DE ‘O CHEIRO DE COISA VIVA’, DE DYONELIO MACHADO

Eu sou um rebelde. Eu não sou do público. Sou incapaz de escrever algo pensando no que vão achar, qual será a impressão que causará. Sou incapaz de ser vendido à editora, ou ao público. É o mesmo que o cachorro magro da fábula, não aceitando a vida fácil do cachorro gordo, pois tinha que usar coleira. Eu não sou um vendido com sinceridade. Viver dos meus direitos autorais seria impossível, eu fracassaria no pouco que fiz de bom. (1975)

Eu não me iludo: tive editor para o meu primeiro romance, pela circunstância de ele ter merecido um prêmio cobiçado e – coisa decisiva – ter tido um editor nato, por força das condições mesmas do concurso – que obrigava a casa lançadora da competição a publicar ex-vi, os livros premiados. Quantas vezes uma situação dessas se oferecerá aos estreantes? Não, meu amigo: em boa apreciação do mérito, só se sabe da sua classe, provando. Um jurado representa um aparelho idôneo pra isso. Mas não é o único, nem mesmo o infalível. E depois, é difícil de utilizar, porque os certames dessa natureza não se realizam todos os dias. O arbítrio do editor? Dum editor não se podem esperar, em regra, outras virtudes senão as comerciais, tão importantes, aliás, como todos sabemos. O conseIheiro do editor? As vezes ele é um concorrente. Ou amigo do concorrente – portanto, suspeito. Atente-se para essa verdade, ja consagrada pela poesia dramática: “E é um autor. E justo que Ihe agrade ver alguém perturbar a peça dum confrade”. A não ser que o responsável máximo pela sorte do livro entregue a julgamento proceda como o magistrado, quando nomeia um perito para dizer sobre a sanidade mental dum paciente. E que se exime do exame último, apesar de leigo na matéria. E que a todos nós sobra suficiente discernimento, bastando apenas, em qualquer caso, agir com a necessária probidade. (1972)

Chega-se, assim, a uma questão: como editar? Lendo o livro? Fazendo ler o livro? Dando pra filha, pra o filho, pra esposa, pra o vizinho ler? Mas – dirão – onde encontrar tempo para isso? O editor tem pressa, porque seu capital não se pode imobilizar nem por um sequndo sequer. Bom, entāo o próprio escritor deverá montar uma casa editora. Foi o que fez Balzac, e se endividou por toda a vida. Foi o que fez Monteiro Lobato, sem maior êxito. Foi o que fizeram os Autores Reunidos, igualmente sem sucesso. E o que faz muito literato, quer de ficção, quer de qualquer ramo de ciência, e sempre com problemas que surgem com a parte puramente gráfica, com a propaganda, com a distribuição esta, vital. Parece mesmo coisa sem remédio. O caso, porém, é que há a associação. O que um não pode fazer, o todo o pode. O caso comigo, o caso pessoal, é meio divertido: eu tenho e não tenho editor. Talvez pudesse regularizar a coisa, tendo editor sempre (como vejo com muitos) ou não ter editor, definitivamente. Mas estou velho na vida e na arte. (1972)

Minha estréia na ficção (um livro de contos) conta mais de quarenta e cinco anos. Por mais que me possam negar, eu adquiri direitos, senão de merecimento, ao menos de antiguidade, em matéria de literatura na minha pátria. Não hei de assistir, comodististicamente, de braços cruzados, à depreciação e até à estagnação da literatura brasileira, porque outros interesses, embora legítimos na esfera da troca, assumem a primazia, numa matéria como a cultura, em que só o gênio criador deveria imperar. (1972)

Coisa engraçada vem se passando comigo e com os meus livros. Críticos, jornalistas, professores, autores de trabalhos sobre a história da literatura, dicionaristas, simples leitores surpreendem-se quando topam com qualquer informação, dando-me como um escritor em atividade. Julgavam que eu não escrevia mais. A memória – pelo menos pra literatura – está bem curta entre nós. E isso prova que não há vida literária no Brasil. Vida pressupõe certo remanso na corrente do tempo. A corrente, só, desgastaria, não capitalizaria. O que nós temos na atualidade é um fluxo em cascatas, valendo apenas a cascata do momento, reduzindo-se as anteriores em meras águas servidas… Pungente, essa desagregação. (1972)

Não sou eu o único a alertar sobre um problema que diz respeito a uma legião. Mas, sem a grande imprensa, sem o concurso de jornais, as nossas reivindicações permanecerão improdutivas como até agora. E, conquanto sentidas e com um alto sentido social, passarão para o rol degradado de simples jeremiadas. (1972)

Estou com cinco ou seis livros feitos e, é claro, que aceitaria com prazer uma proposta de edição, mas não as pleiteio. Posso me desligar disso, porque não dependo economicamente disso. (1979)

Quantos livros? Editados são: Um Pobre Homem, Os Ratos, Louco do Cati, Passos Perdidos, Desolação, Deuses Econômicos. Aí estão seis. Inéditos, dois, que são continuações de Deuses Econômicos: Sol Subterrâneo e Prodígios. Mulheres, Terceira Vigília, Proscritos, uns seis ou oito. E sem a esperança de editar. A indústria editorial está passando por uma tremenda crise. Só se editam livros pequenos. Dificuldades parece que ainda maiores porque… Bem, eu sou um estigmatizado. Num centro metropolitano, as coisas não seriam tão difíceis, mas num centro provinciano, o problema aumenta. Em Porto Alegre, uma cidade tremendamente provinciana, o problema aumenta. Porto Alegre é tao provinciana como qualquer outro lugarejo aqui do estado. Num ambiente desses, a minha ideologia política já constitui dificuldade. Eu me admirei da gentileza de agora, do convite para ir ao Festival de Gramado, eu não estou acostumado com isso. Não sei o que está havendo. (1979)

Outros escritores da mesma época, como Graciliano Ramos ou Jorge Amado, não tiveram esses problemas de forma tão intensa… Porque eles não são daqui. Porto Alegre é uma coisa tremenda de provinciana. Jorge Amado foi até deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, mas é que a metrópole apaga isto. A mentalidade provinciana é bem diferente da metropolitana. Sair de Porto Alegre? Pensei, o que me retém aqui é justamente a família, pequena, não quis ir me desgalhando. No dia de Natal, nasceu o meu bisneto. (1979)

Vivi sempre no meu estado. Com duas exceções porém: quando fiz um longo estágio nos serviços de neuropsiquiatria, no Rio, tendo mesmo clinicado ali. Isso durou um ano revolucionário. E outro ano quase completo na cadeia – e incomunicável. Já estivera um ano preso aqui. O único bicho que faz isso como semelhante é o homem. Viver fora do estado ou do Brasil? Fora do meu estado, sim: não do Brasil. Exceto uma ocasião, quando um amigo influente, por força quis me dar um vice-consulado. Era regra aquinhoar-se com a carreira os escritores. Fazendo-lhes mal quando supunham estar avivando-Ihes a criação artística. (1981)

Eu experimentei um período de hibernação literária que prolongou-se praticamente sem interrupção, cobrindo uma faixa duns vinte anos. E não por vontade própria, mas forçado, por falta de editor. E continua mais ou menos: sou subestimado. A indústria do livro vê isso e não se arrisca a perder dinheiro com um autor marginalizado, sem uma bonne presse, sem público. Há Os Ratos, que ainda se lê, para atender os escrúpulos do comércio de livros. (1982)

Muita gente há de dizer que não sou editado porque não quero. Isso é em parte verdadeiro. Aqui, quando no verão passado faltou um poco de cerveja – a bebida da terra – criou-se uma nova forma de comercializá-la: cerveja casada. Era isto: o negociante vendia a garrafa (ou a lata) de cerveja, com a condição do consumidor comprar outra garrafa de qualquer coisa. Dessa maneira punha em circulação mercadoria que não tinha saída. Pensei, talvez num momento de bom humor e alguma ironia, introduzir o processo nos meus livros: reedita-se um livro meu que já passou em julgado, à condição de editar também um livro novo. Parece incrível, mas vou confessar: xerocados, revisados, prontos para a impressão possuo os seguintes romances.. Mas, perdão: há uma advertência. Não estou fazendo propaganda. Nenhum editor jamais se interessou por outros livros meus senão Os Ratos, Um Pobre Homem, O Louco do Cati. Todos livros velhos. Dá a impressão de que me encontro em autêntica decadência. Mas se eles não leram os novos… intuição, magia, senso divinatório? Já me foi negada de público a minha qualidade de escritor: é um médico que escreve; e escreve mal. Mas então esqueçam-se dos que citei, que os escrevi sob esse mal-aventurado signo, exceção feita para o livro de contos que publiquei no quarto ano da escola. Como prometi, aí vai a lista dos romances inéditos: Endiabrados (ex-Terceira Vigília); Mulheres; Ele vem do Fundão. Sol Subterrâneo e Prodígios representam continuação de Deuses Econômicos. Já me entendi com uma biblioteca pública para, metendo tudo isso num pacote e entregar-lho, conferir-lhe o direito de fazer com ele o que quiser. Penso que o mais indicado é queimar. Dirão: por que você mesmo não queima? É uma pergunta inteligente. Talvez faça isso mesmo. O fogo purifica: quem sabe se as cinzas assim tratadas não serviriam para alguma coisa que o livro não teria capacidade de realizar. (1982)

Dyonélio Tubino Machado (Quaraí RS 1895 – Porto Alegre RS 1985). Romancista, contista, ensaísta e psiquiatra. Órfão de pai, passa a trabalhar, a partir de 1903, como vendedor de bilhetes de loteria, balconista e monitor de classes atrasadas na escola pública. Muda-se, em 1912, para Porto Alegre, onde conclui o curso secundário. Com dificuldades financeiras, retorna a Quaraí, dirige por sete anos o jornal da cidade e leciona em escola pública. Volta a Porto Alegre, em 1921, e funda o jornal A Informação, ligado ao Partido Republicano, fechado no ano seguinte, em razão dos ataques dirigidos ao governo central. Em 1923, publica o ensaio Política Contemporânea: Três Aspectos e ingressa na Faculdade de Medicina. A estreia literária ocorre em 1927, com os contos de Um Pobre Homem. No ano seguinte, é nomeado para o Hospital Psiquiátrico São Pedro, no Rio Grande do Sul. Passa dois anos, entre 1930 e 1931, no Rio de Janeiro, onde se especializa em psiquiatria e neurologia. Em seguida, publica sua tese de doutorado, Uma Definição Biológica do Crime. Nos últimos 20 dias de 1934, por insistência do escritor Érico Verissimo (1905 – 1975), inscreve o romance Os Ratos num prêmio literário nacional. Figura entre os quatro vencedores, e o livro é lançado um ano depois. Em 1935, é preso duas vezes por sua opção política, mas somente na cadeia adere efetivamente ao Partido Comunista – pelo qual se elege deputado constituinte, em 1947. O partido é dissolvido e seu mandato é cassado. Decepcionado, afasta-se por quase 20 anos da carreira política e do mercado editorial, dedicando-se à medicina e escrevendo romances. Apenas em 1966, com a reedição de Os Ratos, volta à cena literária, publicando, nas décadas seguintes, obras inéditas. (Enciclopédia Itaú Cultural). O trecho aqui selecionado corresponde ao depoimento “Sobre a legenda de maldito e a falta de editor”, presente em MACHADO, Dyonelio. O cheiro de coisa viva, Rio de Janeiro: Graphia Editoral, 1995. p. 38-41 Reproduzido com a permissão do editor. Todos os direitos reservados.

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