LEMBRANÇAS DOS TEUS FAMILIARES – LUÍS AUGUSTO FARINATTI

Faz duas horas que chegamos e o tempo se arrasta. A sala é grande ou parece assim porque está quase vazia. Há somente cadeiras de napa preta, bem gastas, encostadas às paredes brancas pintadas há muito tempo e sem retoques. À minha frente, vô Cilo e tio Irineu lado a lado, quietos. Entre nós, o caixão sustentado por estrados de metal. Aos pés dele, uma coroa de flores artificiais com uma faixa roxa onde meu avô mandou escrever:

Lembranças dos teus familiares

Da cadeira onde estou, vejo apenas uma parte do rosto do tio Leonel e as mãos dele, tramadas, apoiadas sobre o peito. Do outro lado, a porta entreaberta dá para um pequeno átrio. Através dela pode-se ver o pedestal de madeira onde está o livro de assinaturas com uma caneta azul pendendo por um barbante.

Talvez seja porque estou maldormido, mas as coisas parecem estranhas desde que fui acordado pela minha avó de manhã cedo. Eu tinha chegado em casa havia menos de uma hora. Quando ela abriu a porta do quarto, tive dificuldade para entender o que via: o vulto escuro da vó moldado pela claridade que vinha das janelas da sala. Dei bom dia com uma voz pavorosa. Ela não respondeu. Pensei que ela podia estar sentido cheiro de bebida e temi levar um sermão. Mas nada. Ela só disse, secamente, como não era do seu jeito.

– Levanta, Ramiro, teu avô precisa de ti.

Pulei da cama, atrapalhado, e tomei um banho para ver se acordava direito. Só fiquei sabendo do que se tratava quando já estava sentando à mesa, tomando uma xícara de café quente. Tio Leonel havia morrido e era preciso cruzar o estado, rumo ao sul, para os funerais. Uma cidade na fronteira com o Uruguai, a mais de cinco horas de viagem. Ao telefone, meu avô acertava detalhes com a funerária. Tio Pedro e tio Irineu também iriam. Chegariam da chácara a qualquer momento. Eu fui chamado porque deveria dirigir.

Chegamos aqui já depois do meio-dia, passamos rapidamente na casa do tio, onde meu avô pegou alguns pertences e os colocou em uma mala. Depois viemos para a casa funerária. Neste exato momento, tio Pedro está lá fora, provavelmente saiu para fumar. Antes ele estava aqui e tio Irineu não. Alternam-se, como a troca da guarda em um posto de sentinela. Eu também saí há pouco, queria ver algo diferente – vô Cilo me dissera que ficar mexendo no celular seria falta de respeito com o finado. Mas não tinha como suportar muito tempo lá fora. Faz uma tarde cinza, gelada e o vento torna tudo ainda pior. A rua em frente é plana, coberta por paralelepípedos, ladeada por árvores pequenas que perderam todas as folhas e agora erguem os galhos secos em direção ao céu. Não havia ninguém na rua, o que não é de se admirar.

A porta da frente se abre, mas por ela não entra tio Pedro e sim um homem jovem, baixo, com um jeans muito novo e um blusão de lã que parece grande demais para ele. Tem o cabelo molhado, provavelmente  acabou de saiu do banho. Olha para todos os lados. Não somente para nós, nem apenas para o caixão, mas também para as paredes, para a coroa de flores, para o teto. Parece curioso por tudo o que está aqui dentro. Vê a mesinha com o livro, pega a caneta e anota o nome. Depois vem sentar ao meu lado e interroga com a voz alta demais para tanto silêncio.

– Vocês são os parentes dele?

Faço um movimento afirmativo com a cabeça.

– São o quê?

– Sou sobrinho-neto – respondo em voz baixa, para ver se ele muda o tom. – Aquele ali de bigode é meu avô, irmão do falecido. O mais alto ali também é irmão deles.

Ao dizer isso, me dou conta que meu avô e tio Irineu estão discutindo em voz baixa, quase aos sussurros. O rapaz recomeça a falar.

– A mãe não pôde vir porque ela sofre dos rins. Se pega um frio desses, amanhã não caminha.

Faz uma pausa, como se lembrasse de algo.

– Ela tem problema dos nervos também. Nem trabalho mais, fico o dia inteiro com ela.

Não respondo, mas ele segue como se houvesse mesmo um diálogo.

– Eu trabalhava no posto. Fui frentista, mas não durou, eu não acertava direito as coisas. As pessoas ficavam brabas. O Mariano Correia, da loja de ferragem, conhece? Não conhece. Pois o Mariano Correia uma vez até gritou comigo. Abostado, por que não vai gritar com a mãe dele? Fiquei furioso, queria dar nele. Aí acharam melhor eu não trabalhar mais nas bombas.

Olha para mim com uma expressão raivosa que rapidamente vai ficando mais suave.

– Me deram um serviço melhor. Eu entregava coisas. Levava os documentos do posto para o banco, para o cartório, para a casa do seu Lírio.

Eu penso se poderia dizer algo que o fizesse parar de falar, mas não consigo encontrar uma brecha. Ele conta que trabalhou como leva-e-traz ainda por uns dois anos. Mandalete, como diziam por ali. Até que o seu Lírio vendeu o posto e o novo dono disse que não precisava mais dele. Aí foi para casa. Aproveitou para cuidar da mãe. Já me contou que ela anda adoentada? Pois é, contou. Diz que foi então que começou a conviver mais com o tio Leonel. Levantava de manhã, ia para o pátio prender o cachorro e via ele com a cuia de mate ou então lidando na horta. Com orgulho, conta que o tio nunca deixava de cumprimentá-lo.

– Bom saber que ele tinha amizade na vizinhança – eu disse, sem jeito.

– Que judiaria. Um rico dum vizinho. Fui eu que vi o corpo primeiro, já te contaram? Levantei cedo e saí para o pátio. Aí olhei por cima do muro, o vizinho tava lá atirado no chão, de bruços, como se estivesse dormindo, com a cabeça apoiada num dos braços. A cuia do chimarrão estava ao lado dele, a erva lançada para frente, a bomba fora do lugar. Gritei para ver se ele reagia. Nada. Aí fui chamar a mãe lá dentro. Que judiaria. Uma rica pessoa. Morrer ali sozinho, o dia nem tinha amanhecido direito e ele ali.

O rapaz repete, balançando a cabeça.

– Sozinho, naquele frio todo.

Eu havia encontrado tio Leonel uma única vez. Conhecia sim suas histórias, que os homens da casa contavam domingo após domingo, enquanto meu avô fazia o churrasco e todos tomavam mate ou cachaça com butiá. Falavam como ele, ainda criança, acompanhara o pai nos combates de uma revolução no norte do estado. Contavam sobre o bando formado por ele e os irmãos, que aprontavam todos os tipos de confusão nos bailes da juventude. A epopeia da viagem ao Mato Grosso, com as famílias dos irmãos. Uma terra prometida. Tio Leonel liderando a todos. Meses de viagem em um único caminhão. Estradas inexistentes. O barulho das onças nas noites longas. Cobras tão grandes que devoravam homens inteiros. Minha avó grávida. Minhas tias furiosas. Meus tios assustados. Não durou um ano. Todos voltaram, menos ele.

Tio Leonel ficou lá por quase duas décadas. Não se dava por vencido, diziam. O Leonel é assim, com ele não tem tempo ruim. Os outros o visitaram mais de uma vez, apesar da distância. Ao menos foi o que pude entender, juntando pedaços de conversas ouvidas. Até que aconteceu alguma coisa que eu nunca pude saber o que era. Ele voltou, mas não permaneceu. Viveu um tempo na Argentina: negociava cavalos, construía açudes, fazia fretes, as histórias sempre mudavam. Finalmente se aquietou na fronteira com o Uruguai. Uma cidadezinha anônima. Um fim de mundo. O lugar onde ele morrera e onde o velávamos, agora.

Na única vez em que o encontrei, ele já estava por aqui e eu era um menino de uns cinco anos. Meu avô e meus tios haviam reorganizado a vida, tinham arrendado uma granja e viraram sócios na chácara, como fazem até hoje. Lembro do barulho do carro antigo, com o motor forçado, lembro dos cachorros correndo para fazer festa. Lembro da figura impressionante do tio Leonel saindo do carro, um velho imenso, com um bigode branco bem desenhado. Depois de cumprimentar a todos, me chamou para junto dele. Eu cheguei perto, com medo, então ele enfiou a mão no bolso e tirou de lá um punhado de balinhas sortidas. Os papéis coloridos com desenhos de frutas brilhavam ao sol e não combinavam com aquela mão cheia de calos, com as juntas dos dedos salientes como troncos de árvores.

– Pega um caramelo, guri.

Peguei três e ele riu do meu atrevimento. Tinha a voz grave de um modo que eu jamais ouvira. Ficou ali apenas por uma noite. Quando acordei já tinha ido. Que eu saiba, meu avô e meus tios nunca mais o viram, embora continuassem contando histórias sobre ele nas manhãs de domingo, como sempre haviam feito.

– Sabe que ele me ensinou a atirar?

Não consigo disfarçar minha surpresa. O rapaz percebe e faz uma cara satisfeita. Finalmente conseguiu minha atenção. Agora aproveita o momento, vitorioso.

– Acho que o vizinho valorizava o meu esforço, porque sempre tinha paciência de explicar. A gente subia no carro dele e saía da cidade, lá para as bandas do Arroio do Atanásio, onde quase nunca vai ninguém. Ali dava para atirar à vontade. Ele não me cobrava nem a munição.

Somente então percebo que meu avô saiu da sala. Tio Pedro é quem está ao lado do tio Irineu. O sujeito ao meu lado agora fala baixo, olhando para o chão, de modo que os tios não podem ouvir nada com clareza. Eles olham para cá, intrigados.

– Demorei uns dias até conseguir acertar num alvo de madeira e fui melhorando a pontaria. O vizinho me mostrava como fazer. Ele era um mestre. O melhor foi um dia em que eu acertei num gato. O bicho explodiu. Acho que foi pura sorte, mas o vizinho ficou tão faceiro que dividiu uns copos de cachaça comigo. Ficamos lá, lembrando do bicho e dando risada. A mãe ficou furiosa quando eu cheguei em casa. Ela disse que eu não devia andar mais com o vizinho. Mas depois acho que esqueceu e parou de implicar.

Meu avô entra pela porta, junto como o funcionário da casa funerária. Está na hora. Tio Pedro e o vizinho do tio Leonel vão com o caixão no carro preto. Seguindo atrás deles, apenas a nossa camionete. A cidade tem ruas largas, calçadas com paralelepípedos. Contornamos lentamente uma praça com poucas árvores e um coreto no centro. Em frente, uma igreja com uma casa antiga ao lado. Penso que deve ser o lugar onde moram os padres. A casa tem uma porta central ladeada por duas janelas, uma das quais está quebrada dando à construção o aspecto de um homem caolho e triste. No banco do carona, vô Cilo me indica com um gesto cada vez que o carro funerário muda de direção, mesmo que seja impossível perdê-los de vista a essa velocidade.

O cemitério está assentado sobre uma colina com cinamomos e ciprestes à frente. Não são nem cinco da tarde, mas parece que vai anoitecer a qualquer momento. O rapaz segura uma alça do caixão, ajudando meu avô e meus tios a carregá-lo. Eu vou atrás, caminhando lado a lado com o motorista da funerária. Andamos pela alameda central onde há jazigos grandes como casas, bastante arruinados. Dobramos à direita e seguimos por uns trinta metros até chegar a uma parte do cemitério onde há somente túmulos horizontais. Adiante há uma cerca de arame e, além dela, apenas campo. Chegamos a um quadrado de tijolo escavado no chão, encabeçado por uma lápide de mármore onde consta o nome do tio Leonel e uma foto antiga. Dois coveiros muito jovens nos esperam. 

O vento frio aumenta e eu me sinto cada vez mais desconfortável. O rosto a ponto de congelar e os braços doendo. Meu avô está ainda mais sério do que de costume. Fala apenas o necessário, dando ordens curtas aos outros. Tio Irineu, alto, curvado para frente como se resistisse ao vento, está atento aos coveiros que raspam cimento e tijolo finalizando o serviço no túmulo. Até mesmo tio Pedro, sempre mais falador, está quieto, alternando o olhar entre o portão da frente e a área dos fundos do cemitério. Às vezes olha para o céu cinzento, para o turbilhão das nuvens que voam rapidamente empurradas pelo vento forte. Penso que talvez esteja querendo fumar. O único que chora é o vizinho do tio Leonel. Assoa o nariz de tempo em tempo em um lenço de pano.

Quando tudo termina, o rapaz, ainda com os olhos vermelhos, estende a mão a cada um de nós e retorna a pé para a cidade, recusando a carona oferecida pelo motorista da funerária. Entro na camionete e fico ali sozinho. Meus tios e meu avô estão parados do lado de fora e conversam em um círculo fechado. A rua em frente ao cemitério não tem calçamento e se inclina formando uma pequena descida, depois se alonga em linha reta até a cidade. Vejo que o rapaz segue lá adiante e me parece que ele jogou uma pedra em um poste de iluminação. Nesse instante meu avô bate na janela. Abro a porta e saio para fora. Ele me dá um pequeno recorte de papel com uma anotação.

– Liga para esse telefone e me passa quando chamar.

O número é estranho. Mato Grosso, penso, ao lembrar das andanças do tio Leonel, mas não tenho certeza, pode ser de qualquer lugar. Faço a ligação e entrego o telefone para o vô Cilo que segura o aparelho de um modo desajeitado e se afasta alguns metros. Quando atendem, ele fala tão alto que se pode ouvir de onde eu estou, mesmo com o vento soprando forte.

– Quem fala? É a Maria Teresa? Aqui é o Cilo.

Então segue dizendo algumas palavras que não consigo entender porque agora ele vai caminhando para o outro lado. Os tios vão junto com ele, como se quisessem participar do telefonema. Depois de alguns minutos vô Cilo retorna, segue falando ao telefone e está dizendo que está tudo acabado, ele garante, que ela não se preocupe, que terminou de vez, que nunca mais. Depois encerra a ligação, vem até mim com os olhos injetados e devolve o aparelho.

Na viagem de volta, o silêncio é quase completo. Ouve-se apenas o rumor das rodas sobre o asfalto e as pancadas de vento quando algum carro passa por nós. Dentro da camionete, nenhum deles fala coisa alguma. Eu me sinto um forasteiro, como se eles participassem de alguma confraria antiga na qual minha iniciação não foi permitida. O frio da tarde não me abandonou mesmo dentro do carro, minhas mãos ao volante estão endurecidas e parece que minhas roupas estão molhadas.

Já são quase nove horas quando nos aproximamos de um posto de gasolina na entrada de uma cidadezinha. Junto ao posto há um restaurante onde vários caminhões fazem paradouro e também um hotel barato, com as portas dos quartos dando direto na calçada da frente. Mandam que eu estacione. Imagino que vamos comer uns pastéis e seguir viagem, ainda faltam mais de três horas para chegar em casa. Porém, já em frente à porta envidraçada do restaurante, o vô segura de leve o meu braço.

– Arruma dois quartos para nós nesse hotel aí. Depois janta e vai fazer o que quiser.

Deixam comigo algumas notas grandes de dinheiro, entram na camionete, atravessam todo o terreno do posto passando ao lado de alguns eucaliptos muito altos, cruzam a estrada e pisam fundo em direção à cidade. Não tenho ideia de porquê me deixaram ali, nem o que teriam ido fazer numa cidade estranha a esta hora.

Faço um lanche no restaurante, ao lado de alguns caminhoneiros, depois vou para o quarto. Tomo um banho tão quente quanto possível no chuveiro velho e ligo a televisão. Não consigo me fixar no programa que está passando, que me parece apenas uma sequência de cenas desconexas. Sinto como se tivesse sido atropelado, mas demoro muito a pegar no sono.  Imagens se sucedem na minha cabeça e já nem distingo se pertencem a algum sonho ou se ainda estou acordado. A camionete partindo do posto, os túmulos no cemitério, o céu fechado na tarde cinza, o vizinho do tio Leonel segurando um revólver e fazendo mira com ele.

No meio da madrugada sou acordado pelos tropeções do meu avô esbarrando nos móveis ao tentar se movimentar dentro do quarto escuro. Acendo a luz. Sentado na cama, ele tira uma das botas mas não consegue se desvencilhar da outra. Eu o ajudo. Ele cheira a vinho e respira com dificuldade, arfando como um bicho. Nunca tinha visto meu avô naquele estado. Finalmente deita sem trocar de roupa ou me dar atenção. Saio para fora, não há mais vento, a noite está limpa e gelada, um frio de rachar os ossos. Adiante, tio Pedro está sentado no chão, na calçada em frente aos quartos, olhando para o céu com um cigarro apagado entre os dedos. Chamo-o pelo nome mas ele parece nem notar que estou ali. Percebo que está rindo. Um riso baixo e contínuo. Paro em frente a ele e tento fazer com que fale comigo, pergunto o que houve. Demora ainda alguns segundos até que me olhe nos olhos. O rosto avermelhado, as sobrancelhas grisalhas e fartas, com uma cara alucinada. Me diz, declarando cada sílaba, quase gritando com sua voz rouca de fumante: 

– Hoje foi o enterro do diabo.

Então se encosta na fachada do hotel e volta a me ignorar. Insisto, mas não há resposta. Saio com pressa em direção ao quarto deles. Tio Irineu não está lá. Também não há qualquer sinal da camionete no posto ou nos estacionamentos. Volto para o nosso quarto. Meu avô está deitado de bruços, imóvel, pesado, sobre a cama.  Quero acordá-lo, dizer que fale comigo, que se levante dali. Mas quando chego perto não me atrevo a tocá-lo, com medo que esteja morto.

Luís Augusto Farinatti é escritor e professor na Universidade Federal de Santa Maria. Publicou Verão no fim do mundo – Contos (Modelo de Nuvem / Belas Letras, 2018). O livro recebeu o prêmio “AGES Livro do Ano – 2019” da Associação Gaúcha de Escritores, na categoria narrativa curta.
Email: lafarinatti@gmail.com

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