QUANTOS ANIMAIS EU JÁ MATEI? – RAFAEL BÁN JACOBSEN

Certo dia, quando eu era adolescente, saí da escola e fui almoçar em uma churrascaria com minha família. Aceitei uma coxa de frango que o garçom me ofereceu, como já havia aceitado tantas outras vezes antes. Mas, naquele dia, a textura, o sabor – alguma coisa naquele pedaço de carne não me agradou e eu o deixei de lado, esperando por algo que me apetecesse mais. Foi aí que aconteceu…

De repente, como se uma bigorna caísse na minha cabeça, eu me dei conta de que aquilo era parte de um ser que, um dia, viveu, foi morto para me servir de comida, teve sua perna arrancada, queimada – e, no final, coube-me o veredito: “não é bom o suficiente para mim”. O absurdo dessa narrativa mental me desestabilizou completamente; tudo era gratuito e ilógico, e eu experimentei uma náusea como jamais tivera, tanto no sentido sartreano quanto no estomacal. Naquele dia, tudo que pude fazer foi cruzar os talheres.

Saí da churrascaria com a certeza de que eu nunca mais comeria carne, porque – assim eu sentia – fazer isso era errado. Se eu fosse algum tipo de guru, eu diria que foi uma “revelação”, indiscutível, e me contentaria com essa justificativa, creditando o meu momento de “epifania” a uma espécie de força divina; porém, questionador e cético como sempre fui (naquele tempo, eu já queria ser cientista), eu resolvi pensar sobre o que eu tinha sentido, tentando racionalizar o que eu havia compreendera intuitivamente: comer animais é errado.

Antes de contar o que eu descobri, vale a pena falar sobre como a família reagiu à minha decisão de tirar a carne do cardápio. Os familiares – em especial minha mãe e minha avó – preocuparam-se muito, achavam que eu ficaria anêmico e definharia até a morte; o único consolo que tinham era a crença de que tudo era apenas um arroubo juvenil, uma mania de adolescente que logo passaria. Não passou.

E não passou justamente por causa do esforço que fiz para entender o que, de início, era apenas revolta, emoção. Busquei respostas nos livros (naquele tempo, eu já era leitor voraz e já queria ser escritor). Descobri que, no século VI a.C., Pitágoras – aquele mesmo do famoso teorema – já falava sobre respeitar os animais, pois acreditava na transmigração de almas. Ou seja: de acordo com Pitágoras, os animais não-humanos podem ser humanos reencarnados. Por isso, a justiça e a compaixão demonstradas a vacas e porcos são justiça e compaixão demonstradas a seres humanos.

Esse tipo de embasamento não me satisfez nem um pouco. As coisas melhoraram quando achei um livro chamado “De abstinentia ab esum animalum”, ou “Da abstinência de comer animais”, do filósofo Porfírio.

Esse texto foi, para mim, um grande achado, por duas razões. Primeira: para quem estudou latim no colégio, sua leitura foi um exercício instigante. Segunda: a tese de Porfírio para mim soou razoável e consistente. No seu livro, Porfírio defende que os animais não-humanos merecem consideração devido àquilo que são (criaturas sensíveis e conscientes) e não devido ao que não são (seres humanos aprisionados em corpos de animais). O que mais espanta Porfírio não é que pessoas como ele optem por não comer carne, mas sim que alguém tenha optado por fazê-lo:

“Quanto a mim (…) pergunto-me por que acidente e em que estado da alma ou da mente o primeiro homem que o fez tocou o sangue com sua boca e levou os seus lábios à carne de uma criatura morta, aquele que pôs à mesa corpos mortos e fétidos e aventurou-se a chamar de nutrição os pedaços que um pouco antes bramiam e gritavam, moviam-se e viviam. Como puderam seus olhos suportar o massacre de se cortarem gargantas, de se esfolar o couro, de se arrancar um membro de outro membro? Como pôde o seu nariz aguentar o fedor? Como é que a imundície não causou repulsa ao paladar daquele que fez contato com as feridas de outros e sugou fluidos e soros de ferimentos mortais?”  

Como se vê, Porfírio, da mesma forma que eu, em certo momento de sua vida, experimentou um intenso sentimento de repulsa diante do ato aparentemente banal de comer animais, enxergando nele uma verdadeira insensatez. Cercado por pessoas que demonstravam grande espanto quando eu contava que não comia carne, rodeado por tanta gente que me olhava como se eu fosse um alienígena, foi um alento encontrar alguém que compartilhasse da minha posição, mesmo que esse alguém fosse um sujeito nascido no Líbano há mais de mil e quinhentos anos.

Logo nos primeiros passos da minha pesquisa, eu me dei conta de que, no fundo, a minha reação na churrascaria fora fruto de um longo processo de elaboração inconsciente. A tal coxa de frango foi apenas a gota d’água. De fato, durante minha infância, sempre ajudava minha mãe a recolher e tratar cães e gatos de rua, ficava revoltado com parentes que iam pescar e deixavam os peixes sufocando em baldes na varanda, tinha terror ao ver cavalos mal tratados pela cidade, mas não estendia essa consideração aos animais que me serviam de alimento. Assistindo a documentários sobre a vida selvagem, eu me revoltava ao ver o leão atacando a zebra para devorá-la e pensava que, se eu fosse o criador do mundo, as coisas seriam diferentes: nenhum animal teria de pagar com seu sangue e com sua dor para que outro vivesse. Ou seja: eu era capaz de questionar até mesmo o funcionamento da natureza, mas não questionava o meu próprio prato na hora do almoço. Por que essa cegueira? Por que esse silêncio?

Não demorei para descobrir a resposta: a exemplo dos meus bisavós, dos meus avós e dos meus pais, eu nasci e cresci imerso em uma cultura que naturaliza o uso dos animais, especialmente para alimentação. Isto é: eu fui criado em uma sociedade na qual é moral matar e comer animais, assim como é moral criá-los e mantê-los presos para fornecerem produtos como ovos e leite para nós, humanos.

Existem duas dimensões que, muitas vezes, são tomadas como sinônimos, mas que guardam entre si uma distância significativa: moral e ética. É consenso que, quando falamos em moral e ética, estamos falando, ainda que sem mencionar, nos conceitos de certo e errado. E isso é verdade, mas as semelhanças param por aí.

Quando alguém analisa determinada sociedade e descobre o motivo daquele povo agir de tal maneira, está trabalhando unicamente com um conceito descritivo. Essa forma de abordagem retrata a moral de uma sociedade, no sentido original da palavra em latim, em que “mores” quer dizer “costumes”.

Porém, não usamos apenas descrições quando entramos em temas como status moral dos animais, aborto, eutanásia, infanticídio, estupro, genocídio, impacto ambiental etc. Essas questões sugerem uma abordagem normativa (ou prescritiva) e não apenas descritiva: Ou seja, nesses casos, dizemos que algo deve acontecer, e algo não deve acontecer (e, se afirmamos que algo deve acontecer, é porque esse algo é melhor do que aquilo que não deve acontecer). A ética é justamente essa abordagem normativa (ou prescritiva); consiste em observar certo comportamento (ou certa ação) e indagar: isso é bom ou isso é mau? Isso está correto ou incorreto? A ética é a filosofia da moral, seu estudo e polimento. Estudar a moral por meio da ética é buscar aprimorar a moral humana, torná-la cada vez mais correta, perfeita. Com efeito, um seguidor absoluto da moral humana perfeita é obviamente uma meta utópica; porém, é em busca de perfeição que se aprimoram os valores humanos, mesmo que essa perfeição nunca seja atingida. Em tempos como os nossos, em que é considerado “feio” julgar, a ética pode parecer um campo antipático da filosofia, mas sua função é exatamente esta: apontar o dedo para cada ação humana é julgá-la como certa ou errada, estabelecendo, de preferência, princípios norteadores que sejam gerais, universais e imparciais.

Em resumo: a moral é conduta, é costume, é temporal, é prática, é ação; a ética é o princípio, é a regra, é permanente, é teoria, é reflexão. A moral nos diz como as coisas são; a ética, como deveriam ser.  

Eu sempre vivi cercado de pessoas que comem animais, que se vestem com pedaços de animais, que usam animais para numerosos propósitos. Assim as coisas são. Mas será que as coisas deveriam ser assim?

Essa foi a minha primeira grande reflexão ética, poucas semanas depois daquela coxa de frango. Não foi difícil deduzir que a aceitabilidade de determinado comportamento pela sociedade não o torna, por si só, correto (ou bom); apenas o torna aceitável para aquelas pessoas, naquele local e naquela época. Um princípio ético não se constrói por maioria de votos. Escravidão, estupro, mutilação genital – esses foram apenas alguns exemplos de comportamentos já considerados moralmente aceitáveis que me passaram pela cabeça e que, certamente, não poderiam ser justificados eticamente. Será que, comendo animais, eu não estaria cometendo um erro, uma transgressão ética? Em caso afirmativo, qual era a dimensão do meu erro, isto é, quantos animais já havia matado?

Claro que eu jamais tinha matado um animal com minhas próprias mãos. Além de naturalizar a matança de animais, a moral da sociedade em que vivemos é bastante bem sucedida em levar os horrores dos matadouros para longe dos olhos da maioria e também em mecanizar todo o processo de transformação dos animais em comida através de verdadeiras “linhas de desmontagem”. Enquanto tocamos nossas vidas adiante, enquanto trabalhamos, nos divertimos e dormimos, os matadouros funcionam 24 horas por dia para dar conta de suprir a colossal (e sempre crescente) demanda por carne e mais carne. São inúmeras instalações, em toda parte, aonde chegam diariamente caminhões abarrotados de animais a serem mortos, como prisioneiros despejados em campos de concentração. Dentro do abatedouro, um intrincado sistema de trilhos, ganchos, serras e tanques de escalda espera por eles, tudo cercado pelas pessoas que lá trabalham, já anestesiadas, insensibilizadas pela mecanização da chacina, todas vestidas de branco, ironicamente invocando algum tipo de pureza ou sanidade em meio a um caos de sangue, vísceras e gritos. Estão ali para fazer o que poucos de nós teriam a frieza necessária para fazer com as próprias mãos. São matadores de aluguel.  

Certo, eu nunca assassinara nenhum animal com minhas próprias mãos, mas quantos animais os homens de branco haviam matado para mim? Estimativas apontam que, em média, uma pessoa que come carne habitualmente acabará devorando mais de 7000 animais ao longo da sua vida.[i] Tudo isso em uma existência de 80 anos; sendo assim, uma simples regra de três aponta que, até a adolescência, quanto tive o sísmico encontro com a coxa de frango, eu já havia sido responsável pela morte de, pelo menos, 1400 animais. Mil e quatrocentos. Esse número passou a me assombrar. Eu, que me considerava um defensor dos animais, uma pessoa pacífica e justa, era responsável pela morte de 1400 criaturas. Da mesma forma que os trabalhadores do matadouro, eu vestia uma indumentária branca, mas salpicada de sangue, reivindicando uma candura e uma retidão inexistentes.

Mas não haveria uma justificativa para a morte de tantos animais? O fato de me servirem de alimento não me daria, por si só, razão suficiente? Não seria um “mal necessário”?

Segui com as minhas investigações, ainda impactado pela poderosa impressão vivenciada na churrascaria e, ao contrário do que muitos esperavam, ainda saudável, sem qualquer privação de proteínas ou coisa que o valha. Deparei então com um princípio incrivelmente simples, mas sobre o qual eu nunca havia refletido de verdade: para decidir se uma ação é certa ou errada, não basta olhar para o quão felizes ou tristes ficam os indivíduos implicados. É claro que isso é importante – mas apenas uma vez que temos certeza de que ninguém está tendo algum direito básico violado.

Considerações a respeito do bem-estar dos envolvidos simplesmente não têm relevância quando a questão envolve uma violação de direitos. Por exemplo, no caso do estupro, a vítima teve um direito seu violado – o de não ser dominada por ninguém –, e não interessa o quanto o estuprador se sentiu feliz e satisfeito com a consumação do ato. Para decidir se algo é certo ou errado, ético ou antiético, não basta colocar “dor” e “prazer” em uma balança.

Um direito é uma barreira que protege um interesse fundamental seu da ação de terceiros. Ninguém pode violar um direito seu simplesmente alegando que isso o deixaria mais feliz.

Contudo, não podemos confundir interesses com preferências.

Interesse fundamental é uma necessidade básica e essencial à manutenção do bem-estar do indivíduo, que, não sendo atendida, provoca dor, sofrimento, e compromete a sua integridade física e psíquica.

Preferência é uma possível opção em cenário composto por duas ou mais possibilidades não essenciais.

A partir do momento em que as noções de “interesse” e “preferência” ficaram claras para mim, um preceito ético muito elementar (mas formidavelmente eficiente) se delineou: os interesses são protegidos por direitos; as preferências não. Por isso, o “interesse” tem prioridade sobre a “preferência”.

Entre todos os direitos existentes, ou seja, entre todas as possíveis barreiras para proteção de interesses, talvez o direito mais básico de todos os seres humanos seja o direito de não ser considerado propriedade.

Seres humanos possuem a capacidade de sentir dor, sofrer e valorar tais experiências como intrinsecamente más, em um mecanismo de preservação da vida. Logo, cada humano preza sua própria vida. Mas de nada adianta ele estar vivo se sua vida não lhe pertence.

Quando você é propriedade (ou seja, quando você é tratado como “coisa”), você não precisa ser respeitado como indivíduo; as relações afetivas com sua família podem ser interrompidas a qualquer momento; você pode ser violentado sexualmente; pode ser ameaçado; pode ser descartado assim que perder a utilidade para os outros; pode ser morto.

A próxima pergunta – natural, imediata – é: quem tem o direito de não ser considerado propriedade?

Todo aquele que, assim como nós, humanos, for capaz de sentir dor, sofrer e valorar tais experiências como intrinsecamente más. Um ser com tais capacidades é dito senciente. E essas capacidades nada tem a ver com inteligência, autoconsciência, autopercepção, sabedoria, criatividade, capacidade de pensamentos abstratos; trata-se de algo muito mais fundamental, que nós, humanos, compartilhamos com uma variedade de animais não-humanos. Vacas, ratos, araras, cachorros, elefantes, cavalos, todos eles são sencientes e têm o direito de não ser propriedade – pelo mesmo e exato motivo que humanos também têm.

Aí estava a minha resposta. Um animal tem o “interesse” de continuar vivo, mover-se, evitar o sofrimento, ter contato social etc. O homem tem o “interesse” de se alimentar, mas a dieta escolhida é uma questão de “preferência” individual. Portanto, o direito de satisfazer uma “preferência” do paladar é mais fraco que o direito à vida e ao não sofrimento. Nesse sentido, comer animais, havendo tantas outras opções disponíveis, torna-se injustificável.

Agora, a “revelação” que eu tivera na churrascaria estava fundamentada sobre argumentos racionais, como deve ser toda a ética. Não se trata de pena, compaixão, misericórdia ou mesmo de amor pelos animais; trata-se do reconhecimento de um direito fundamental e do respeito a esse direito – o direito de não ser propriedade.

Foi assim que eu descobri o veganismo. O veganismo é um movimento guiado pelo princípio ético de que o ser humano viva sem explorar os animais. Exatamente: descobri que, espalhadas pelo mundo, muitas pessoas formam um movimento em prol dos direitos animais. Assim, eu não precisava me sentir tão isolado, não precisava ter um neoplatonista nascido há mais de mil e quinhentos anos como único parâmetro de identificação.  

O veganismo é a busca pelo fim do uso de animais para alimentação, apropriação, trabalho, caça, vivissecção, confinamento e todos as outras práticas que envolvam exploração da vida animal. Os praticantes do veganismo – os assim chamados veganos – procuram abolir qualquer prática que explore animais, zelando pela preservação da liberdade e integridade animal. Sendo prática alicerçada sobre a ética, o veganismo é um norte, e não um fim em si mesmo. Em outras palavras: mesmo que ainda seja impossível eliminar 100% da exploração animal do nosso dia a dia, pois toda a sociedade vem sendo erigida sobre essa prática há milênios, nada justifica a inação, e os veganos buscam se aprimorar diariamente na erradicação do uso dos animais em suas vidas, em processo de contínuo polimento.

Todos aqueles que abominam a injustiça, a crueldade, a matança e o abuso de seres inocentes deveriam analisar, sem escudos, o caminho que o veganismo nos propõe.

Certo dia, há quase duas décadas, eu descobri quantos animais eu havia matado. E descobri que havia cometido todos esses assassinatos sem querer – até mesmo sem saber. Mas, nessa mesma época, eu decidi que não iria mais matar nenhum animal. Ao contrário dos animais, ao contrário do frango que foi servido como minha última porção de carne, nós, seres humanos, somos capazes de escolhas racionais. É preciso arcar com as responsabilidades que essa capacidade nos impõe, especialmente em relação àqueles que não têm voz e que jamais poderão assumir o protagonismo de sua própria libertação.


[i] Dada a escassez de dados sobre o tema no Brasil, os dados aqui presentes se referem ao consumidor médio britânico. Guardadas as diferenças nas proporções de diferentes animais consumidos, o número total, a estatística para nosso país provavelmente não diferem significativamente no somatório final. A pesquisa foi divulgada pelo Daily Mail.

Rafael Bán Jacobsen é físico da UFRGS e escritor. É autor de “Tempos & costumes” (Ed. Alcance, 1998), “Solenar” (Ed. Movimento, 2005), ambos agraciados com o Prêmio Açorianos de Literatura (destaque em narrativa longa e melhor narrativa longa) e “Uma leve simetria” (Não Editora, 2009). Participou de diversas coletâneas, e é um dos organizadores de “Por que ler os contemporâneos” (Dublinense, 2014) .

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