Capa do livro Contos de Pampa e Fronteira

SEU ARMANDO: O VENDEDOR DE TUDO – FERNANDO PEREIRA DA SILVA FILHO

Amanhã é dia do Seu Armando aparecer, comadre, talvez eu aproveite e compre a fazenda para a bombachinha do afilhado que já está crescendo e a única melhorzinha para ir ao colégio já está pequena…

— Não se preocupe, Vizinha, a gurizada cresce como abóbora e a gente não tem muitas condições de pegar o ônibus e nem dinheiro para ir à cidade seguidamente. Além do mais, o tempo tem corrido seco e sem frio e eles gostam mesmo é de andar de calção e pés descalços.

— É, mas o Mario Pinto disse no noticiário do meio dia que vem chuva grossa por aí e depois esfria, nossos panos têm que estar em ordem.

Ao longe, bem lá, depois da curva da ferraria do Faztudo, debaixo da polvadeira, podia-se vislumbrar a carrocinha verde, bons rodados, tracionada por uma parelha de mulas do Seu Armando. Sempre risonho e atencioso, ele trazia um verdadeiro Armarinho-ambulante que viria para prover as mulheres da Vila, assim como o fazia à medida que passava, nas diversas estâncias e granjas do município de Uruguaiana. Saíra da cidade há mais de três dias. E fazia isso há muitos anos.

Seu estoque era caprichosamente acondicionado em caixas marcadas com o nome do produto, ou então as peças e mais peças de tecido de diversas origens e para os mais variados usos, cuidadosamente envoltos em panos mais grossos “para não agarrarem a poeira Dona”. Tudo isso coberto por grossa lona.

Sobre toda essa carga, sem pressa, com olhar atento ao ambiente que o cercava, de horizontes largos, acomodado sobre uma tábua atravessada forrada de pelegos para maior conforto e apoiada nas guardas da carroça, se acomodava como um monarca o Seu Armando com um chapelão Prada ou Ramenzoni a lhe proteger da inclemência do sol de final de verão… O relho de açoiteira longa era só para ocupar a outra mão pois a direita segurava com firmeza as rédeas de couro que guiavam as gordas mulas. Elas sabiam muito bem o ritmo da andadura que ele gostava de transitar naqueles caminhos pedregosos ou embarrados durante o inverno.

Sou obrigado a admitir que ele fora um precursor daquele sistema de vendas que posteriormente se passou a denominar de “crediário”. Seus cuidadosos apontamentos feitos em um caderno comprido, que ele chamava de “livreta”, de capa grossa, eram a garantia de faturamentos futuros ou de cobranças que davam às compradoras uma espécie de “salvo conduto” para novas aquisições.

Não acredito que naquela Colônia Rizícola circulasse dinheiro-papel, a não ser quando da liquidação das safras, geralmente uma vez por ano. O que circulava por lá, à guisa de dinheiro, eram os “vales” entregues pelo IRGA para que os produtores tutelados por ele fizessem compras na Cooperativa de consumo que fornecia todos os produtos básicos para as famílias das redondezas. De posse dos tantos vales, lá se ia o mascate trocá-los junto ao Escritório Central com o tesoureiro Ruy Molinos, transformando-os em “dinheiro sonante” para pagar seus fornecedores da cidade e, assim, renovar o estoque para seguir suas vendas e retornar no próximo mês… Nesse retorno se encontraria com D. Nilza, a esposa e os filhos que ficavam aos cuidados dela.

Cada estacionada do Seu Armando e seu Armarinho ambulante era um acontecimento na vizinhança.  Aqui era Dona Maria querendo um corte de tussor ou gabardine para fazer uma bombacha melhorzinha para o BenHur, logo ali Dona Leda em busca de um corte de tricoline para camisa do Fernando e cretone para fazer uns lençóis para a casa, Dona lucila, de família numerosa sempre se obrigava a renovar o enxoval das gurias, quase mocinhas e dos guris beirando a adolescência.

Dona Dina, a esposa do subgerente chegara em visita e logo se encantou com um corte de pelúcia para fazer uma roupinha quentinha para sua primogênita que ensaiava os primeiros passos. O frio chegaria daqui a pouco e ela teria que estar bem abrigada e na moda, conforme a mãe de primeira viagem vira num figurino que comprara na cidade.

Dona Maria Reimbold veio em busca de muitos metros de filó para fazer novos mosquiteiros pois suas filhas adolescentes amanheciam com a pele clara, descendentes de alemães que eram, verdadeiramente ‘charqueadas” pela mosquitama que vinha em direção a sua casa numa revoada rasante desde a várzea próxima a cada entardecer. Dona Maria zelava muito pela beleza de suas filhas, os guris adolescentes que se virassem… sabe como é, vila situada na beira de lavouras era um atrativo para os pernilongos e para afugentá-los nem o fogo feito com bosta de vaca funcionava…

As tantas caixinhas eram cheias de botões de variados tipos, colchetes, joaninhas, agulhas de diversos tamanhos, dedais, carretéis de linhas, fitas métricas e todos os tipos de fitas para adereços das roupas mais refinadas. Por temperamento ou recato, aquelas poucas peças íntimas que conseguia para venda imediata ele denominava de “pecinhas” e eram constituídas por calcinhas e “corpinhos” de todos os tamanhos que ele com muito pudor, para não tocar com suas mãos rudes, dizia: “escolha a senhora mesmo Dona”…

Era um tal alvoroço a sua volta que, mesmo assim, Seu Armando não perdia sua fineza na educação, afinal, ali estavam clientes de muitos e muitos anos e as gerações iriam se sucedendo enquanto ele nesse ramo estivesse.

Sua estada lá na Colônia durava dois a três dias e ele ficava hospedado na casa da família Vernes quando então desatrelava suas bem cuidadas e reluzentes mulas escuras e largava-as a pastar no potreiro da frente a cada entardecer. Como mascate ele era também um trazedor de novidades da cidade, tudo aquilo que o rádio através da Charrua não tivesse transmitido ainda.

Nesse périplo pelo município, Seu Armando acompanhou pessoas desde o nascimento, fornecendo panos para as primeiras fraldas e para as roupinhas simples à medida que a menina ou os meninos iam crescendo. Numa sequência natural, uns tecidos mais elaborados para as festas simples dos 15 anos, os paninhos para as “toalhinhas higiênicas” das mocinhas até para os vestidos de noiva das mais crescidinhas…

Os presentes de aniversário das pessoas da vila também eram oriundos da carrocinha do seu Armando, cortes de camisa para os guris ou de vestidos para as meninas. Se beneficiavam com isso as costureiras das imediações. Os guris gostariam mesmo era de ganhar carrinhos e caminhõezinhos ao invés de um pedaço de fazenda a ser usufruído muito tempo mais tarde nas idas à missa dominical (quando houvesse) ou a algum outro aniversário.

Lá por fins de fevereiro Seu Armando “forrava o poncho” vendendo tecido branco para os uniformes das crianças que passariam a frequentar a Escola Primária. De brinde, uma gravata azul escuro para os guris ou um tope da mesma cor para as gurias.

Depois, e disso ninguém ficava livre, vestia de preto as viúvas ou os viúvos por longos períodos, conforme rezava a tradição, obedecendo o período de recolhimento em honra dos falecidos daquelas casas.

Elas durante quase um ano, dependendo do amor dedicado ao ente perdido e eles com camisas pretas, lenços de pescoço da mesma cor, barbas crescidas, e nas roupas um pouco melhores apenas um “fumo” na lapela à medida que a dor ia amainando nos corações. Tudo conseguido à porta das casas nas passadas do educado e prestativo comerciante de campanha.

Armando Salles do Prado fora um verdadeiro empreendedor, mudaram os costumes, o tipo de comércio e ele abandonou o ramo de mascate que o fez conhecido no município durante décadas.

Se valendo de seu nome honrado e de pessoa educada no trato com o público, instalou-se na cidade com um bar lá nos altos da rua 15 de novembro, imediações dos quartéis, onde vendia as famosas “cervejas em cacho” numa época em que nem se cogitavam os freezers dos dias de hoje.

Ele passava as noites trocando de lugar garrafas de cerveja anteriormente lavadas para as portas mais altas do refrigerador comercial de onde trazia-as às mesas unidas umas às outras (daí o nome de cachos) mas não congeladas em seu interior. Era o sucesso do momento nas noites cálidas de Uruguaiana.

Muito se orgulhava da clientela “do centro” que acorria a seu negócio que prosperava dia a dia pela sua maneira fidalga de atender, pela qualidade de seu produto e pelo capricho com que trazia as mesas dos clientes.

— Posso passar um paninho Doutor?… Vamos trocar o copo? Era a maneira carinhosa que ele a mim se referia, embora me conhecesse desde o nascimento na Colônia Rizícola n. 2. Bons tempos…

Fernando Pereira da Silva Filho nasceu em Uruguaiana, em 27 de abril do ano de 1946. Cirurgião dentista pela UFRGS desde 1969, foi membro da Academia Uruguaianense de Letras desde sua reativação. Autor de A Colônia Rizícola que eu vi….e vivi (2000),  “Como é longe Uruguaiana !” (2001), Do Alhambra ao “Cimentinho” (2012), A lenta agonia (2017). Participou das coletâneas A terra dos longos olhares e Causos e versos nos confins do continente de São Pedro. O presente conto integra a antologia Contos de Pampa e Fronteira, de 2019, que infelizmente Fernando não pode autografar. Aqui, a publicação é uma homenagem póstuma dos seus colegas de livro.

🛒 Clique e encomende o seu exemplar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s