CENOURAS – CONTO INÉDITO DE MARCOS WEISS BLIACHERIS

Ao passar por aquela porta, David sentia que voltava a seus treze anos.  Sentia seu rosto redondo novamente, com os cabelos cuidadosamente penteados, o aparelho nos dentes e o peso da Torá em suas mãos, os rolos que segurava com esforço para mais uma pose para o fotógrafo. Detestava aquela foto no centro da sala, tirada na sinagoga no dia do seu bar mitzvá. Sua mãe dava um longo e sonoro suspiro e dizia, com entonação iídiche: oy, o dia mais feliz de minha vida. Até que chegue o dia de seu casamento, claro.

Sextas à noite sempre costumava jantar na casa da mãe. Desde a infância, a sala era um misto de objetos rituais com enfeites com muito brilho. Candelabros de sete e oito braços, a palavra “chai”, vida em hebraico, espalhada pela sala em objetos com os mais variados estilos, formas, tamanhos. Mas o que sua mãe mais prezava eram os quadros que ela própria havia bordado à mão. Oy, muito esforço para fazer estes quadros. David olhava a imagem de Isaac prestes a ser sacrificado e se sentia tomado de uma inconfessável solidariedade.

A janta, como sempre, tinha a chalá, pão trançado típico do shabat judaico, seguido pelo gefilte fish, um bolinho de peixe que tinha uma rodela de cenoura e uma folhinha de salsa no topo. Quando criança, questionara o significado daquela combinação e sua mãe explicara que as cenouras redondas eram dinheiro e que deveria comê-las se quisesse ficar rico. Para garantir, viriam mais dúzias delas no caldo quente da sopa cheirosa que ele tomava a cada noite de sexta. Oy, coma logo senão esfria e ninguém gosta de sopa fria. E coma as cenouras, que ninguém quer ser pobre a vida toda.

Aquele menino, sonhado para ser médico, advogado, engenheiro ou até mesmo um dentista, encontrava-se desempregado. E teimosamente solteiro. Sua autoestima ia lentamente se dissolvendo quando era lembrado por sua mãe, em tom de lamentação, que estava sem emprego, dinheiro, mulher ou filhos. Tentava não ouvir o que ela falava, já conhecia as repreensões e histórias de sacrifícios e decepções. Preferia prestar atenção no noticiário que passava baixinho na televisão. Oy, são só notícias ruins. Estou ficando mishiguene, louca, com essas notícias.

E assim se desenrolava o jantar, como um espetáculo tantas vezes apresentado no qual todos sabiam de antemão o seu papel. Chegaria a salada, receita nova vista na TV, mas que ela mudou pois onde já se viu comer repolho com laranja. Oy, que mistura! Depois o frango aterrissaria na mesa acompanhado pelo arroz. O ato final seria um bolo ou uma compota. Não importasse o quanto comesse, seria pouco. Oy, tão pouquinho, assim você fica doente. Não gostou da minha comida?

Ao acabar a refeição, o pai sentaria na frente da TV enquanto a mãe iria arrumar a louça na cozinha. Ele, que já não tinha mais quarto ou cama naquela casa, comentaria alguma coisa sobre as notícias da semana e calmamente pegaria suas chaves no balcão ao lado da porta enquanto se certificava no espelho que já não tinha mais treze anos e gritaria um tchau para sua mãe. E ouviria um oy, essa é a melhor noite da minha semana.

Caminharia sozinho pela rua pensando que aquela seria a última vez. Diria para si mesmo que arranjaria um emprego, mulher, filhos e outra coisa para fazer na sexta à noite. Amaldiçoaria os móveis cobertos com um plástico para não sujar, a mal disfarçada decepção que eles sofriam com ele. Mas voltaria, como todas as semanas, pensaria em comprar flores, mas chegaria de mãos vazias e comeria rodelas de cenoura, muitas, incontáveis, para comprar tudo que pudesse sonhar até o próximo jantar de sexta à noite.

Marcos Weiss Bliacheris é advogado, ativista e palestrante nas áreas de sustentabilidade e de direitos da pessoa com deficiência. Mestrando em ambiente e sustentabilidade na UERGS. Teve a chutzpah de mandar esse conto bissexto para a revista.

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