AQUEUS * – DANIEL GRUBER

O monstro de madeira fez subir
Aos céus estrídulo e sinistro silvo
Brilhando ao sol com seus arreios de ouro
Repleto de guerreiros, que os helenos
Deixaram junto às portas da cidade.

Eurípides

(1)

A casa é velha, ampla e quadrangular, como um caixote imenso. É aconchegante, porque nos sentimos protegidos nela. As paredes são sólidas e não deixam escapar nenhum grito, embora a acústica dos cômodos amplifique pelos corredores qualquer sutil arfar. É um bom lugar para estarmos nesta fase de nossas vidas, porque em volta da casa, por muitos quilômetros, não há nada. Somos apenas nós, nossos costumes e a natureza crua. E quartos espaçosos, imperiais. Centenas de árvores e animais rastejantes, para os quais não existe o pecado, só o silêncio da vida.

Por ordem de ocorrência, é possível afirmar que todo mundo tem ou já teve algum membro excêntrico na família; a maioria das pessoas descobre, um dia, certos parentescos de quem nunca tinha ouvido falar, e raríssimos azarados acabam finalmente inclusos no testamento de alguém com quem trocaram meia dúzia de palavras. Quando o advogado me ligou, informando que tia Pandora havia me deixado a propriedade, minha primeira reação foi gargalhar ao telefone.

Helena me acompanhou, e também Hermione. Fomos conhecer o lugar num dia de janeiro, quando as gotas de suor não descolavam do corpo. Era uma chácara. E, da impressão que tivemos, especialmente da casa, a mim ficaram os mosquitos, a Helena os móveis de mogno e a Hermione o riacho que corria na parte de trás. O advogado, tentando disfarçar as manchas molhadas que germinavam debaixo das mangas, revelou-nos que não chegara a conhecer titia, mas que o escritório onde trabalhava sempre cuidara de suas finanças. Costumavam dizer que era uma senhora cautelosa e discreta, que não costumava arranjar problemas. Eu lhe disse que tampouco a conheci, que lembrava mal e mal de quando visitava mamãe e me trazia brinquedos do Paraguai.

Por conta de uma cláusula, o sítio só seria herdado com a condição de que se mantivesse em dignas condições o viveiro conservado próximo à casa; e que se cuidasse dos duzentos pássaros que o habitavam. Hermione se inflou de forma inabalável, rapidamente era só vamos ficar com eles, vamos, por favor, ela que não tivera um canarinho que fosse no apartamento da cidade. Helena também gostara e, passeando nos corredores entre as gaiolas, identificava os pássaros da infância. A mim nunca me tocaram os passarinhos, nem as chácaras. Agora era meu destino viver para cuidar de ambos.

Na primeira noite, repousamos mal. Os ruídos da mata nos recobriam de um temor incógnito, distinto daquele receio da cidade. Os santos de madeira alastrados pela sala tinham a altura de Hermione, e seus olhares barrocos, que escoltavam os passos da gente, eram de arrepiar a nuca. Junto aos tinidos fantasmagóricos dos grilos, me vinham os olhos daqueles santos, que não me deixavam afundar no sono até que, ao clarear do dia, o coro dos pássaros nos obrigava a saltar da cama.

O advogado nos confessou que tia Pandora optara por um sobrinho – já que não tivera filhos – que apresentasse condições de manter o viveiro em funcionamento, e pareceu-me natural que ela impusesse essa responsabilidade a mim, como se fosse mais um de seus trenzinhos made in Taiwan.

É um paraíso, disse Helena.

E tinha lá sua razão. Sentíamos um curioso prazer em sentir falta do burburinho de carros e multidões. Todo o contato com o mundo se dissolvia agora no chuvisco da televisão. Ocupávamos o tempo limpando os viveiros, adivinhando o nome dos animais, nos surpreendendo com cores que não conhecíamos, porque só cabiam na impressão de uma pena de pássaro e jamais na paleta de tons do computador.

Helena tinha hábitos espartanos, logo se habituou a passar café no fogão à lenha, cozinhar pães e preparar o leite da vaca, que era espesso e gorduroso. No início de abril, começamos a arrumar os quartos de cima para receber hóspedes. Nossa ideia, já que acabamos por ficar definitivamente, era transformar a chácara numa pousada rústica. Colocamos ventiladores, camas novas, iniciamos uma obra de ampliação nos fundos. Era uma casa silenciosa e desoladora, e quando se olhava para os corredores, parecia algo tão profundo que nos imaginávamos perdidos dentro de um labirinto, uma cidadela sombria e sitiada. Era como uma liberdade que você não soubesse exatamente como usar.

Depois do meio-dia, começávamos a ajeitar o viveiro. Limpávamos as gaiolas uma a uma e repúnhamos a ração. Às seis, com o sol se pondo num laranja espetacular atrás dos morros, nos recolhíamos. Fechávamos as portas e janelas, para que a casa não fosse tomada por mosquitos, e jantávamos às oito, em volta do fogão.

Lá fora, começamos a ouvir os pássaros. Não costumavam piar depois que escurecia, mas dava para escutar agora seu ruflar de asas, como se voassem em círculos dentro do alambrado. Ouvimos barulhos estranhos na janela, à noite, mas não demos importância.

(2)

Briseide se juntou a nós em maio. Estava sem emprego na cidade e a chamamos para trabalhar na casa, quando a abríssemos ao público. Não era uma menina brilhante, mas era esforçada. Deixamos a faxina com ela, para que pudéssemos nos dedicar a questões administrativas. Além de limpar a casa e o viveiro, responsabilizou-se por cuidar de Hermione, cozinhar e supervisionar quem trabalhasse na propriedade. No restante do tempo, acomodava-se no sofá para assistir às suas novelas.

Na última semana, duas vezes escutamos alguma coisa arranhar a janela. No teto, às vezes, ouvíamos algo caminhar furtivamente. Pensei se tratar de um gambá, ou do vento. Depois, o barulho ficou mais próximo, vinha do forro. Ratos deviam passar pelo sótão, mas é possível que estivéssemos só imaginando coisas. Havia seis quartos no andar de cima, que ficariam destinados aos visitantes, com camas de casal em cada cômodo e talvez um beliche. Na parte de baixo, eu e Helena dormíamos numa suíte, às vezes eu e Briseide, às vezes Briseide e Helena, e havia ainda um quarto contíguo, que fora ocupado por Briseide no restante do tempo. Ela nunca fora de muito luxo, e qualquer coisa era melhor que sua vida de antes, de modo que estava bom ter um cantinho sem que tivéssemos que alocá-la junto aos hóspedes.

Certa tarde, quando eu voltava do viveiro, havia uma espingarda escorada contra a parede do quarto. Em cima da cama, ajeitada, uma caixa de munição. Helena estava guardando as roupas dobradas no armário.

O que é isso? perguntei.

O que te parece?

De onde veio?

Dentro do forro do roupeiro, ela apontou.

Parecia até óbvio que tia Pandora guardasse uma arma em casa; consigo imaginá-la agora espantando algum invasor com aquela sua boca suja.

Está funcionando? perguntei.

Helena me olhou zangada, mas era seu jeito de sempre.

Tenho cara de quem sabe mexer nesse troço? ela disse. Quem sabe Briseide, que é uma pistoleira.

Guardamos a arma de volta e não falamos mais sobre isso.

(3)

A vigilância sanitária passou pela chácara em junho. Três porcos apareceram mortos na redondeza. Achei estranho, porque nas últimas semanas também notei um comportamento díspar em alguns machos do nosso viveiro.

Os pavões não estão se alimentando, contei aos agentes. Pedi ao dono da pecuária que me enviasse uma nova ração.

Mostrei a ração e eles rapidamente menearam a cabeça.

Presente de grego, um deles falou. As galinhas também não estão se alimentando. Acabamos de voltar de lá.

O clima estava estranhamente quente para aquela época. Mas estava tudo em ordem. O olhar de um dos agentes para mim e para Helena me inquietou.

Mais tarde, notei que havia um cheiro forte vindo de um dos lados da cerca, mas não identifiquei o que era. Comentei a Helena superficialmente sobre a visita.

Você não o achou bonito?

Quem? ela dissimulou.

O agente da vigilância, que ficou olhando para você.

Não notei.

Ele era bonito, eu disse. Talvez eu o convide para jantar.

Ela me olhou intrigada, mas não disse nada. Naquela época já não sorria mais.

(4)

Eu sabia que não eram os pássaros que faziam os ruídos ao redor da casa durante a noite. Algumas vezes o barulho era assombroso. Uma calopsita amanheceu morta.

Briseide terminava de limpar as gaiolas, e o sol se punha quando escutou barulhos vindos do matagal, nos fundos. Correu para dentro e trancou a porta com muito pavor. Perguntamos o que estava acontecendo e ela repetia, quase fora de si, que eles estavam vindo. Estão vindo, estão vindo, ela gritou. Fui até a cozinha e espiei pela janela o pátio lá fora. Nada além de uma calmaria triste e o vento soprando a mandala colorida que Briseide pendurara na varanda.

Eu já estava de volta ao corredor quando ouvi alguma coisa na direção dos quartos. Era um som impreciso e abafado, como se alguma cadeira esquecida do lado de fora fosse arrastada pelo vento. Passando pelo corredor, espiei entre as cortinas mais uma vez. Nosso pastor alemão estava sentado sobre as patas traseiras, com as orelhas apontadas para o alto e farejando o ar. Helena permaneceu na cozinha, esquentando a água para o chá e, de repente, ela também soltou um grito.

Eu vi! ela gritou. Algo se mexeu ali, entre as árvores.

O barulho que escutávamos era de pássaros, um ulular aterrorizado, que parecia distante e que às vezes parecia vir de dentro da casa, como uma casa tomada cortazariana. Quis sair e averiguar, mas Helena me segurou pelos braços e implorou que eu ficasse. Quando finalmente o silêncio parecia ter levado embora qualquer perigo, busquei uma lanterna e saí. No degrau da entrada, encontrei outro pássaro morto. Eu não tinha ideia de como ele saiu. Talvez seja uma armadilha, um cavalo de Troia. As portas das gaiolas foram arrebentadas. Pedi a Helena que trouxesse um rolo de arame para fechá-las. Não me atrevi a retirar os pássaros mortos.

(5)

Já estão rondando a casa há dois dias. Só aparecem à noite, abrigados entre as sombras da varanda. Sabem que sabemos que estão lá e que não podemos vê-los. O cachorro tem latido a madrugada inteira. Está agitado, com o pescoço machucado de puxar a corrente o tempo todo. Não podemos soltá-lo, pois eles o matariam. Agora escutamos os pássaros novamente. Podemos escutá-los ulular bem perto e voar em círculos sobre o telhado. Alguns voam contra as vidraças, desesperados, provocando um estrondo perturbador. Estranhamente, eles não saem de perto da casa, não podem ou não querem ir para longe. Carreguei a espingarda e nos reunimos na sala.

Quando entrarem na casa, eu disse, devemos nos trancar no porão. Mas chegará a hora em que não poderemos mais resistir. Não deixaremos que nos levem. Quando o momento chegar, quero que se lembrem de que deve restar uma bala para cada um. Somos da brava gente frígia e nenhum invasor tomará nossas virtudes.

Briseide puxou Hermione contra a barriga e tentou tapar seus ouvidos, mas ela já mostrava seus olhinhos assustados, tentando entender o significado daquelas palavras. Helena foi se sentar no sofá e acredito que ficou lá até o fim.

(6)

já faz algumas horas estão batendo contra a entrada eles cruzaram todos os muros as portas estão trancadas com barras cadeiras e móveis pela janela vemos um clarão lá fora que dá a impressão de que começam a pôr fogo à casa acho que já estão do lado de dentro agora escuto passos no andar de cima mas antes que invadam nosso reino nossa privacidade e vejam com seus próprios olhos o que fazemos aqui e queiram nos fazer parar à força eles tentarão convencer que somos aberrações que somos impraticáveis que tudo que nos resta é parar de insistir nesses erros mas não deixaremos que nos tirem isso porque somos da brava gente frígia e eu termino de escrever quando co me ço   a   es cu tar   he le na   di s pa  rar   o   p r i m e i   r o      t  i       r  o

____________________________________________
* O conjunto de textos reunidos sob esta rubrica
veio a público em aproximadamente seis folhas
de caderno escritas à mão, encontradas em uma
lata no que sobrou do porão da casa. Os docu-
mentos foram recolhidos pelos bombeiros entre
os escombros.

Daniel Gruber é escritor, natural de Novo Hamburgo/RS. É autor dos livros de contos “O Jardim das Hespérides” (2017), finalista dos prêmios Sesc e Minuano, e “Animais diários” (2019), ambos lançados pelo selo O Grifo, criado pelo próprio autor. Sua tese de doutorado em escrita criativa, “A Noite do Cordeiro”, é um romance sobre inquisição e caça às bruxas no Brasil colonial, e deve ser lançado no ano que vem.

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