DE ‘A ARTE DO MEDO’, DE DILAN CAMARGO

A ARTE DO MEDO

Essa arte
limita a vida
matéria disforme
do desassossego
o medo
aprisiona o ego
em vigília
desacende a realidade
essa vil paisagem
do dia a dia.

Essa arte
faz o voo
da borboleta
quase vão
belo feio
morrer nas sobras
de asas coloridas
ao rés do chão.

Arte reles
medo de lesma
do sal
esbugalha os olhos
no sinal
arrepia a pele
acende
só o vermelho.

Essa arte
despoja o desejo
desilude olhar
vaza sentimento
tanto faz
estar vivo ou morto
no palco
onde se exibe a farsa
imóvel
do espetáculo.

Essa arte
sem linguagens
mostra só os dentes
já foi sorriso
de Mona Lisa
claro enigma
passos de vidro
timbres e dribles.

Arte feroz
minima de malis
mal escrita
zona de perigo
ela mesma mata
e recria
seu artifício
de vírus.

ELEFANTES

Nós acreditávamos em dias inocentes
fomos fiéis ao sol e à luz que ele benfazia.

Nós fomos doces e amargos bárbaros
nos embrenhamos a agricultar a história.

Nós esfregamos os olhos e tossimos
no meio da fumaça do grande incêndio.

Nós adoecemos de uma vida no futuro
dessa aurora que nunca cintilou.

Nós nunca bebemos de nenhum remédio
queríamos sofrer as febres da utopia.

Nós éramos elefantes na cristaleira
e o que era vidro se quebrou.

Mas o amor não era pouco.

PERGUNTA

Todos os dias interrogo a morte
e ela, com desprezo, fecha a porta.

Que pergunta farei se não esta
a que faz o condenado pela fresta?

Não há ninguém, mais do que eu, que pergunte
nem olhar mais perdido do que o meu, que assunte.

Mas ela inventa desculpas, diz um basta
e se farta em ser minha madrasta.

Joga comigo um jogo de trapaças
blefa, mente, se ausenta, se disfarça.

Todo dia, corro atrás dela, pelas ruelas
quero sugar as suas tetas de cadela.

SUSPENSÃO DA CONSCIÊNCIA

Está suspensa
a carta de confiança
o convite de aniversário.
Só se expedem, se expelem
cartas de corsário
e para todos os efeitos
seguem-se as reticências
das cartas de baralho.

Está suspenso
o tempo que se pensa
futuro, passado, presente
exceto
o bigue-bangue da descrença
o chaveiro do carcerário
o baile de máscaras
da barbárie.

DILÚVIO UNIVERSALLE

Virão as chuvas
as chuvas bíblicas
verticais
águas de aço
aguassas
águas-más
medusas líquidas
vertidas da ira da natureza
sem ilíadas, sem lusíadas
na dança das águas cinzas
que pareciam extintas.

Virão as chuvas
aguçadas águas
imprecioso líquido
massa fluida
virão se misturar
ao nosso plasma
aos rios de lágrimas
inundar as superfícies
e enquanto durar o dilúvio
todo o humano
será sua última ilha.

Dilan Camargo nasceu em Itaqui (RS), passou a infância e juventude em Uruguaiana (RS), na fronteira com a Argentina. Quando jovem, com um grupo de amigos, criou e apresentou um programa de músicas e comentários na Rádio São Miguel, além de editar um jornal impresso, dirigidos ao público jovem, com artigos e notícias. A partir de então, decidiu se tornar escritor. Concluiu Graduação em Direito na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Mestrado em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalhou como professor, inclusive no ensino superior, e na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul como Assessor Superior. É fundador, primeiro presidente, ex-secretário-geral e sócio da Associação Gaúcha de Escritores. Foi Membro do Conselho Estadual de Cultura, eleito pela comunidade cultural em dois mandatos, tendo exercido os cargos de presidente, vice-presidente e secretário-geral. É membro da Associação Nacional de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil. Foi, por duas edições, jurado do Prêmio RGE/Governo do Estado de Cinema Gaúcho; e, em 2005, jurado do Prêmio Nacional de Contos Josué Guimarães. Como escritor, publicou diversos livros de poesia, poesia infantil e teatro, entre eles BrincRiar, Um caramelo amarelo camarada, e Com afeto e alfabeto. Os poemas aqui apresentados são de seu mais recente livro, A arte do medo, de 2019.

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