DE ‘SUBIR AO MURAL’, DE RONALD AUGUSTO

octassílabos

erra em ondas meu pensamento
pelos ângulos do lugar
as paredes brancas de nada
um corte transversal, solar

as cortinas se mantêm feias
esse plissado industrial
essa cor, de ordinário, pálida
dão a tudo um quê de oficial

o rumor ar condicionado
piso de hospício sem ranhuras
ou de laboratório clínico
quadrículo infenso à cultura

no entanto aqui a estudantada
faz o exame vestibular
cumprindo seu rito de classe
visando além ser dr. k.

poucos negros, quase nenhum,
entre os que se curvam às provas
isso parece confirmar:
não deviam passar da porta

entre montanhas o jequitinhonha serpeia
exsurge às vezes a areia branca do leito

depois o perpétuo eucalipto
enquanto um quietar ventoso embrulha
a intervalos o barulho de carros
e caminhões

ladeados pelo barro carmim
que sobe as encostas

o poeta que canta “a mulher isso a mulher aquilo”
eu deveria dizer o homem que goza do privilégio
de cantar “a mulher isso a mulher aquilo”

esse mesmo que, preclaro em sua condição de lobo bobo, se autoproclama
um degustador e entusiasta do vinho fino do corpo feminino
como se o conhecera como a palma de sua mão de punheteiro

aquele mesmo cujas metáforas gineco-anacreônticas
substituem por rebaixamento “a mulher isso a mulher aquilo”
que ele imagina cantar como ninguém, comer como ninguém

o decrépito que faz publicidade “a mulher isso a mulher aquilo” desses corpos
esse um uma espécie de cafetão e mentor do estupro edulcorado
essa coisa que as minas já calculam de longe a merda que vai dar

tão logo o traste trasteje “a mulher isso a mulher aquilo”
toada de toureiro calvo e renitente cuja arte perdeu o sentido
para muitas e para outros exceto para ele mesmo

abandona o canto a esse corpo que não te pertence
o erotismo de trocadilho, o estilo vinicius, a saliva
essa coisa toda que até agora só tem dado merda

Ronald Augusto é poeta, letrista e crítico de poesia. Formado em Filosofia pela UFRGS. Autor de, entre outros, Confissões Aplicadas (2004), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), Nem raro nem claro (2015) e À Ipásia que o espera (2016). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com e escreve quinzenalmente no http://www.sul21.com.br/jornal/

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