4 POEMAS INÉDITOS DE MICHELE C. BUSS

PLUVIÔMETRO

A estação é das plantas da chuva…

Crescem ervas ombrófilas nos meus olhos
e uma flor tropical violácea
nos átrios do coração
encharcados de pulso.

Nos céus além da pele:
tempo bom.

Nos silêncios interiores:
o medidor de chuva descontrolado
em pleno estado de tormenta e
pouco sol.

Da instabilidade das pálpebras
e da glândula lacrimal
(100% de umidade no ar)
floresce intensa a mata nublada.

Do corpo da floresta densa verde
vicejam cada vez mais versos…

NEVA NAS PRAIAS DA LINHA DO EQUADOR

a fome mordendo
as entranhas de
crianças

o olhar indiferente
aos cenários da dor

carnavais
de violência

vozes ardendo
em fogueiras

colecionar natais
em shoppings às custas
de favelas mortas

a construção de um país
com o sangue dos sem sobrenomes
derramado

sociedade transgênica
de histórias tóxicas

PERDIDO LIVRO

sempre me verbo à beira dum descobrimento
navegando em minhas águas astrológicas
repletas de corais
constelação de cão maior
sal lunar
e azul psíquico
verbo marítimo
e molecular
infinito indefinido
traçando mapas de dentro
cruzando as horas
luz que não se
apaga
onde tudo é nevoeiro
e a incerteza é a fome
que persegue esse nada-inteiro

uma palavra apenas
e me embarco
meu coração
é um barco-relógio
atravessando o atlântico

o retorno
a vinda
o reencontro
a repartida

para saber quem sou

INVOCAÇÃO ÀS CHUVAS

decompor o fonema
e encontrar a canção azul dos brejos

sapos coaxam mantras
em tardes de verão

Michele C. Buss é autora dos livros Não nos ensinaram a amar ser mulher (Class, 2018), Sal, topázio e mercúrio (Patuá, 2015) e Mosaicos (Patuá, 2014), Michelle C. Buss nasceu em Jaguari, Rio Grande do Sul e mora em Porto Alegre desde 2007. É graduada em Comunicação Social pela PUCRS e mestra em Letras pela UFRGS. Desde muito cedo imergiu no universo das artes, dividindo seu coração entre a música e as palavras. Começou a escrever poemas ainda quando criança e considera a literatura e a música como fragmentos do seu próprio ser. Michelle já contribuiu com diversas revistas literárias. Foi também integrante do conselho editorial da revista Gente de Palavra, Atualmente, é membro da Academia de Letras do Brasil/RS. Em 2019, foi finalista do Prêmio AGES e do Prêmio da Academia Rio-Grandense de Letras com o livro Não nos ensinaram a amar ser mulher. Ao lado de Clara Állyegra Lyra Peter, organiza o projeto Poesia pelo mundo, no instagram, destinado a divulgar trabalhos poéticos, traduções e fotografias. É também uma das co-fundadoras do Sarau Poetaria. Contato: michelle.buss@gmail.com

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