O MUNDO DE SIMÕES LOPES NETO (1865-1916): TRAJETÓRIA INTELECTUAL E PRODUÇÃO CULTURAL NO SUL DO BRASIL – JOCELITO ZALLA

Este texto foi apresentado anteriormente no Simpósio Nacional de História de 2017 e faz parte das discussões do primeiro capítulo da tese “A invenção de Simões Lopes Neto: literatura e memória histórica no sul do Brasil”, defendida em 2018.

Nos últimos anos, encontramos um novo interesse pela vida e pela obra de João Simões Lopes Neto na imprensa ordinária. Descobertas de textos perdidos e esforços de edição têm virado notícia com certa frequência. Mas o sabor de novidade costuma vir acompanhado de lugares-comuns elaborados há muito tempo. Em 2017, por exemplo, foi lançada no formato livro uma crônica simoniana resgatada das páginas do pelotense Correio Mercantil, do distante ano de 1900: A família marimbondo. Trata-se de mais um de seus textos de temática urbana que podem causar estranhamento nos leitores do “regionalista”. Talvez por isso, a cobertura do jornal O Globo reproduz, já no título de sua matéria, um dos clichês mais duráveis da biografia do autor: “Um Simões Lopes Neto jovem, frustrado e inédito” (TORRES, 2007). Desde cedo, portanto, ele teria sofrido com a falta de reconhecimento.

Essa imagem de escritor fracassado foi construída por seus biógrafos décadas após a morte. Inicialmente, ela respondia à questão incômoda da pequena circulação dos Contos Gauchescos (1912) e das Lendas do Sul (1913) em vida, principalmente se colocada em contraste com a grande repercussão nacional de sua edição crítica, publicada por Aurélio Buarque de Holanda em 1949. À medida que a caçada de informações sobre o autor, consequência da consagração literária póstuma, revelava seus recorrentes malogros empresariais, reforçou-se a ideia do fracasso como destino simoniano, marca típica de um personagem incompreendido porque “a frente de seu tempo”.

Mas Simões Lopes Neto realmente fracassou como intelectual? Uma nova análise de sua trajetória pode nos trazer alguma resposta.

Das heranças material e simbólica

É sabido que o escritor descende de uma rica e influente família do Rio Grande do Sul no século 19. O avô paterno que dera o nome ao nosso personagem, João Simões Lopes Filho (1817-1893), possuía largos campos na província sulina e no norte do Uruguai. A história da Estância da Graça, a mais notória de suas propriedades, se confunde com o povoamento luso-brasileiro na fronteira Sul que originou o município de Pelotas – epicentro da economia charqueadora e principal polo produtivo da província durante o Império. Dela, ainda, viriam os títulos de nobreza recebidos pelo latifundiário: Barão da Graça, em 1872, e Visconde da Graça, em 1876. Sua influência política e seu prestígio junto à elite local também eram notáveis. Foi nomeado cavaleiro da Ordem de Cristo em 1846, um ano após o fim da Guerra dos Farrapos, na qual se envolveu pelo lado revoltoso.  Em 1868, se tornou comandante superior da Guarda Nacional do município de Pelotas. Em 1870, foi eleito membro da Assembleia Legislativa e, em 1871, nomeado primeiro Vice-Presidente da Província do Rio Grande do Sul. Seu segundo filho do primeiro matrimônio, Catão Bonifácio Simões Lopes (1838-1896), pai de nosso personagem, administrou a fazenda de renome, de 1855 até 1882, quando se transferiu para a Estância São Sebastião, em Uruguaiana, na fronteira Oeste da província.

Do lado materno de Simões Lopes Neto, no entanto, os recursos materiais parecem mais modestos, apesar da extração social idêntica: proprietários rurais e criadores de gado. O inventário de Thereza Coelho de Freitas (?-1876), mãe de nosso personagem, indica os seguintes bens a serem partilhados entre os filhos: uma casa, um terreno e três escravos (APERS, 1877). Vale dizer que mesmo o patrimônio paterno parece acanhado frente à opulência da família Simões Lopes. Quando faleceu, em 1896, Catão Bonifácio deixou sete casas, quatro terrenos, quantidade em dinheiro apurada pela venda de seu campo na Estância da Graça e 20 ações da Companhia Rio-grandense de Gás. Coube a Simões Lopes Neto a quarta parte da herança, avaliada então em cerca de trinta e cinco contos de réis (APERS, 1896).

Antes de discutirmos os usos do patrimônio material, é importante dizer que Simões Lopes Neto teve uma infância e uma adolescência financeiramente seguras e fartas, dada a sobrevivência do avô até sua mocidade, quando houve a divisão das terras e o parcelamento da fortuna entre seus cerca de 20 herdeiros. Nosso personagem cresceu na Estância da Graça, como filho do “patrão” de fato, onde dividia seu tempo entre as brincadeiras com as três irmãs – Eufrázia, Silvana e Maria Izabel –, o acompanhamento quase lúdico dos trabalhos com o gado, o letramento inicial propiciado pela mãe e o convívio com os escravos domésticos. Foi somente após o falecimento de Thereza, em 1876, que ele ingressou em colégio pelotense, com cerca de 11 anos de idade.

Quanto à sua educação, há uma controvérsia biográfica. Após estudar durante dois anos em Pelotas, o jovem Simões foi enviado ao Rio de Janeiro, em 1878, para concluir os estudos secundários e cursar Medicina. Por muito tempo, acreditou-se que ele havia frequentado o famoso Colégio Abílio, mas uma consulta aos documentos daquele educandário colocou em xeque essa versão.[1] O mesmo se repete em relação à etapa seguinte. Não há documento no acervo da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro que confirme algum vínculo.[2]

Há duas versões correntes nas memórias simonianas sobre o retorno a Pelotas. Na primeira, de feição oficial, o jovem estudante teria sido acometido por uma doença e, sendo prejudicado na faculdade, decidira retornar à cidade natal. A segunda, bastante marginal, mas provavelmente de domínio público desde a época, dado seu tom jocoso e sua sobrevivência por décadas na oralidade, informa que o moço teria sido expulso da casa do tio-avô no Rio de Janeiro, Ildefonso Simões Lopes, irmão do Visconde da Graça, após ser pego espiando sua esposa pelo buraco da fechadura (LOPES, 1999: 26). Evidentemente, não importa aqui determinar qual delas seria a verdadeira, mesmo que isso fosse possível. Mais relevante é pensar sobre a função social dessas narrativas em seu contexto original de circulação. Mesmo que a versão principal servisse para encobrir a marginal, acredito que ambas possuíam um valor probatório. É muito difícil que Simões Lopes Neto tenha vivido quatro (ou seis) anos na capital do Império sem passar por estudos secundários formais. No entanto, como dito, é improvável que tenha frequentado algum curso superior. De certa maneira, nenhuma das narrativas sobre o abandono precoce da cidade colocava em questionamento o projeto familiar de formação do jovem João. Num contexto em que o acesso à carreira médica dependia principalmente de “relações personificadas com base na reciprocidade” (CORADINI, 1997: 430), o primeiro fracasso do personagem representaria, na estrutura de poder local, uma falha na posição dominante exercida pela família Simões Lopes. Daí, também, a necessidade de controle das narrativas sobre o malogro escolar.

Ao longo dos anos, essas memórias algo fictícias da passagem por instituições de ensino do Rio de Janeiro se transformariam num dos principais trunfos do escritor, fazendo as vezes de atestado de ilustração, na ausência de títulos acadêmicos. As alegadas causas externas do abandono dos estudos afastavam questionamentos quanto à capacidade intelectual do personagem e ao capital cultural por ele adquirido. Quando Simões Lopes Neto faleceu, os necrológios superestimaram as versões sobre sua educação, indicando que teria frequentado as faculdades de Medicina, Direito e Engenharia. Com certeza, um índice do sucesso da autopropaganda, pessoal e familiar, e da construção de sua imagem pública como intelectual. Se o próprio Simões evitava especificar a sua formação, também acabava por endossar a confusão, da qual tirava rendimentos simbólicos. São conhecidas, nesse sentido, as páginas da conferência “Educação Cívica”, de 1906, em que afirmava: “Eu tive campos, vendi-os; frequentei uma academia, não me formei; mas sem terras e sem diploma, continuo a ser… Capitão da Guarda Nacional” (grifo nosso) (LOPES NETO, 1906: 10).

Dessa forma, as narrativas probatórias do projeto frustrado podiam realizar parcialmente um dos efeitos do recrutamento para a elite médica no período: a ocupação de posições em outras esferas sociais. A conversão inicial dos recursos de formação se deu paralelamente em três espaços: a) o campo limitado da produção cultural local; b) o mercado de postos públicos; e c) o ramo empresarial.

Estratégias de (re)inserção na elite

Apesar do grande crescimento populacional por que passara Pelotas entre 1870 e 1890, saltando de 20 mil a 40 mil habitantes, e dos rendimentos da produção pecuária, que então dominava o setor de exportações do Rio Grande, o mercado de postos públicos local ainda era bastante limitado. Quase do tamanho de Porto Alegre, que em 1890 contava com 45 mil habitantes, o principal polo econômico da província carecia de um aparato estatal desenvolvido na mesma proporção de sua capital político-administrativa. Nesse sentido, a elite latifundiária da zona fronteiriça, que escolhia Pelotas para residir, acabava tomando a iniciativa na promoção de obras de interesse público. Na falta de instituições oficiais de cultura, como aquelas que vinham sendo erigidas em Porto Alegre pelo governo positivista, a prática do mecenato também tinha grande importância. E não era recente. O Teatro Sete de Abril, por exemplo, primeiro da província, foi erigido em 1834 por uma sociedade dramática particular, durante a expansão do negócio do charque.

É evidente que, numa sociedade extremamente desigual,[3] os bens culturais sofisticados se destinavam a poucos. Menor ainda era o número de produtores habilitados para o trabalho de produção simbólica, comumente recrutados entre forasteiros, não raro estrangeiros, e camadas descendentes da própria elite pecuarista (VARGAS, 2016). Nesse cenário, entendemos algumas das opções e estratégias desenvolvidas pelo jovem Simões Lopes Neto para manter suas condições originais de reprodução social.

O primeiro ponto a se destacar é a sua pequena propensão à vida político-partidária e ao setor público. Republicano de primeira hora, assim como os demais homens adultos do clã, o personagem se manteve fiel ao PRR mesmo durante a Revolução Federalista, de 1893. Foi nessa ocasião que serviu como tenente do Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional do município, sem nunca entrar em combate.[4] Em 1896, foi eleito conselheiro municipal, cargo que ocupou apenas naquela legislatura, até 1900. Já em 1904, após malograr em todas as suas atividades empresariais, recebeu por concurso público a concessão de um cartório. Posição que abandonaria em pouco mais de um ano.

O segundo ponto diz respeito ao setor de serviços. Em 1890, Simões Lopes Neto montou um escritório de despachante, atividade que desenvolveria durante toda a sua vida, com alguns intervalos. Segundo Jonas Vargas, a sociedade pelotense de fim de século possuía uma complexidade social considerável, com camadas de proprietários urbanos intermediárias entre a elite pecuarista que nela residia e o grosso da população mais pobre. Ainda assim, marchava lentamente no desenvolvimento da burocracia e das profissões liberais. O primeiro despachante da cidade foi registrado somente em 1880. Dez anos depois, portanto, dificilmente a atividade seria suficiente para garantir uma renda à altura das expectativas do jovem Simões Lopes. Como notou um de seus biógrafos, era um “legítimo quebra-galho de um moço rico sem dinheiro” (REVERBEL, 1981: 130).[5]

Era no setor manufatureiro que o personagem dispendia suas maiores energias, concomitantemente ao trabalho não remunerado de produção cultural, em teatro e jornalismo. Assim, o terceiro ponto diz respeito à relação entre a vida da elite e a produção cultual socialmente consagrada como dominante. Não é por coincidência que a estreia do dramaturgo se deu no mesmo ano da primeira grande aposta empresarial. Em 1893, foi encenada a peça O boato, parceria de Simões Lopes Neto com José Gomes Mendes, que assinava o texto como Mouta Rara. A dupla também encabeçava uma incorporação de capitalistas locais na fundação da Sociedade Anônima Vidraria Pelotense e da Sociedade Anônima Companhia de Destilação Pelotense, que sobreviveram entre 1893 e 1895. Paralelamente aos dois fracassos empresariais, veio o primeiro sucesso na cena teatral: a revista Os bacharéis (1894).

Casado desde 1892 com Francisca Meirelles, numa relação que não parece ter agregado patrimônio material considerável, o amparo familiar continuava permitindo os investimentos frustrados no mundo dos negócios e a dedicação à cena cultural. Mas o falecimento de Catão Bonifácio, em 1896, mudou essa realidade. Quando percebe sua herança, Simões Lopes Neto sofre de imediato uma queda de posição social. Durante certo tempo, acreditou-se que ele teria recebido do pai uma verdadeira fortuna, vilipendiada no decurso de suas investidas profissionais. Esse “mito”, alimentado pelas memórias familiares, como as da sobrinha-neta Ivete Massot, já havia sido questionado pelo primeiro biógrafo, Carlos Reverbel. Hoje, sabe-se que a herança recebida pelo pai do personagem não era volumosa: metade dos bens do Visconde da Graça ficaram em mãos da segunda esposa, sendo posteriormente divididos apenas com os filhos dessa união. Apesar da trajetória social em queda, o patrimônio deixado por Catão Bonifácio, como vimos, garantiria uma vida confortável aos filhos. No entanto, o empobrecimento relativo levaria Simões Lopes Neto a reforçar suas estratégias de inserção na elite local, buscando acumular capital econômico, social e simbólico.

Como os dois primeiros fracassos empresariais dificultavam a captação de recursos junto aos homens de negócio, o personagem empregou parte de sua herança no financiamento dos novos projetos. No mesmo ano, outra parceria com José Gomes Mendes, o Café Cruzeiro, vendido em grãos, iniciava vida curta. Nem mesmo a mobilização dos espaços de que o personagem dispunha na imprensa para a propaganda de seu produto foi capaz de fazê-lo superar a concorrência, tendo falido no ano seguinte. Em meio a esses empreendimentos, novas peças eram levadas a cena: Coió Júnior (1896), com Raul D’Anvers, Mixórdia (1896), com Mouta Rara, Viúva Pitorra (1896), primeira peça de autoria exclusiva, O bicho (1898), Fifina (1900), O palhaço (1900), A família Marimbondo (1900), Jojô e Jajá e não Ioiô e Iaiá (1901), Amores e facadas ou Querubim Trovão (1901), O maior credor ou Por causa das bichas (1902).

Cabe nos perguntarmos por que o teatro amador se apresentava como atividade alternativa recorrente para um filho da elite pecuarista e aspirante a empresário. A resposta parece se encontrar fora do incipiente campo cultural local. Mais exatamente no mercado de bens de luxo da elite pelotense e em suas estratégias de demarcação social. Desde muito cedo, o teatro foi um elemento de distinção na província, emulando o ethos civilizacional da corte e das capitais europeias.[6] Como vimos, a cidade erigiu a primeira casa de espetáculos do Rio Grande do Sul, o Teatro Sete de Abril, às vésperas da sedição farroupilha. Segundo Dalila Müller, ele foi o primeiro espaço público de sociabilidade mais fechado utilizado pelas classes proprietárias de Pelotas (MÜLLER, 2010: 141). A própria família Simões Lopes possuía uma antiga relação de mecenato com a cena teatral, pois o Visconde da Graça foi um dos 210 sócios-proprietários fundadores da Sociedade Cênica do Teatro Sete de Abril, mantenedora composta, em sua maioria, por charqueadores e produtores de gado (MÜLLER, 2010: 148-149). Portanto, tudo leva a crer que, em sua fase inicial de atividade intelectual, Simões Lopes Neto buscava se projetar na alta sociedade, mais do que se construir como produtor cultural.

Cultura como (quase) negócio

A sucessão de títulos de dramaturgia leve só foi interrompida quando Simões Lopes Neto fez sua última grande aposta como empresário. Em 1901, estabeleceu uma sociedade com Ildefonso Corrêa para a fabricação de cigarros. O polêmico nome escolhido para a razão social da empresa parece ter sido uma estratégia publicitária ousada para a época, além de uma provocação anticlerical: Diavolus. Popularmente, o produto era mesmo conhecido como “marca Diabo”.[7] Além dos esforços de propaganda, o personagem procurou se inserir nas redes de solidariedade das classes proprietárias da cidade. Em 1901, compôs a diretoria da Associação Comercial de Pelotas e, no ano seguinte, do Clube Comercial. O capital cultural acumulado facilitava seu ingresso nesses espaços, pois costumava secretariar as reuniões e prestar serviços burocráticos e intelectuais às instituições a que servia. 

Tudo indica que o volume restante do capital econômico de que dispunha foi empregado nesse projeto. A falência da fábrica, provavelmente em 1906, quando desaparecem dos jornais os reclames publicitários, põe fim às pretensões de ascensão social de Simões Lopes Neto. A partir daí, há uma nítida mudança de vetor em sua trajetória: os capitais social e cultural acumulados são convertidos em mais capital cultural, uma vez que sua sobrevivência material passa a depender quase exclusivamente de seu êxito no campo intelectual. As atividades de produção simbólica, até então recursos secundários de inserção na elite, passam a configurar sua principal frente de investimentos. Ao que parece, em paralelo ao fracasso empresarial, o personagem se consagrava socialmente como produtor cultural não especializado, com a vantagem, frente a muitos concorrentes nessa esfera, de ter a mesma origem social e étnica de seu público-alvo.

Como dito, sua dramaturgia começa a minguar no início da década de 1900. À dilapidação de seu patrimônio material não se segue um retorno imediato ao teatro.[8] Pelo menos dois fatores explicam a mudança. Primeiro, a feição amadora da atividade, geralmente vinculada a ações beneficentes, que não permitia o sustento material dos produtores. Como vimos, era uma atividade de entretenimento da elite para a elite. Segundo, a hierarquia dos gêneros e as expectativas em relação ao intelectual no cenário cultural local começavam, alguns anos após o advento da república, a entrar em sintonia com o debate público nacional, privilegiando as reflexões sobre a sociedade, as visadas sobre o Brasil profundo, o civismo e o patriotismo, tudo isso em grandes conferências abertas, geralmente reproduzidas pela imprensa ou divulgadas em livretos patrocinados por associações culturais. Se esse tipo de atividade também não gerava renda direta ao produtor, seu prestígio abria as portas de jornais, editoras, escolas, faculdades, órgãos governamentais e, evidentemente, habilitava o agente intelectual para “voos mais altos” no próprio campo, como o ingresso em academias tradicionais. Distante do grande circuito comercial da capital federal, que incluía a crítica especializada autorizada, o teatro na periferia sulina não possuía o mesmo efeito. Assim, a reconhecida versatilidade simoniana seria desviada para a fala pública, abarcando os mais variados assuntos de interesse coletivo: educação, literatura, comércio e até moléstias e parasitas que atacavam os animais de criação. Em poucos anos, Simões Lopes Neto se tornou praticamente um conferencista “oficial” da cidade de Pelotas.

A principal base dessa nova projeção como figura pública era o associativismo. Segundo Beatriz Loner, houve grande incremento do fenômeno em Pelotas nas duas últimas décadas do século XIX (LONER, 2002: 40). Ainda de acordo com a autora, as duas lojas maçônicas da cidade davam suporte à prática, pois o associativismo era correlato às ideias de modernização e progresso então vigentes (LONER, 2002: 49).  Das agremiações patronais, Simões Lopes Neto passou a incorporar clubes de elite diversos, nas áreas de lazer e cultura, e comissões organizadoras de festejos municipais. Foi, por exemplo, um dos fundadores do Clube do Ciclismo Pelotense e encampou as comemorações do jubileu da imprensa municipal. Em 1901, ingressou no União Gaúcha, uma entidade cívica que buscava preservar as tradições campeiras do Rio Grande do Sul, a exemplo do Grêmio Gaúcho de João Cezimbra Jacques, fundado poucos anos antes em Porto Alegre.

Foi nesse momento que se deu a elaboração inicial de seu projeto de memória, através da redação de um ensaio histórico e de um romance de formação, de palestras em tom nacionalista e da curadoria e confecção de uma coleção de cartões postais, possibilitada pelo pioneiro parque gráfico e editorial pelotense. O perfil empreendedor do pretendente a industrial foi transferido para o mundo das letras, no que acabou superestimando seus limites e condições. Seus três primeiros livros, que permaneceram inéditos em vida, denotam ambições comerciais: focados na educação, eram pensados para larga circulação. Os dois volumes do ensaio histórico Terra Gaúcha eram destinados ao público escolar. Mesma pretensão de Artinha de Leitura, um manual de alfabetização que recebeu parecer negativo do Departamento de Ensino por não se adequar às normas da ortografia vigente. Se fossem encampados pelo setor educacional, mesmo que sua distribuição dependesse do mercado escolar privado, era possível que os títulos rendessem dividendos financeiros significativos para um empresário em vias de falência. Principalmente se somados à venda de seu terceiro projeto editorial: o romance de formação também intitulado provisoriamente de Terra Gaúcha, pastiche regionalista de obra de sucesso no período, o Cuore, de Edmundo d’Amicis, que foi editada de maneira pirata na própria cidade de Pelotas e de lá distribuída para todo o país (BASTOS, 2004: 9). Inviabilizados comercialmente, os manuscritos permaneceram engavetados por muitos anos, ainda que não necessariamente abandonados pelo autor. Foi assim que um produto mais barato e palpável passou a ocupar a atenção de Simões Lopes Neto nos anos seguintes, em sintonia ideológica com os projetos frustrados: a Coleção Brasiliana de cartões postais, comercializada em duas séries de 25 peças, de um prospecto original de 12 séries, que celebrava fatos e símbolos da história brasileira e rio-grandense.

No final da década de 1900, Simões Lopes Neto já havia perdido grande parte do patrimônio herdado. Para manter as condições de vida, foi se desfazendo das propriedades urbanas que possuía, incluindo a casa em que morava com a esposa e uma filha adotiva. Os investimentos na autoconstrução como intelectual levavam à carreira literária, que, no contexto local, de incipiente mercado editorial e instituições culturais de perfil associativo, praticamente se restringia ao jornalismo profissional. Como apontou Sergio Miceli, a vida intelectual da Primeira República era dominada pela grande imprensa, principal instância de produção cultural e fonte da “maioria das gratificações e posições intelectuais” (MICELI, 1977: 15).

 Entre 1911 e 1912, Simões Lopes Neto publicou doze de seus contos gauchescos no Diário Popular, precedendo ao lançamento do livro. A partir de então, assumiria o nome próprio com maior frequência, abrindo mão dos pseudônimos empregados por muito tempo no teatro – Serafim Bemol – e no jornalismo de colaboração – João do Sul[9] –, o que atesta a tendência de profissionalização como produtor cultural, com a necessidade de reforçar a imagem de intelectual público e coordenar a obra em função do nome próprio. Organizador, pela Biblioteca Pública Pelotense, das comemorações do centenário da cidade, Simões também editou, naquele ano, a Revista Centenária, em que publicou documentos e narrativas históricas a respeito de Pelotas. Essa experiência, somada à nova frequência nas páginas dos jornais locais, além da posição de prestígio intelectual já alcançada, lhe abriu as portas da redação d’A Opinião Pública, em 1913. Pela primeira vez, teve no periodismo um trabalho remunerado. Em 1914, foi convidado a assumir o cargo de diretor do Correio Mercantil, que havia sido reestruturado como órgão político das “classes produtoras” afinadas com a candidatura republicana dissidente de Ramiro Barcellos ao Senado, em oposição ao Marechal Hermes da Fonseca. Apesar da orientação partidária, o jornal passou por uma modernização gráfica e editorial comandada por Simões, inspirada no carioca Jornal do Comércio, e que incluía a criação de uma seção cultural semanal, chamada de “Artes e Letras”. Nosso personagem permaneceu no posto até novembro de 1915, quando o órgão foi novamente vendido. Com isso, retornou ao A Opinião Pública, onde trabalhou como redator de comércio e cultura até o falecimento, em 1916.

A imprensa local, portanto, reproduzia as características textuais da grande imprensa nacional. Daí a dedicação do Simões jornalista aos gêneros então importados da França no centro do país: reportagem, inquérito, crônica. Destacam-se, nessa última fase, a série “Inquéritos em contraste” (1913) e a coluna “Temas Gastos” (1915). Como aponta Patrícia Lima, aquilo que se chamava, no momento, de “inquérito” era uma espécie de “gérmen da reportagem”, ou um desenvolvimento da crônica em direção ao relato e ao comentário, com o próprio autor transformado em personagem, “em repórter que busca, vê e narra” (LIMA, 2016: 35). Nos dezessete textos da série simoniana, encontramos tipos populares em seus ambientes de trabalho, lazer e moradia sendo interrogados pelo jornalista, que assim desvelava a vida dos cortiços, dos bairros pobres, dos grupos marginais na sociedade pelotense em crescente urbanização, sem deixar de tecer observações pessoais e apelar a padrões literários de narração, como o diálogo e as descrições detalhadas de cenas. Já nos sete “temas”, o autor aborda de maneira leve e bem-humorada assuntos comezinhos, como os modismos na escolha dos nomes próprios, a vida de casado e o jogo do bicho, alternando o estilo e o gênero, entre crônica e conto/anedota, em textos frequentemente híbridos.

O lugar central do gênero crônica e suas variações no jornalismo finissecular na América Latina, segundo Julio Ramos, não era fortuito. Ele traduzia uma “condição de possibilidade da modernidade poética”, pois a crônica permitia a consolidação do sujeito literário através do confronto com as áreas antiestéticas do jornalismo e da cultura de massas: “se a poesia, para os modernistas (…), é o ‘interior’ literário por excelência, a crônica representa, tematiza, os ‘exteriores’, ligados à cidade e ao próprio jornal, que o ‘interior’ apaga” (RAMOS, 2008: 107). Uma espécie de divisão discursiva do trabalho do literato, gerada pela mesma autoridade estética, própria da primeira fase de desenvolvimento do campo literário nos países latino-americanos, em que a literatura dependia do jornalismo. Isso explica o hibridismo textual característico do gênero no período, conforme observado na produção simoniana. Mais interessante ainda, para os objetivos deste trabalho, é perceber a sintonia das disposições do nosso personagem com as expectativas e caraterísticas da carreira literária, mostrando que seu recrutamento efetivo foi posterior à dilapidação do seu patrimônio material original e à conquista de prestígio intelectual.

Dilapidação social e consagração intelectual

Assim, quanto mais Simões Lopes Neto empobrecia, mais se consagrava como intelectual. O maior índice desse paradoxo aparente é o ingresso na segunda fase da Academia de Letras do Rio Grande do Sul (ALRS), como sócio-fundador, em 1910. Fato mais relevante, ainda, em se tratando de um escritor de livro único e não autoral, até aquele momento. O Cancioneiro Guasca, publicado em Pelotas no mesmo ano, é o desenvolvimento do colecionismo histórico-folclorista no projeto intelectual do autor. Possuía uma ambição eminentemente documental, idêntica a iniciativas recentes de salvaguarda de acervos da cidade, e que não se perderia com a literatura de imaginação. Por isso mesmo, Simões Lopes Neto foi considerado historiador pelos seus pares. Na ALRS, ocupou a cadeira n. 3, compondo o setor de História e Geografia. O prestígio acumulado como conferencista e o reconhecimento público como representante da cultura letrada da rica Pelotas eram requisitos mais do que suficientes para a indicação. Simões Lopes Neto ainda seria escolhido orador da sessão comemorativa do primeiro aniversário da instituição, realizada em Porto Alegre. Com certeza, uma dupla distinção: ao personagem e à sua base de atuação.

Outro elemento que atesta a posição de destaque na cena cultural rio-grandense alcançada nos últimos anos de vida é a rede de solidariedade intelectual conquistada. Infelizmente, a correspondência simoniana não sobreviveu ao espólio de seu acervo pessoal, com alguma exceção. Mas as dedicatórias de seus últimos dois livros, Contos Gauchescos e Lendas do Sul, indicam a proximidade com nomes importantes de Porto Alegre e do Rio de Janeiro, como Alcides Maya e Coelho Neto. A própria ALRS pode ter sido utilizada para a ampliação de seus contatos. O certo é que, na década de 1910, o nome de Simões Lopes Neto circulava na elite letrada do estado. Em 1912, por exemplo, Irineu Trajano dedicou a nosso personagem um poema publicado no número VII da Revista da Academia. Também é sabido que algumas figuras importantes do campo intelectual acabariam sendo mobilizadas para tentar reativar seus projetos frustrados. Quando faleceu, em 1916, os originais dos Casos do Romualdo se encontravam em mãos de Pinto da Rocha, que redigia um prefácio para uma futura edição. Já Alcides Maya, representante do estado na Academia Brasileira de Letras, se encontrava com os manuscritos do ensaio histórico Terra Gaúcha, com promessa de buscar editores no centro do país.

É possível conjecturar, assim, que a posição geográfica estratégica, a relevância econômica e a influência política de Pelotas na Primeira República, tenha projetado o nome de Simões Lopes Neto, se não a sua literatura, em alguns círculos letrados nacionais. Em 1918, por exemplo, Olavo Bilac visitou a cidade no roteiro de sua campanha civilista. No segundo dia de atividades oficiais, rendeu homenagem ao escritor gaúcho em seu túmulo. Em Porto Alegre, leu e comentou a variante simoniana da lenda do Negrinho do Pastoreio. A relação com Coelho Neto também advém daí. Em 1907, o escritor maranhense fez uma incursão pela região, incluindo os países platinos. Simões Lopes Neto era, então, presidente da sociedade União Gaúcha, e organizou uma recepção gauchesca, em que não faltou uma fotografia do visitante caracterizado como um peão de estância. Pouco antes da festa, Simões publicou, pela primeira vez, O Negrinho do Pastoreio, com dedicatória ao novo amigo. A carta de agradecimento de Coelho Neto foi transcrita como prefácio ao texto na edição de Lendas do Sul, em 1913.

Os malogros empresariais do personagem, portanto, não podem ser tomados como régua de medida de sua situação no campo cultural. O binômio fracasso material/sucesso intelectual, na verdade, pode indicar uma condição estrutural da vida literária brasileira no período. Como mostrado por Sergio Miceli, a geração de letrados estabelecidos no centro do país durante a Primeira República – a que denominou de “anatoliana”, em função da influência do escritor Anatole France – originava-se de frações decadentes da elite econômica tradicional. Boa parte dos intelectuais estudados pelo sociólogo possuía experiência familiar de empobrecimento, o que lhes dotava de disposições necessárias ao trabalho de dominação simbólica: o conhecimento do habitus, em termos bourdianos, das camadas superiores e a dependência material em relação a elas.

O modelo de Miceli revela que o ingresso nas carreiras intelectuais dependia de uma série de determinações positiva – a posse de trunfos originados da posição na frátria ou linhagem (ser filho único, ser o único filho homem, por exemplo) – e de uma série negativa – efeitos de handicaps sociais (morte do pai, empobrecimento) e biológicos (tuberculose) ou estigmas corporais. Essas formas de “mutilação social” acabavam bloqueando o acesso às carreiras dominantes das frações dirigentes. Aos “filhos pobres” da oligarquia restariam as posições criadas pela expansão do mercado de postos administrativos, políticos e culturais, a partir da prestação de diferentes tipos de serviços (trabalho político do pai nas eleições, trabalhos femininos da mãe, da esposa ou de irmãs, como a costura etc), que permitiam converter seu capital de relações sociais a favor de seus interesses. Dentre as possibilidades de encaixe dos filhos dos “parentes pobres”, se encontrava a carreira literária, socialmente definida como “feminina”, ocupando uma posição dominada, entre a carreira militar (mais próxima do polo masculino – associado a poder) e o exemplo-limite da carreira eclesiástica (a mais feminina das carreiras masculinas) (MICELI, 1977: 21-26).

Talvez a principal diferença entre Simões Lopes Neto e os anatolianos estudados por Miceli seja a temporalidade da dilapidação social, inscrita na própria biografia, não na trajetória familiar como um todo. Como vimos, nosso personagem experimentou três handicaps sociais, propiciados pelo parcelamento do patrimônio material – falecimento do avô e falecimento do pai – e pela perda do capital econômico herdado, em função dos investimentos empresariais fracassados. Esse fato também explica a relação diversa com as determinações da hexis corporal. O estigma físico de Simões Lopes Neto, ser caolho, adquirido na infância,[10] não parece ter representado uma barreira às posições “masculinas” da elite dirigente. Efetivamente, como mostra o próprio modelo de Miceli, esse tipo de determinação negativa, que facilitava o trânsito para posições como a de escritor, só era sentido “por força do desaparecimento do capital de que a família dispunha, ou então, pela impossibilidade de herdar esse capital em toda a sua extensão” (MICELI, 1977: 22). Como procurei mostrar ao longo deste texto, o empobrecimento paulatino de Simões Lopes Neto “freava” uma conversão imediata para a carreira literária, o que também minimizava possíveis efeitos do estigma. A mudança de vetor na trajetória social e no acúmulo de capital – de capital econômico Þ capital  cultural/capital social para capital social/capital cultural Þ capital cultural/capital econômico – também foi gradativa. É por isso que a posição de destaque e prestígio no campo intelectual antecedem em alguns anos sua profissionalização forçada. Além do mais, a gestão do capital de redes sociais familiar era realizada pelo próprio Simões Lopes Neto.

Levado pelas interpretações correntes da biografia simoniana, eu mesmo cheguei a pensar, no início da minha pesquisa de doutorado, em classificar o personagem como um “outsider”. A análise dos dados pertinentes de sua trajetória social, no entanto, apontou para uma configuração oposta: um sujeito estabelecido, mas num quadro de atuação limitado. Simões Lopes Neto, portanto, foi alguém que explorou as principais possibilidades do campo intelectual numa periferia brasileira da Primeira República. Mesmo na pobreza material, conheceu o sucesso junto ao pequeno establishment a que pertencia. Como ressaltou o sociólogo Norbert Elias:

Acontece, com muito mais frequência do que se pode imaginar, de alguém se empenhar com fervor em ser aplaudido por seu círculo imediato de amigos e conhecidos; no reconhecimento e aclamação pela cidade aonde vive; e que o sucesso em qualquer outro lugar do mundo não rompesse a falta de sucesso, ou mesmo rejeição que experimenta no círculo mais restrito a que esteja ligado (ELIAS, 1995: 37).

Não se trata aqui, todavia, de reforçar a antiga imagem de “escritor municipal” conferida a Simões Lopes Neto por Carlos Reverbel. Ela se tornou praticamente um lugar comum, bastante difícil de se contornar, talvez à revelia das próprias intenções do biógrafo. Intérpretes posteriores, como Ligia Chiappini, foram ainda mais cautelosos, duvidando que o escritor e sua obra tivessem experimentado algum reconhecimento público mais consistente para além de Pelotas. A tese do “isolamento simoniano” foi, assim, reproduzida durante décadas. A leitura restritiva da relação entre o autor e sua cidade natal acabou ofuscando os sinais de prestígio gozado, evidenciados em diversas fontes, incluindo algumas muito conhecidas há bastante tempo. O fato de não ter alcançado grande destaque nacional em vida não significava, todavia, estar ilhado em sua localidade de origem, muito menos ter fracassado em seus objetivos de reconhecimento intelectual. O sucesso de Simões Lopes Neto, portanto, deve ser medido em escala regional.

Referências

APERS – Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Autos do inventário de Thereza Freitas Lopes, sob n. 869, maço n. 50. Estante n. 25, ano de 1877.

APERS – Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Autos do inventário de Catão Bonifácio Lopes, sob o n. 201, maço n. 6, estante n. 33, ano de 1896.

BASTOS, Maria Helena. Leituras de formação: Coração, de Edmundo de Amicis (1886). I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial. Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, 2004.

CORADINI, Luiz Odaci. Grandes famílias e elite “profissional” na Medicina no Brasil. História, Ciência, Saúde – Manguinhos. Volume 3, número 3, nov. 1996-fev.1997, p. 425-466.

DINIZ, Carlos Francisco Sica. João Simões Lopes Neto: uma biografia. Pelotas, UCPel, Porto Alegre: AGE Editora, 2003.

ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

LIMA, Patrícia Lima de. Simões Lopes Neto jornalista: uma leitura da coluna Inquéritos em Contraste, de 1913. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras, Porto Alegre, 2016.

LONER, Beatriz. Pelotas se diverte: clubes recreativos e culturais do século XIX. História em Revista (UFPel). Pelotas, v. 8, n. 8, 2002, p. 37-68.

LOPES NETO, João Simões. Educação Cívica. Pelotas: União Gaúcha: 1906.

LOPES, Hilda Simões. Entre sonhos e charqueadas. Cadernos Ponto e Vírgula. Porto Alegre, n. 17, 1999, p. 25-27.

MICELI, Sergio. Poder, sexo e letras na República Velha: estudo clínico dos anatolianos. São Paulo: Perspectiva, 1977.

MÜLLER, Dalila. “Feliz a população que tantas diversões e comodidades goza”: Espaços de sociabilidade em Pelotas (1840-1870). Tese (Doutorado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Programa de Pós-Graduação em História, São Leopoldo, 2010.

NETTO, Heloisa Souza Pinto. Mais que João, Joões: a trajetória de João Simões Lopes Neto (1865-1916) em seu contexto. Dissertação (Mestrado).  Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras, Porto Alegre, 2015.

RAMOS, Julio. Desencontros da modernidade na América Latina: literatura e política no século 19.  Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

REVERBEL, Carlos. Um capitão da Guarda Nacional: vida e obra de João Simões Lopes Neto. Porto Alegre: Martins Livreiro, Caxias do Sul: UCS, 1981.

TORRES, Bolívar. Um Simões Lopes Neto jovem, frustrado e inédito. O Globo. Rio de Janeiro, 22/04/2017. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/um-simoes-lopes-neto-jovem-frustrado-inedito-21241556. Acesso em 07/05/2017

VARGAS, Jonas Moreira. Os Barões do charque e suas fortunas: um estudo sobre as elites regionais brasileiras a partir de uma análise dos charqueadores de Pelotas (Rio Grande do Sul, século XIX). São Leopoldo: Oikos, 2016.


[1] Segundo Diniz, não há nenhuma referência ao nome de João Simões Lopes Neto nas relações de alunos que prestaram exames no período de 1876 a 1884, diferentemente de seus tios Antônio e Ildefonso (DINIZ, 2003: 56).

[2] No entanto, há uma lacuna de documentação para os anos de 1882 a 1884, período para o qual que também não se sabe se Simões Lopes Neto já havia retornado a Pelotas ou permanecia no Rio de Janeiro (DINIZ, 2003: 58-59). É necessário dizer que Carlos Reverbel já havia encomendado consulta semelhante antes da publicação de seu livro Um Capitão da Guarda Nacional, com o mesmo resultado.

[3] A grande concentração da riqueza – que produzia, inclusive, uma elite com alcance nacional dentro da elite econômica local – e o apego às hierarquias sociais são duas características da sociedade pelotense do século XIX reveladas pela pesquisa de Jonas Moreira Vargas.

[4] Foi promovido honorificamente a Capitão em 1901, quando a Guarda Nacional já havia sido dissolvida.

[5] Nunca abandonados, os serviços oferecidos pelo escritório se diversificaram, incluindo a representação local de produtos nacionais e importados.

[6] Além de Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre contavam com casas de espetáculo em meados do século XIX, algo recente em relação à tardia ocupação luso-brasileira na região, cujos limites só se definem no final do século XVIII.

[7] A expressão “marca diabo” é hoje corrente no Rio Grande do Sul para designar produtos baratos ou de marcas inferiores e desconhecidas. Não consegui encontrar referências para seu uso metafórico na época. De qualquer maneira, a atribuição de sua popularização à fábrica de Simões Lopes Neto é bastante comum.

[8] Segundo os levantamentos dos biógrafos, memorialistas e pesquisadores da área, depois de “Por causa das bichas”, o autor só produziria mais dois textos, já na década de 1910: “Valsa branca” (1910), diálogo em cena única, e “Sapato de bebê” (1915), melodrama inspirado em conto de François Coppée.

[9] Na série “Balas de estalo” e em alguns outros textos, principalmente na década de 1890, Simões também utilizava variações de um mesmo pseudônimo, sempre relacionados ao riso, como: João Rialto, João Riforte, João Ripianíssimo etc. Heloísa Netto acredita se tratar de uma referência aos pseudônimos usados por Guilherme de Azevedo – João Rialto – e Ramalho de Ortigão – João Ribaixo – na imprensa carioca (NETTO, 2015: 32).

[10] Simões Lopes Neto possuía um leve estrabismo na infância. Quando tinha cerca de seis anos, um médico charlatão percorreu a região prometendo cirurgias de reparo ocular. Catão Bonifácio contratou seu serviço, que acabou desfigurando o filho para o resto da vida.

Jocelito Zalla é doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor do Colégio de Aplicação e do Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS. E-mail: jocelito.zalla@ufrgs.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s