século 21, que indique permanência?

Nas três gerações em atuação hoje – nascidos nos anos 30 e 40, como Verissimo, Chico Buarque e Augusto de Campos; outra com nascidos nos 50 e 60, como Hatoum, Tezza, Mussa, Ruffato, Paulo Lins, Rubens Figueiredo, Beatriz Bracher; e a mais nova, dos nascidos depois de 1970 e 80 –, há conquistas estáveis, territórios temáticos, estruturais e linguísticos incorporados ao pecúlio geral da literatura.

 A indiscutível excelência na canção (gênero obviamente literário), desde há 50 anos pelo menos, encontra paralelo na força do rap nas últimas décadas. O impressionante e inesperado papel das letras do rap na educação poética da juventude periférica parece confluir no vigor dos festivais de slam hoje.

Em poesia, nenhuma voz se impôs claramente, suspeito que exatamente pela força da canção. Mas temos figuras de primeiro nível (Paulo Henriques Brito, Ricardo Aleixo, Angélica Freitas).

O romance conheceu forte renovação nas três gerações. Com vocação para acolher a variedade da vida em seus próprios termos, o romance tem sabido vocalizar experiências de incontáveis grupos humanos específicos, incluindo a vida na periferia, a perspectiva feminina (Maria Valéria Resende, Elvira Vigna) e a condição negra (Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Paulo Scott), tanto quanto o universo LGBT (Trevisan, Marcelino Freire, Natália Polesso). A chamada autoficção teve já realizações de alta qualidade (Tezza, Tiago Ferro).

Rap e romance formam um par que se reforça internamente no registro da vida das periferias, tanto quanto, nos anos 70 e 80, parece ter acontecido entre a canção e o conto. Os Racionais, Paulo Lins e Ferréz são já clássicos a ponto de figurarem entre leituras obrigatórias de vestibular, abrindo caminho para revisão do passado (Firmina dos Reis, Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus) e para o trabalho das novas gerações (Giovani Martins, Jessé Andarilho, Cidinha da Silva, Jeferson Tenório). Não é mais verdade que a literatura brasileira seja uma prática exclusiva das elites.

Nada nessas tendências sugere esgotamento.

O que anda desprestigiado, como tema e horizonte mental, é aquilo que se chamava, mal e genericamente, de “regionalismo”, o registro dos mundos interioranos das províncias. Contam-se nos dedos de uma mão os exemplos bem sucedidos neste terreno (Francisco Dantas, Ronaldo Correia de Brito, os novos Itamar Vieira Júnior, Ana Paula Maia, Joca Reiners Terron).

Uma tendência visível mas ainda não consolidada é a literatura feita por indígenas, que enfrenta problemas imensos e vivos. É verdade que desde os anos 1980 se conhecem iniciativas editoriais (impressas, em língua portuguesa) com autoria indígena, havendo já figuras consolidadas (Daniel Munduruku, Eliane Potiguara). Há mesmo obra sublime, de alcance inédito e permanência certa, A queda de céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, um feito literário singular, fruto de décadas de interação entre os dois autores, um xamã vivendo em modalidade tradicional e em sua língua ameríndia, e um antropólogo francês.

Nesse campo, porém, há muitas dimensões incompletas. As línguas ameríndias terão espaço no mundo impresso? Como se dará a interação entre a matriz oral essencial e a forma escrita? Esse universo vai expressar-se em formas clássicas como o romance?

Vista a cena em panorama, creio que o teor radical da tese do lugar de fala tende a perder sentido, na medida em que periféricos, mulheres, lgbts, negros, indígenas escrevem e são lidos sem entraves intransponíveis.

Dois grandes campos de interesse não têm sido tratados com a força que merecem. Um deles é a dimensão internacional. Salvo alguns momentos e casos pontuais (a coleção Amores Expressos, da Cia. das Letras, a ficção de Julián Fuks), a literatura atual dialoga pouco com o mundo extrabrasileiro, eco perfeito do autoisolamento do país. Outro é o mundo do poder, econômico ou político. São também excepcionais casos como os de Bernardo Carvalho e Ricardo Lísias, dispostos a examinar o andar de cima.

Luís Augusto Fischer é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor de Literatura Brasileira – modos de usar (L&PM). Uma versão resumida deste artigo foi publicada na Folha de São Paulo, em 17/11/2019.

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