DE ‘DENTE-DE-LEÃO’, DE WANESSA MONTEIRO DE BARROS

6

passo lenta no centro dos vendavais
meus sonhos moram dentro
das ventas dos cavalos

com o fogo dos dragões abro picadas
afago cães no vazio, rego flores miudinhas
junto andorinhas ao conselho daninho
das congregações

entro no país das fadas
lá onde a lambida da salamandra
é prenda, amora derretida
canto rupestre
espinheira santa
na luz bruxuleante
das esquecidas
lamparinas da mata

enquanto seu lobo não vem

7

Ouço teus olhos brilhando
nas lamparinas
no cheiro do querosene
que acende a casa
nas candeias em brasa
que alimentam o fogão
e adivinho teus desejos
mergulhados no grande tacho
onde incendeio goiabas
doces e maduras
para incensar no futuro
a pureza da tua língua

Tua sombra
desconhecida e mágica
reina sobre o silêncio
da minha vida
bebo o ressonar distante
das tuas noites
com ouvido absoluto
e todo o ridículo das palavras
que jamais ousei dizer
saltam agora do meu coração
como uma grande romã
cravejada de rubís
e descubro, num susto
que amar
também é caminhar
feliz e sozinha
entre as urtigas

30Desejo de Jeca

sim, eu só queria me deitar no chão
sentir a graminha espinhuda
e as pedrinhas castiças
machucando as minhas costas
o cheiro de bosta de vaca
entrando pelas narinas
o tempo besta
parando nos meus olhos
preguiçosas saudades de nada
o jacu e sua família
passeando pelo quintal
onde as folhas desabam leves
sobre o lombo e os croc-crocs
das formigas

é tão pequeno o que eu queria
que não se vende em conserva
e mesmo que vendesse
por isso eu nada pagaria
porque na pradaria
aquilo de que gosto
faço sozinha
eu mesma
de graça

34Etiqueta

das paixões que foram e já não são mais
às vezes dizemos que nunca vieram
que serão eternas as flores de agora
ou futuros amores que ‘inda não se deram

afinal, quem é que quer mostrar-se
mestre na arte de dizer adeus
ou de ter sido abandonado
com um pálido girassol
no coração
e ostentar, então
na lapela
um malmequer
qualquer
despetalado?

45

comprando cigarros na birosca, puxou conversa comigo um homem visivelmente pobre,

roupas muito gastas e sujas, chinelo de dedo remendado com arame, pés grossos como raízes,

mãos trêmulas e dois olhos verdes, imensos e tristes, boiando dentro de um rosto feminino que destoava,

absurdamente, do pescoço atarracado que parecia afogar-se dentro do corpo musculoso, rescendendo

a suor e bebida barata:

  • Oi, dona, tudo bem?
  • Tudo bem, e o senhor?
  • A gente lá envém levando do jeito que Deus manda… A senhora é professora?
  • Não, não sou professora, não…
  • A senhora tem muita cara de professora…
  • Não, nunca fui. Nem sabia que professora tinha cara…
  • É uma cara assim de pessoa sofrida… lidar com gente não é fácil…
  • É, mas eu não sou professora, infelizmente…
  • A senhora então é artista, acertei? A senhora tem cara de artista também…

    Artista viaja muito, né, vê as marvadeza toda que tem nesse mundo e fica com essa cara de gente triste…
  • Não, também não sou artista…
  • Então quem a senhora é?
  • Eu não sou ninguém, não sou nada, não…
  • Ah, dona, Deus que me perdoe, mas eu também não sou ninguém, eu não sou nada… a gente é igual! Com todo respeito, a senhora pode me dar um abraço?

E desatou em lágrimas sobre os meus ombros. Depois tomou o resto da bebida que estava no seu copo, virou as costas e sumiu morro acima, amarrado no seu fogo…

Voltei para casa com a sensação de ter sido inquirida e abraçada por uma velha árvore do cerrado.

Wanessa Monteiro de Barros é poeta e bruxa. Publicou e vendeu poemas por aí. Os poemas acima escolhidos são do inédito Dente-de-Leão.

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