DE ‘SAGRADO CORAÇÃO’, DE ROBERTSON FRIZERO

Dioniso

Do filho que um dia imaginara
herdeiro do Olimpo e seu destino,
Zeus tem aos pés o corpo do menino
que o ciúme de Hera destroçara.

Nas mãos, o que lhe resta: um coração
tão puro e jovem, ainda a bater
qual se pudesse assim reconhecer
o pai que lhe gerou como um dragão.

Para ofertar ao filho a eternidade,
Zeus força à Sêmele, por alimento,
aquele vil pedaço de saudade

que o ventre humano transforma em rebento
e então renasce em plena divindade –
um deus do vinho e do esquecimento.

Anúbis

De um lado, o coração, este vaso sagrado
das oito almas de nossa estranha eternidade;
do outro lado, a pesar, a pena da verdade
traçando o destino do corpo embalsamado.

Se ao coração se move o prato da balança,
o que morreu renasce ou vai ao paraíso;
se a pena da verdade lhe rouba essa dança,
o deus-leão devora-o, como é preciso.

Por isso, oram os homens ao Senhor da Morte,
Anúbis, deus-chacal, o divino barqueiro;
cumprem seus rituais, temendo sua sorte –
e ocultam o coração pesado e traiçoeiro.

A morte de Krishna

Oitava encarnação da divindade,
divino pastor, protetor das almas,
Sri Krishna – o Govinda, o Gopala –,
para tornar mais justa a estranha guerra
por terra e orgulho, surgida entre irmãos,
afasta-se das armas, faz-se apenas
cocheiro da carruagem de Arjuna –
o solitário herói da justa guerra.
Mas o arqueiro se nega a lutar:
do outro lado do campo de batalha,
Arjuna vê seus pares e afetos,
seus melhores amigos e seus mestres;
e diante de Krishna, deus e guia,
abandona seu arco, desolado,
denunciando um coração aflito
que não derramará do próprio sangue
e, assim, renunciará ao reino amado.
Krishna ergue a mão firme e o tempo para.
Com um gesto, mostra a Arjuna o infinito –
compara-o ao campo de batalha
e o campo à alma humana e suas lutas
contra os males do mundo interior.
Diz Krishna ao guerreiro e amigo aflito:
“Tudo é frágil e desfaz-se neste mundo
de matéria tão vil e ilusória;
tu és parte de Deus e, assim, precisas
descobrir em ti mesmo as qualidades;
controla-te a emoção, cumpre teu dharma”.
E então Arjuna vence a justa guerra,
e, do campo inimigo, cinco vozes
são as que restam a cantar seu feito.
Sri Krishna faz silêncio ante o sangue
derramado em tão cruenta batalha
e calam-se os cantos por compaixão.
De longe, então, ouve-se um triste pranto
que rasga o céu cinzento e o chão vermelho –
é a rainha Ghandari, que lamenta
o primogênito, flechado e exangue.
“O Senhor, rei de Dwaraka, avatar
de Vishnu, o nosso deus mais sublime,
como pudestes deixar que viesse a guerra?
É assim que tratais vossa criação?
Pergunte à vossa mãe, Devaki, a doce,
sobre a dor de amparar o filho morto
em seus braços, sem mais o defender?
Sete filhos lhe mataram a ela no berço,
centenas me trucidaram na batalha!”.
E diante do consolo e advertência
de Krishna, sobre os erros dos que foram,
a rainha lança-lhe a triste maldição –
que ele, em trinta e seis anos, tombaria
enredado em semelhante situação.
Govinda ouve-lhe a morte desejada
e, apiedado, aceita a triste sina.
Três décadas passam, e o esquecimento
do destino e das dores do passado
lança o clã de Sri Krishna em combate
entre os mesmos irmãos que defendia.
Desolado ao ver todos de seu clã
pelas mãos deles próprios massacrados,
o protetor das almas senta e chora
à beira do riacho encarnado;
de longe, um pescador desavisado
pensa estar vendo um cervo e atinge Krishna,
ferindo o deus em seu luto divino.
Arjuna, o herói despedaçado
pela morte do mestre e divindade,
cumpre o dever de amigo e, inconsolável
crema o corpo terreno e imaculado,
lançando as cinzas e o coração
no mesmo rio de onde o vil arpão
partiu certeiro a cumprir seu carma.
Mas não se rende o coração de um deus
que, mesmo imerso, segue a arder –
e ainda em chamas, quer permanecer
como recordação de que a dor
também é ilusão desta matéria,
invólucro da vida eterna e etérea.  

Ysrael, bereshit, lev

Desde o princípio, houve o amor de D’us aos homens.
O amor de D’us, sempre presente e farto,
em sua justa lei, Torá perfeita e límpida,
lei que transforma em sábios os incautos
e alegra o coração dos mais aflitos,
foi por El’him ditado ao Seu profeta
que, letra a letra, palavra a palavra,
escreveu de Ad’nai a divina vontade.
Bereshit, assim a voz de D’us principia
o maior dos tesouros dado aos homens –
com a letra beit, marca em nós a bênção
da justa lei que rege os dois mundos
por El’him ao Seu povo revelado.
E a perfeita lei, que limpa os ímpios,
termina com Yisrael, nome e promessa
cumprida por Ad’nai aos que O honram –
e com a letra lamed, a mais alta
de todas com as que D’us pinta o universo.
Nada é acaso na divina escolha,
nada é sem intenção, e ao fechar
com um lamed sua lei, que nunca cessa,
D’us remete-nos de volta ao seu início
em que um beit completa o segredo divino
formando, lamed e beit, um coração. 

Jesus aparece a Santa Margarida Maria Alacoque

Eis aqui o coração que tanto amou os homens,
um coração que sangra em eterna cruz,
coroado de espinhos e desprezos,
mortalmente ferido em ingratidão;
coração que muito amou até esgotar-se
e consumir-se nas chamas da frieza
do coração dos homens, da torpeza
dos que imploram amor, mas logo esquecem
do sacrifício imenso no Calvário.

Eis o meu coração, vivo e envolto
em fogo divinal que nunca morre,
em luz tecida em sublime sudário.

Honrem o meu martírio: peçam perdão
ao próximo que sangra sem que o vejas –
perdido em si, ferido e abandonado,
crucificado em ódio e em tristeza.

Eis em meu peito aberto, que vos é ofertado,
o coração que sangra em sagrada beleza.

Robertson Frizero é escritor, tradutor, dramaturgo e professor de Criação Literária em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Foi por três anos consecutivos jurado do Prêmio Jabuti. Seu livro de estreia, o infantil Por que o Elvis não Latiu? (8INVERSO, 2010) e seu primeiro romance, Longe das Aldeias (Terceiro Selo, 2015), foram indicados e agraciados em diversas premiações pelo Brasil, incluindo o Prêmio Crescer e o Prêmio São Paulo de Literatura. Seu romance, escolhido o melhor do ano pela Associação Gaúcha de Escritores em 2016, ganhará, em 2020, tradução para o árabe. Em 2019, Frizero lançou dois livros de poesias, À Minha Memória (Class, 2019) e O Amor é Essa Luz no Fim do Nada (Entrecapas, 2019). Está, no momento, preparando seu próximo livro de poesias, a ser publicado ainda em 2020: intitulado Sagrado Coração.

1 comentário

  1. Carla Cristina de Carvalho Andrielli Cerri Veiga

    Gratidão por dividir seu conhecimento, seu dom e sua literatura tão arrebatadora que encanta e nos leva a lugares incríveis, mágicos fora e dentro da gente mesmo. A vc todas as bênçãos que há no ❤ do CRIADOR!😍😘❤🙏🌹

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