DE ‘ANTES NÃO ERA TARDE’, DE PEDRO GONZAGA

A arapuca do clique

Antes da receita para secar cinco quilos em Porto Alegre, antes do truque para alvejar os dentes à maneira dos cantores sertanejos, antes do segredo para obter uma esplendorosa vida sexual, estava a serpente. Quase podemos vê-la, lançando os primeiros anúncios, depois o mais insidioso, infiltrado entre as notícias correntes do portal do Éden: “Você não vai acreditar nos poderes de cura desta fruta exclusiva”.

E ali está a mulher, ainda nua, distraída, perdendo as manchetes de vista. Mas, afinal, Eva, nossa mãe, o que olhais? Cuidado. Evitai as ofertas, não leiais das fake news, não cliqueis nessas letras medonhas, escapai à viperina e horrenda isca.

É tarde. Que dores do parto, que abrolhos e espinhos, que nada, ela só quer saber que fruta é essa fruta.

E assim caiu, como depois Adão (inocente só até vermos o histórico de sua barra de pesquisa), assim a história sequente de todas as quedas humanas.

E não que não soubéssemos de antemão do logro e do perigo. Quais entre nós não sabem reconhecer publicações confiáveis? O fato é que elas nos aborrecem. Haverá alguém capaz de acreditar em cabelos novos a crescer em crânios pelados, em sucos com a virtude de purificar o sangue, em depoimentos de celebridades que perderam tudo?

Descremos, mas clicamos.

Eis nosso pecado original. Não a falta de temor ou o amor a Deus, mas a curiosidade. Diante da verdade rija das tábuas, sempre cederemos ao ícone flamejante e falso, mas, ah, quão atraente, naufragados na cegueira sensual da curiosidade. Mesmo dentro do paraíso já restávamos indefesos à sua lógica sussurrante: Eu sou a linha curva, por isso me queres; eu sou o veludo da noite, por isso me desejas. Eu saboto avisos consagrados, atrás de portas entreabertas. Por mim assististe a filmes só pelo trailer, por mim compraste livros só pela capa, por mim abriste bebidas só pelo rótulo. Para facilitar-te minha aceitação, disseram-me agente do demônio, este tosco mercador. Pois repara: ele precisa de contratos, de tua alma inteira. Como Deus. Eu, não a quero toda. Contento-me com essa tua parte que esquece da política à oferta de quaisquer bugigangas mirabolantes, que se entrega com voracidade às promoções de última hora.

Assim não creias na mordida, na maçã como perdição. Crê na serpente, tua eterna amiga, que mantém a árvore e a fruta pacienciosamente à espera de teu clique inevitável.


Prêmios

Isto se deu sob alguma festividade remota, creio ter sido um 12 de outubro. Havia muitas crianças reunidas no clube, ansiosas pelo sorteio de uma caixa cheia de playmobils, um tesouro imbatível aos olhos de toda uma geração. Na entrada recebêramos números, e agora, após um almoço congestionado pela expectativa (depois surpreendem-se os psicólogos com nossa ansiedade), chegava a hora de serem revelados os ganhadores dos brinquedos.

Gostaria de dizer que sou daqueles que nunca ganharam prêmios. Uma gota de drama antigo, mesmo antigo, é capaz de render a nosso filme interno um Oscar mirim e, à narrativa atual, a comiseração doce de um abraço ou, por que não, quem sabe um afago mais quente e consolador e nutritivo. Mas a bem da cinzenta verdade, eu não tenho sorte nem azar, fui sempre um passageiro da classe econômica da vida.

Ao fim o sorteio começou. Pouco a pouco, todos foram contemplados. Era uma espécie de esquema fofo, para ninguém ir para casa decepcionado. Entendo a intenção dos organizadores. Mas ouso dizer que havia no ar uma frustração generalizada. E vou além. Os prêmios perdidos, este são os que nos assombram, e não à toa as mitologias os consagram sem pudor. O melhor troféu, assim como a melhor ideia para um livro, está num lugar passado, perdido à experiência, ou num lugar futuro, ainda intangível ao intelecto. Isto não significa que não seja delicioso ganhar, ganhar até um parafuso, só penso que os cobres com que somos brindados são perdidos nos bolsos das calças cotidianas, em estantes empoeiradas, dentro de gavetas raramente abertas. E talvez esta seja a dimensão própria das alegrias que tantas vezes, eu mesmo, falhei em perceber, alegrias que são como o mar calmo em que me deixo flutuar, por um tempo, sereno, enquanto o sol já não queima e a brisa ainda não traz consigo o frio da noite.

Com o passar dos anos, disputei muitos prêmios, perdi-os quase todos. É o que acontece em bases regulares. Quando venci, achei que era justo, até ufanei-me mais do que devia de meus méritos. Vez ou outra não tive espírito esportivo, também acho que isso é comum. Uma vez num concurso tivecerteza de que ia ganhar, achei mesmo que devia. Diante do resultado, quis gritar fraude, a custo me contive, bendita a civilização que nos deu o modelo do mau perdedor. Algum tempo depois reconheci que fraudulento é o lugar livre de frustrações. E esta derrota em especial me levou para um caminho diferente nas artes, foi o começo da minha poesia.

Os acertos são absorvidos pelo que somos. Apenas os fracassos seguem ruidosos e mordentes. Acertos são passos retos, fracassos vacilos curvos. Os dois juntos vão como o cavalo e carruagem daquela velha canção do Sinatra, dependentes um do outro. Confiança sem o peso da dúvida é prepotência. Dúvida sem o vetor da confiança é paralisia. E ainda que se trate de um equilíbrio impossível, na memória dos naufrágios estará sempre o que fizemos diante das derrotas, os meios que encontramos para nos juntarmos do chão e seguir, a quase doçura do perdão que somente nós podemos nos conceder.


Palavras

De fundos coloridos elas emergem em fontes gritantes, com o tom imperativo dos slogans, a modo de disfarçar sua falsa profundidade. Redutoras e flavorizadas, as frases motivacionais infiltram-se em diálogos, passam a ser reveladoras da intimidade, convertem cada espaço sentimental numa prateleira de autoajuda de papelaria. É como se tudo fosse regido pela sordidez do mundo dos negócios, negócios, e assim surgem produtos como:

Eu tenho que saber meu valor.

É preciso investir na relação.

Fique do lado de quem cresce com você.

A pobreza verbal está para a mente, assim como a pobreza material está para o corpo, mas a primeira pouco se nota. Tempo faz que bato nesta tecla, nas salas de aula, nas palestras, naquilo que escrevo: o uso dos bordões das redes sociais, a ausência da literatura no cotidiano (algo dramático num país de tantos excluídos sem escolha), somados ao esquecimento dos velhos ditos populares, nunca pomposos, nunca ocos, só poderia dar nisso:

Eu não sou mesmice, sou intensidade.

Ou: O que os outros chamam loucura, eu chamo ousadia.

Ou ainda:

Superar não é escolha, é necessidade.

Por não conhecerem dúvida, por não enxergarem o outro senão como obstáculo, por não saberem que o silêncio e o desassossego são partes integrantes da experiência humana, tais lemas conformam todos os eventos vitais a uma espécie de concurso de beleza em que as pessoas conhecidas são apenas plateia. Por isso, por trás de cada obviedade, existe um eu raso convertido num você raso e subordinado, que não se sabe discípulo de uma ordem estúpida. Tal conversão é simples, tão simples que parece mágica, de fato, é mágica. De um “Eu sou a pessoa mais linda”, passa-se a “Acredite que você é linda”. De um “Eu sou a minha maior expectativa”, a “Seja você a sua maior expectativa”. De uma tontice medonha como “Eu sou grato a mim mesmo por existir”, nasce uma nova “gratidão”, que só em aparência se assemelha à velha palavra, porque neste caso, dada a exclusão dos outros, diz seu justo contrário. E este é o maior perigo de fazer de tantos clichês um procedimento: palavras levianas calcinam palavras verdadeiras, palavras arrogantes calcinam ideias verdadeiras, palavras egoístas calcinam sentimentos verdadeiros.

A literatura, com seu amor às palavras, bem poderia ser uma saída.

As listas dos mais vendidos alimentam as chamas.

Pedro Gonzaga (1975) é tradutor, poeta e escritor. Doutor em literatura pela UFRGS, com diversas publicações, desenvolve há anos trabalhos com turmas de escrita criativa, voltadas para o público jovem e adulto. Atualmente é cronista do jornal Zero Hora e do Estado de São Paulo. É natural de Porto Alegre, cidade onde vive.

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