A GAROTA DE CHUCK COLUMBUS – DOUGLAS CECCAGNO

A adolescente ajeitou os cachos com lentidão em frente ao espelho como se arrumasse o laço de um presente muito desejado. Depois, conferiu outra vez a fechadura e deitou na cama com cuidado para não amassar as pregas do vestido rosa, o mais bonito. Não importava que a mãe, durante várias horas seguidas, gritasse para ela sair do quarto; só lhe interessavam os relatos dos jornais. Às vezes, o nome de seu futuro noivo sequer figurava nas manchetes, mas ela bem sabia quem estava por trás dos crimes ali reproduzidos – com fotografias cheias de sangue e legendas sensacionalistas.

Receava que Chuck viesse buscá-la à noite, quando seu pai estivesse em casa: Chuck não se sentiria nada intimidado por um carregador bêbado cujo corpo cambaleava pelas calçadas como sua vida oscilando entre duas famílias. Há dez anos a mãe tinha já aceitado suas ausências depois da amante ter engravidado de um filho dele. Porém, se Chuck chegasse quando o pai estivesse com ela e a mãe e os irmãos, o pai iria querer afrontar, impedi-lo de levar a filha dele, e descobriria tarde demais que ninguém fica no caminho de Chuck nem lhe faz exigências. Chuck não ouviria nem os rogos dela, sua futura noiva: não era homem de ficar perguntando a uma mulher o que fazer. No mundo, há quem sabe mandar e quem aceita conselhos, e Chuck não estava entre os últimos.

Ela já tinha visto Chuck algumas vezes. Na verdade, alguns homens que cruzaram olhares com ela na rua se pareciam muito com ele. Há apenas dois dias, um desconhecido tinha parado na sua frente na calçada, sem nem erguer a cabeça, e depois ido embora. Chuck devia ser assim: um homem que sabia de tudo: não precisava olhar ninguém nos olhos para saber com quem estava lidando; só disfarçava os olhos por baixo do chapéu e escutava o medo na vibração da voz. Além disso, o homem tinha uma cicatriz profunda entre o olho esquerdo e a orelha, e Chuck também tinha uma cicatriz. Ainda lembrava de ter visto um raio de sol refletido em alguma coisa dentro de seu casaco; só poderia ser sua famosa pistola de prata, reservada para os traidores. Chuck era assim, um homem justo: não deixava ninguém tocar nos seus amigos.

Menina, sai desse quarto!, gritou a mãe. Gente normal não fica tanto tempo se penteando. Mas logo a mãe saberia da verdade, e entenderia que ela só fazia isso por causa de Chuck. Afinal, ele não gostaria de sua mulher passeando pelas ruas à vista de todos aqueles carregadores. Seu destino estava reservado; era só questão de alguns dias até Chuck aparecer. Na semana seguinte, estaria dançando num bar com o vestido vermelho e um colar de brilhantes, fumando cigarros de uma cigarreira de prata e bebendo martini seco na penumbra, escoltada por Chuck e por seus amigos.

De qualquer modo, acabaria ficando maluca se tivesse que ficar mais um ano naquela casa, onde se via a madeira apodrecendo nas paredes e se usavam ainda os móveis envelhecidos por gerações; onde precisava aguentar as discussões diárias do carregador bêbado e de uma mulher que havia estragado seus dias engordurada em cima das panelas. Depois, ainda tinha o choro das crianças e o braço do pai obrigando a jantar e ouvir as discussões. A hora do jantar é sagrada: hora da família se reunir, ele dizia. Mas – eles não sabiam – ela estava indo embora. A qualquer momento, a porta se abriria antes de ouvirem bater, e Chuck apareceria com um buquê de rosas vermelhas e a levaria para Los Angeles ou Chicago, enquanto os pais observariam sem poder dizer nada. Ou então o pai levantaria da mesa, querendo saber o que estava acontecendo e… Melhor nem pensar. Mais tarde, a mãe se lembraria dela, e suas lágrimas desapareceriam ao pingar no fogão, mas não poderia falar a verdade sobre seus sentimentos ao pai, ou precisaria ouvir o marido insultar a filha.

Antes ela apenas sonhava com o grande dia, mas agora estava certa da presença de Chuck na cidade, por isso o esperava. Dois dias antes, quando o jornal anunciou a suspeita de alguns amigos de Chuck terem assaltado um posto de gasolina nas proximidades, ela soube que ele viria. A cidade não era muito grande, e ela conhecia bem as redondezas. Eles só poderiam estar acampados numa casa abandonada, onde ela brincava quando criança, cerca de três milhas mato adentro, depois de cruzar a ponte para Fairview. Pela ponte, passavam, toda semana, de dez a quinze caminhões de leite, utilizados por uma gangue rival à de Chuck para transportar armas e bebida. Chuck por certo tinha enviado seus amigos para interceptar a carga. Ela, então, escreveu uma carta para declarar o seu amor e dizer que estava esperando por ele, e colocou o endereço. Depois, pegou a espingarda do pai, uma foice para ajudá-la com o mato, e foi até a velha casa, suspirando por encontrar Chuck, ou alguém do bando para aproximá-los. 

Durante todo o trajeto, seu medo era de ser surpreendida pelos inimigos dele. Por isso, ao ouvir qualquer ruído, parava, empunhava a espingarda, olhava atenta a seu redor e, depois de acalmar a respiração, seguia seu caminho. Quando avistou a casa, sentiu alegria e cansaço, mas os dois foram substituídos pela aflição. Seus lábios tremeram ao se aproximar da janela. Espiou dentro da sala e, não vendo ninguém, observou o ambiente em busca de uma pista de que aquilo era mesmo um esconderijo. Primeiro, localizou, a um canto da sala, uma mesa com três garrafas, uma delas com líquido pela metade, e quatro copos vazios. Espalhados pelo chão, alguns cobertores; no meio, quatro cadeiras e, sobre uma delas, um chapéu e um colete. Tudo denunciava a presença de alguém há pouco tempo. E ela se perguntava se voltariam para pegar o que haviam deixado, se encontrariam sua carta e se a levariam para Chuck.

Os raios de sol entrando pela janela oposta acabaram com sua dúvida. A princípio, o reflexo batendo em um objeto mal escondido embaixo dos cobertores quase a cegou; mas, quando pôde finalmente abrir os olhos, concluiu que aquilo, embora não pudesse ver com nitidez, só poderia ser a pistola de prata de Chuck, e ele decerto daria um jeito de voltar para buscá-la. Forçou a janela várias vezes, mas ela parecia trancada por dentro. Até vir a ideia de usar a foice como uma alavanca. Como a janela estava apenas emperrada, abriu, entrou rápido para deixar a carta, olhou para os cobertores – qual deles seria o de Chuck?, com certeza o mais perfumado, o mais macio: ela acariciou com o rosto – e saiu, antes de encontrar alguém ou de alguém a encontrar.

A mãe já batia na porta outra vez: a janta está pronta. Ela não precisava ter dito aquilo: a adolescente já tinha ouvido as botas, a voz grave e rouca, o ranger das velhas dobradiças e a porta da sala batendo. E, quando o pai chegava, a janta estava sempre pronta. Mas ele vinha logo hoje? E se Chuck tivesse lido a carta e viesse buscá-la? Seu pai, bêbado, pediria explicação. A mãe insistiu, enérgica: Venha! Pelo menos, saia pra comer. Porém, ela demorou ainda um pouco, escondendo os jornais debaixo da cama, e saiu do quarto para a mesa, enquanto o pai praticava seu sarcasmo: Boa noite, mocinha. Ela não respondeu. O pai sorriu enquanto também sentava à mesa, na ponta, de onde podia observar as cabeças baixas da mulher e dos três filhos.

Nessa noite, o pai não gritou. Parecia até mais agradável, com seu jeito irônico de olhar fixo para os filhos, como se pudesse ler seus pensamentos. Na verdade, o homem desconfiava de tudo: pensava sempre que a mulher tentava enganá-lo com a quantidade de lenha e com o dinheiro das compras; receava das saídas da filha maior: já uma moça, não devia ficar passeando, se mostrando toda por aí; achava que a mulher escondia dele as saídas da filha, mentindo que ela passava o dia trancada no quarto. Mas nessa noite, a mãe notou ele sorrindo e, por esse motivo, sorriu também; e tomou ânimo de insinuar, enquanto trazia o leite quase fervendo para a mesa: Alguém está feliz hoje! O pai, percebendo a curiosidade da esposa, respondeu: Essas pessoas precisam de muito pouco pra esquecer os problemas. Os negócios de todos continuam mal, ninguém tem dinheiro, a crise deixou todo mundo na sarjeta, e estão todos rindo. Falei com o velho Bob e ele até tentou me abraçar, como se eu fosse o responsável. Bando de idiotas.

Falava como se todos em casa soubessem das notícias da cidade. A esposa, animada com a conversa, perguntou: Mas o que houve de tão bom? E ele, de boca cheia, sem tirar os olhos do prato: Então não sabe? Antes todos tinham medo de abrir as lojas porque a gangue desse Columbus andava por aí, roubando, matando. Pois hoje a polícia achou o esconderijo do homem. Todos mortos. Parece que a turma do Trappola esteve por lá. E agora, só por isso, é como se estivesse tudo certo, como se tivesse aparecido um monte de dinheiro pra todo mundo. Chuck estava morto. Não viria mais. Não a levaria com ele a Chicago ou Los Angeles. Não lhe daria um vestido vermelho, um colar de brilhantes e martini seco. Quando o pai ergueu os olhos, viu a filha correr para o quarto, abrir uma gaveta e voltar com um objeto na mão, cujo reflexo bateu de imediato nos olhos do pai. Ele então se levantou: Onde a senhorita pensa que vai, mocinha? Porém, logo reconheceu o objeto prateado na mão dela, e um temor mal disfarçado enfraqueceu sua autoridade. Ninguém mais conseguiu falar; só as crianças choravam. Mesmo assim, era possível ouvir a respiração ofegante da garota. O pai estendeu a mão devagar: Filha! E foi tudo o que conseguiu dizer antes de se dobrar sobre a bala no estômago. Ao som dos gritos de horror da mãe, a garota abriu a porta, agradeceu as flores e enlaçou o braço do homem de chapéu abaixado, deu um longo beijo na cicatriz e saiu em direção ao seu destino, com o amor nos olhos e a felicidade nas mãos.

Douglas Ceccagno é poeta e ficcionista. Professor de literaturas de língua inglesa e do Programa de Pós-Graduação em Letras e Cultura da Universidade de Caxias do Sul, doutor em Letras pela PUC-RS. Autor de Rábula (poesia) e Ópera subterrânea (contos). Site: douglasceccagno.com.br

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