Capa do livro Contos de Chumbo

UM ESTRANHO BALANÇO – ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA

Ultimamente, o meu mundo anda de cabeça para baixo. Vejo pessoas difusas numa eterna briga e infindáveis discussões. Vejo passantes que teimam em ser personagens de meus tormentos. E vejo pessoas incríveis que fazem parte dos meus sonhos por mais raros que eles sejam.

Ontem, enquanto dormia, o sangue ferveu e tive um horrível pesadelo. Minha cabeça ardia em pensamentos e a dor era insuportável. Minhas pernas dormentes, mas em meu sonho – no pouco tempo em que dormi – minhas filhas brincavam num jardim florido à cata de borboletas. Corriam sob um sol de primavera. No meu sonho, as pessoas estavam normais. Quando acordava, elas estavam de cabeça para baixo, como se caminhassem, em todos os momentos, pelo teto. Homens e mulheres vagavam com passos incertos com as pernas para o ar. Ora como pássaros deslizando na plenitude, ora como insetos nojentos. Tinham atitudes animalescas em corpos de pessoas e, na maioria das vezes, movimentavam-se com a incerteza dos fracos e com a arrogância dos opressores. Confabulavam e distorciam informações. Não tenho certeza, mas acho que eu era o centro das atenções. E isso pouco me incomodava.

Algumas semanas, e já faz bem mais que algumas semanas, um senhor veio caminhando pelo teto, muito sério, introspectivo e violento, deu um safanão em uma moça que tratava dos meus ferimentos. Era um cara de poucas palavras e arrogante. Submetia-me a um tratamento dolorido, umas agulhas que queimam e ardem, mas eu achava que iria ficar bom, e as agulhas faziam parte do tratamento. Só não entendi o porquê da briga entre eles e dos sopapos do brutamonte na enfermeira.

Eu também não ouvia direito. Eu jamais vira um quarto de hospital assim, um entra e sai danado, gritaria de toda ordem e xingamentos a todo instante. Uma balbúrdia que, por vezes, eu ouvia como um sussurro muito distante. Tomava banho todos os dias, num desses banhos quase me afoguei com tanta água que era jogada em mim. Eu deveria estar muito mal, as pessoas estavam em pé, melhor, de cabeça para baixo, sempre muito estressadas, e isso me deixava confuso. Atordoado. E me olhavam com uma certa indiferença. Circularam pelo meu leito várias pessoas, cada um que chegava parecia o chefe que mandava e desmandava e, para mim, sobrava um tratamento dolorido. E ninguém dizia qual era a minha doença. 

Teve um dia que, após o banho alguém fez um simples comentário que ouvi com nitidez “é um caso perdido”, e saíram todos como em procissão. Deveria ser noite, pois ficou uma escuridão no quarto, apenas uma luz fraca balançava no piso e pouco iluminava o teto. Foi nessa noite que sonhei novamente com minhas filhas, elas continuavam brincando em um jardim de primavera e corriam atrás de borboletas em festa. Eu balançava suavemente em um estranho balanço. Um lento balançar que me deixava zonzo e que machucava minhas pernas e minhas mãos, mas foi o melhor sonho que tive nos últimos tempos. Quando acordei, pressenti que logo estaria curado para voltar para casa e sentir-me novamente um pai devoto das filhas.

Eu jamais imaginaria ver o mundo de cabeça para baixo. Pessoas transitando como se caminhassem pelo teto, transgredindo a lei da gravidade. E achar bonito e ao mesmo tempo ridículo. Guerras, batalhas, carros, edifícios, árvores e pessoas num mundo pelo avesso. Uma loira muito gostosa entrou no recinto vestida toda de branco e com uma minissaia maravilhosa, era assim que eu enxergava naquele momento a enfermeira. Fiquei ansioso e imaginando por que a lei da gravidade não funcionava na minissaia da “Cabo Pedroso” como alguém chamou, logo em seguida, a enfermeira. Isaac Newton não estava mais nesse mundo em que eu vivia. Aliás, nenhuma lei da física funcionava no mundo em que vivia e delirava, exceto a lei da inércia, pois eu permanecia em repouso mesmo quando alguma força externa tentava me deslocar. Mas foi a adorável loira – Cabo Pedroso – que me jogou um balde de água na cara e me ofertou um copo para saciar a sede que era avassaladora. Não sei como, mas consegui tomar alguns goles. Tinha muita sede, uma sede de milênios, mas imaginava que a falta de água, por algum motivo, fazia parte do tratamento.

Certa noite o ambiente estava tranquilo, muito escuro, muito calmo e muito frio. Lembro bem, sentia muito frio como se estivesse dentro de uma geladeira. Mas sentia uma enorme serenidade. Havia uma trégua entre meus sonhos e meus pesadelos. Meus devaneios e minha consciência. Algo que eu não compreendia, mas me fazia bem. Tive a impressão de que uma pessoa acendeu a luz e deixou o recinto numa aconchegante penumbra. Mas eu já não discernia o que era ambiente e o que era alguém ou se era uma pessoa, porque muitas vezes ouvi latidos e uivos e pareciam tão próximos. Pouco identificava as faces de uma pessoa, ou os móveis do quarto como uma cadeira, uma mesa ou sequer se havia um abajur. Havia uma luz que estava pendurada no piso. Apenas fachos de luminosidade e respingos de vozes. Eu deveria estar com uma doença muito grave e estranha. Minhas costas doíam como se recebessem pontapés, e meus pés ardiam como se pisassem em brasas. Nessas noites graves, sentia meu corpo anestesiado. A dor era intensa, mas, por incrível que pareça, eu pouco me importava com a dor. Eu estava imune à dor.

Quando fez outro amanhecer, imagino que era uma manhã, um homem todo de preto entrou no quarto, senti sua presença muito próxima à minha face. Sussurrou algo em meu ouvido, mas eu não ouvia. Silêncio. Saiu. E continuei em total estado de inércia. Totalmente imóvel.

As coisas acontecem na vida da gente e não sabemos o porquê. Houve um tempo em que estudava Arquitetura e participava da política estudantil, e também houve um tempo que em era funcionário público e militava em um partido clandestino. E era um assíduo frequentador das passeatas e manifestações. Tinha um ideal de liberdade e democracia. Queria um mundo melhor para todos os humanos e um país viável para minhas filhas. Eu também lutava pelos ideais de liberdade, mas também lutava por mim, queria me ver livre das amarras que oprimem e restringem.

E foi, justamente, em uma passeata que tudo declinou. Já não lembro com muita nitidez, são apenas flashes de uma memória em frangalhos, mas havia muita fumaça, bater de cascos de cavalos, tiros e gritaria. Única lembrança é de um desesperado grito de um companheiro: – corre!

E corri, mas não sabia para onde.

Nos meus delírios, as pessoas continuavam caminhando pelo teto. Eu era o coadjuvante de minha enfermidade, nada falava, nada podia, nada pedia e recebia um tratamento penoso. Cruel até. Mas esta era a sina de um paciente. Acatar as prescrições dos médicos.

Minhas unhas das mãos? Elas deveriam estar rochas, eu não as movia e sentia uma interminável ardência. Numa tarde de extrema calmaria e solidão, eu ouvi pingos de um líquido no teto do quarto. Era um plic-plic compassado e lento. Um intermitente gotejar no teto. Muito estranho. Com algum esforço, consegui abrir os olhos e olhar para cima. Então pude perceber que pingavam no teto as minhas próprias gotas de sangue. E foi uma visão estarrecedora, tentei gritar pela enfermeira, mas não saía som de minha boca. Berrava, mas nem eu ouvia meus próprios gritos. Me debati, mas meu corpo não respondia e permanecia estático. A partir desse instante, eu tenho pouca coisa para contar porque as lembranças são raras.

– Tiros? Muitos tiros!

Um dia de muita agitação. Uma balbúrdia infernal. Eu só via com uma imagem difusa a cara de espanto dos homens que estavam comigo. De espanto e raiva, na maioria das vezes. Alguém falou em assalto, outro, em sequestro e um terceiro, em assassinato. Com a visão e audição prejudicadas, pouco eu discernia sobre os acontecimentos. Foi um deus nos acuda. Agora eram fardados que entravam de um jeito truculento no recinto, não pediam e faziam pouco caso dos demais. Ordem dada, ordem cumprida. E eu não entendia como os quepes não caíam das suas cabeças. E ficava só na contemplação daquelas almas perdidas andando pelo teto. Em meu devaneio, poucos eram os normais.

– Tirem esse homem daqui! – essa frase eu ouvi com muita clareza, só não imaginava que o homem era eu.

Alguém deu um golpe de facão em alguma coisa e eu caí estatelado no chão. Senti o corpo todo dolorido e achei que estava liberto: me senti liberto de algo que me incomodava.

Ainda não entendia o que estava ocorrendo, minha percepção estava alterada e pouco enxergava e sentia minhas pernas dormentes. Logo, eu ouvi um grito, muito mais que um xingamento, mas não era comigo, mas o cochicho foi no meu ouvido.

– Vai, comunista filho-da-puta, por mim, morreria no pau-de-arara.

Essas foram as últimas palavras que ouvi. Quando clareou o dia, eu estava em casa, numa macia e aconchegante cama. Nunca dormi tão bem, nunca tive tanta paz.

Athos Ronaldo Miralha da Cunha nasceu em em Santiago do Boqueirão-RS, 30.10.1960. É graduado em Engenharia Civil e funcionário aposentado da Caixa. Autor dos livros Os agachados – crônicas da Era Lula (edição 2012), Contos de Chumbo (Chiado Editora 2015), Tintos e Contos (Penalux 2017), O código Locatelli – romance – (Penalux 2018) e Sofrendo em Paris – crônicas – (Penalux 2018). Detentor da cadeira número 32 da Academia Santa-Mariense de Letras cujo patrono é Apparício Torelly.

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