A FORMAÇÃO DA LEITURA NO BRASIL, DE MARISA LAJOLO E REGINA ZILBERMAN

Ao fechar este livro, vale a pena frisar alguns pressupostos que o balizaram e as conclusões para as quais ele aponta. Relativamente a seus pressupostos, o de maior peso é a hipótese de que hoje não são muitas, nem tampouco parecem muito instigantes as teorias literárias que endossam concepções exclusivamente textuais e/ou imanentes do literário, da literatura, da literariedade. São, ao contrário, cada vez mais raras as teorias que não levam em conta situações concretas de produção e recepção de textos, marcando-se os estudos literários contemporâneos pela ruptura de diferentes variantes da autonomia do estético.

Tal ruptura manifesta-se por um número cada vez mais expressivo de estudos que levam em conta práticas culturais. Sem isso, a historicidade da literatura tende a tornar-se exterior a ela, espécie de pano de fundo com o qual a literatura entretém meras relações de representação, quaisquer que sejam os procedimentos pelos quais tal representação é concebida: desde o cotejo entre enredos ficcionais e fatos verídicos (o romance A escrava Isaura e a escravidão no Brasil, por exemplo) até a postulada homologia entre estruturas formais da obra literária e estruturas sociais (por exemplo, os diálogos entre a tragédia de Racine e a França jansenista).

Mas há outros caminhos. Um deles é conceber a literatura como cate goria que, a partir do século XVIII, rotula um tipo especial de leitura e de escrita, que é, simultaneamente, matéria-prima e produto de práticas textuais muito determinadas.

Um tal conceito de literatura afasta noções lineares de contexto e trabalha, em lugar disso, com a noção de contextualização contínua, onde cada elemento funciona como contexto do(s) outro(s), de modo que uma época, um autor, uma obra, um problema são, respectiva e reciprocamente, contextualizantes e contextualizáveis.

Com essa noção de contexto passa-se a limpo a forma de compreender os sempre renovados e reescritos pactos entre literatura e sociedade, tópico fundamental que muitas vozes vêm, há muito tempo, trabalhando: que feição tomam as relações postuladas entre mundo da escrita literária e mundo social? A partir de que categorias é preciso recortar o mundo social para que as relações postuladas sejam iluminadoras? A partir de que categorias é preciso recortar o mundo da escrita para que a análise dele faça sentido?

Também pressuposta foi a história canônica da literatura brasileira, estabelecida a partir de Sílvio Romero e que tem sido convincentemente escrita e reescrita. Sem esse andaime, teria sido bastante difícil a construção da perspectiva necessária para uma história plausível do modo de produção, circulação e consumo da literatura brasileira. Ao fim e ao cabo, esta é também a história de pactos constantemente feitos, desfeitos e refeitos, entre escritores, mecenas, editores, críticos, leitores, livreiros e demais participantes desse elenco ao qual hoje se acrescentam outros figurantes como agentes literários, publicitários, professores, bibliotecários e animadores culturais.

Estes os pressupostos de que partimos, e estas as questões tratadas.

Foi a partir deles e em torno delas que este livro diz o que diz como o diz.

Entre os objetivos, dois maiores: tornar-nos mais compreensíveis enquanto sociedade com feições culturais específicas, bem como, a partir do caso brasileiro, afinar categorias com que os estudos literários vêm trabalhando em outras tradiçõess acadêmicas e em outros meios culturais.

Na concretização desses objetivos, foi possível apresentar um traçado verossímil do surgimento, do fortalecimento e da transformação das práticas brasileiras de leitura, que, se não se confiam à literatura, não deixam também de nela encontrar fonte para estudo e campo de manifestação.

Numa sociedade como a nossa, tais práticas não podiam deixar de ser rarefeitas. Tal rarefação, no entanto, não se mantém constantemente idêntica a si mesma. Não obstante ser sempre inconclusa a modernização social brasileira, as práticas brasileiras de leitura cresceram e espessaram-se ao longo de sua história, ao multiplicarem-se sujeitos e forças nelas envolvidas, e ao diversificarem-se os modos de leitura.

Como se vê, a questão que se colocou a propósito de cada capítulo foi a questão básica do historiador moderno: se se acredita na natureza inevitavelmente mediadora da linguagem., como levar em conta na interpretação o também inevitável espaço entre representação e dado? Melhor dizendo, como garantir a pertinência da transformação de urna representação em dado? E de um dado em realidade?

Se esse foi o desafio teórico, a saída metodológica foi a multiplicação de representações, e suas sucessivas desconstruções, como hipótese para não se deixar iludir (muito) pelas distorções do espelho.

Por outro lado, a investigação das práticas de leitura, com vistas ao estabelecimento de sua história, não pode prescindir das representações de leitura veiculadas pelos próprios textos que fazem parte dessa história. Ao lado das fontes tradicionalmente privilegiadas — escassas e ainda de difícil acesso, no caso brasileiro —, essas representações são fundamentais tanto para sugerir sentidos para os dados estatístico, econômico ou meramente factual, como também para inspirar o resgate do documento ou do dado por elas implicitado. O caso é que, do primeiro ao último capítulo de A formação da leitura no Brasil, da construção do leitor à leitora no banco dos réus, várias histórias se enovelaram.

O primeiro capítulo ocupou-se da construção textual do leitor brasileiro ao longo de momentos decisivos da ficção nacional. O segundo estudou aspectos da infraestrutura que regula a participação da escrita e da leitura no mundo da produção econômica. Reivindicações de escritores, contratos de edição, anúncios de livros e projetos de associações foram tecendo um percurso no qual, também textualmente, o escriba — analogamente ao leitor do capítulo anterior — foi ganhando um perfil mais nítido, porque construído a partir dos diferentes modos de sua inserção na economia de seu tempo.

Tendo, assim, definido uma face mais concreta para leitores e escritores, que ganham rosto e nome a partir de interações que protagonizam com diferentes práticas culturais e econômicas, o trabalho dobrou uma outra esquina onde se debruçou sobre o livro escolar. Aí foi possível estudar um segmento do mercado cultural e o caso exemplar de uma instituição em torno aos quais orbitam questões de leitura. Nesse capítulo, leitores e autores retornam travestidos: o leitor de papel e tinta do capítulo volta aos bancos escolares, e o escritor do capítulo seguinte serve à Pátria e faz bons negócios.

Livros escolares são fonte insubstituível para qualquer história da leitura: não só porque por hipótese tais livros são um instrumento sistemático para a formação de leitores, mas porque eles são também documentos privilegiados para uma história da educação e da escola, com a qual necessariamente se cruza a história social da leitura. E também a da literatura.

Na encruzilhada das instituições da leitura (onde a escola figura com destaque) e do mercado disponível para o escritor, o livro didático é a dobradiça perfeita: ao mesmo tempo que institucionaliza a formação do leitor (figura que protagoniza o primeiro capitulo), também representa o porto de salvação de escritores a braços com a magreza da remuneração das letras (drama de que se ocupa o segundo capítulo). Mas, dialeticamente contextualizado pelos capítulos que o antecedem, o capítulo sobre o livro didático, pelo que representa de estudo sistemático de uma modalidade muito popular de livro, também prepara o estudo mais sistemático de uma modalidade de leitores: os leitores de saias do Capítulo 4.

A sucessão dos vários capítulos do livro, assim sucessivamente, retoma hipóteses e questões anteriores para recontextualizá-las e, nessa recontextualização, dar-lhes a dimensão que permitiu estabelecer um traçado verossímil para o surgimento, fortalecimento e transformação das práticas brasileiras de leitura.

Ao espessamento das práticas brasileiras de leitura, ainda que intermitente e cheio de recuos, corresponde um — também intermitente e cheio — amadurecimento do leitor que, na inevitável interação com os múltiplos elementos de práticas mais complexas de leitura, rompe restrições, libera-se da tutela, enfim, alcança a emancipação possível.

Reside aí outro objetivo deste livro. A entretecer a história da leitura com diferentes configurações da sociedade brasileira, ele ganha uma bem-vinda dimensão política.

Contar a história da leitura de países com problemas crônicos de educação pode desconstruir mitos.

Nos interstícios da desconstrução, aprendemos que os projetos educacionais brasileiros foram e continuam sendo frágeis, talvez também porque se desconheça a tradição de práticas culturais nas quais eles se inserem. Por outro lado, é a mesma fragilidade de práticas e projetos educacionais talvez sintomaticamente representada pela constante e duradoura crise por que passam os cursos de Letras — que desfavorece a existência de um espaço maior para as necessárias pesquisas como esta que busca, em campos e objetos não convencionais, respostas para perguntas de dois poetas mineiros: Que país é esse? Trouxeste a chave?

Formatada desse modo, a história que A formação da leitura no Brasil constrói rompeu a linearidade da cronologia e, ao mesmo tempo, fugiu ao isolamento de capítulos tematicamente fechados. Por isso, seu andamento espiralado, muito ao agrado das pós-modernidades desconfiadas de histórias globalizantes e que, num certo sentido, já se fazia presente em práticas orais de contar histórias, quando o contador provocava seu auditório: entrou por uma porta, saiu por outra, manda el-rei que conte outra… terminavam histórias antigas, sugerindo a transitividade do ato de narrar.

Entrou por uma porta, saiu por outra, manda el-rei que conte outra, terminamos nós, passando a palavra aos respeitáveis senhores e senhoras que, nas personas várias de leitoras, leitores e transeuntes em geral são virtuais contadores de outras e outras histórias como esta, que se perfaz no coro de muitas vozes.

O texto reproduzido em Sepé é o Capítulo 5 do livro A formação da leitura no Brasil. ed. rev. São Paulo : UNESP. 2019 – Páginas exibidas com permissão da editora UNESP.

Marisa Lajolo é professora da Unicamp e da Universidade Mackenzie. Publicou várias obras sobre leitura no Brasil e coordenou o projeto temático que trabalhou com a documentação lobatiana depositada na Unicamp. Em 2009, em parceria com João Luís Ceccantini, organizou a obra Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil, eleito pelo Prêmio Jabuti o melhor livro de 2009 na categoria não ficção, que foi seguida por Monteiro Lobato, livro a livro: obra adulta (2014), ambas publicadas pela Editora Unesp. Em 2018, também pela Editora Unesp, publicou Literatura: ontem, hoje, amanhã.

Regina Zilberman possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1970), doutorado em Romanística – Universidade de Heidelberg (Ruprecht-Karls) (1976), e pós-doutorado no University College (Inglaterra) (1980-1981) e na Brown University (EUA) (1986-1987). Atualmente é professora do Instituto de Letras, da UFRGS. Uma das maiores especialistas brasileiras em literatura infanto-juvenil, é autora de diversos livros e colabora em jornais e revistas como consultora nas áreas de Letras, Comunicação e Literatura para crianças e jovens.

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