DE ‘CATA-VENTO IMÓVEL’, DE VITOR SIMON

Há desperdício de canto do pássaro
quando me distraio.
E em vão se movem as nuvens
para liberar a passagem do sol,
se estou a olhar apenas
para o escuro de dentro.


O pão do medo
comemos a cada dia
e no travesseiro da renúncia
deitamos nossa cabeça
para dormir um sono
que não repara.
Tudo ainda é fome e cansaço.


Moramos no mesmo galho,
num ninho feito
com nossas próprias penas.
Se o galho quebrar,
vamos nos segurar no vento,
ou um nos pés do outro.
Tocaremos o céu
com a ponta dos olhos.


Na noite, na chuva, no vento
vive um pássaro que não se deixa ver.
Suas asas são pinceladas de saliva.
Paira na tua respiração, ou na minha,
até que o fôlego se perca.
Até que se cale o voo.


A palavra não me deixa dormir cedo
e me acorda de madrugada.
Obriga-me a beber demasiado,
a descrer assim na vida.
Só me castiga e nada ensina:
sou seu servo
e ela, minha ruína.

CAUSA MORTIS

Morri de carro e de bala
perdida e endereçada.
Morri ao queimar na lava,
de tsunami, de tornado,
de naufrágio e de avião.
Morri de frio e de fome,
de mesa farta, volúpia,
de ataque do coração,
de coxinha no boteco,
cachaça e fumo pra dor.
Morri até de desastre
natural ou fabricado,
de imperícia, erro humano,
também de falha mecânica.
Morri por temer fantasma,
de susto e ansiedade.
De forca e de guilhotina,
fuzilou-me o pelotão.
Morri de angústia, abandono,
de amor, desassossego,
de câncer e diabetes,
de derrame e de bactéria,
de besteira, coisa séria,
vendo filme ou futebol.
Morri de marasmo, de espasmo,
de pressa e desatenção.
Foi na pausa do café
e de tanto trabalhar.
Morri na fila do pão,
com o dinheiro no bolso.
Morri até de mim mesmo
por minha vontade própria.
E ao morrer perdi tudo,
até o que eu já não tinha.
Fui morrendo devagar,
se bem que foi de repente.
Eu sempre achei sobre a morte,
que ela não demoraria.
Então morri de esperar.

Vitor Eduardo Simon é gaúcho, publicitário e acadêmico de Filosofia. Estudou poesia na oficina de Orlando Fonseca e conto na de Luiz Antonio de Assis Brasil. Já publicou dois livros de contos: Bravos contos breves, em 2014, e Moedas soltas no bolso, em 2018. Fez a sua estreia como poeta com Cata-vento imóvel, em 2020, edição do autor.

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