PEALO DE CUCHARRA – CLAUDIO B. CARLOS

Aceita um mate, compadre? – perguntou Manoelita, ao velho que batera à porta.

— É o jeito, já que foder ninguém quer – respondeu o arriado, arrastando as alpargatas e se encaminhando para dentro do rancho.

Fez que não ouviu, a pinguancha. Sabia das bagaceirices lá dele. Era só maneira de falar, de fazer troça, mais nada. Nunca se soube que tenha passarinhado alguém, à força. Era tudo garganta. Pândega. Gabarolice. Bobageira. Foi à cozinha, ele de atrás. Encostou o umbigo na pia, e, tirando o pé direito do surrado chinelo, apoiou-o um pouco acima da canela esquerda, formando um quatro e levantando levemente o vestidinho florido. Aproximou a chaleira do bico da torneira, deixando que a água vertesse, não muito forte. O movimento do corpo provocou-lhe um leve bambolear nas nalgas. O guasca, já abancado num mocho de três pernas, com os cotovelos apoiados no vermelho xadrez da toalha de mesa, ergueu os olhos e apertou a visão – para ver melhor: E esse tundá, hein? Uma belezura! Eu, com uns dez anos a menos, te derrubava nos pelegos, disse. Noelita continuou em silêncio. O velho deu de ombros, descansou o chapéu de feltro sobre a mesinha quadrada, e da guaiaca foi tirando, bem devagar, os avios para fechar um campeiro. A chinoca prendeu a melena em birote, bem no cocuruto. Cabelos lisos e negros. Gadelha de espanhola. Uma bela china, pensou o taura. 

— Mas e que tal o Amâncio? – perguntou o gabola.

— Anssim anssim – respondeu a melenuda. — Andou com garrotilho. Arribou, e agora tá no chibo.

— Tem que meter – disse o velho. — O negócio é meter, nem que entre dobrado –  gargalhou.

— Se eu tivesse com quem, eu também metia – falou o flor de bagaceira, tornando a importunar.    

Ela renovou o silêncio.

O índio lambeu a palha, olhando bem no negro grão do olho da castelhana.

Velho nojento, pensou ela.

Potranca, sonhou ele.

Mas é gente buena, repensou Manoelita. É parente do Amâncio, que se há de fazer.   

A chaleira, bem areada, chiou no Venax branco, esmaltado. A trigueira colocou, na cuia, seis medidas de erva-mate Taquapy. Com um copo de extrato de tomate despejou a água até a metade do seio moreno, inclinou o porongo sobre a palma da mão esquerda, introduziu a bomba cinzelada, de prata, com o bocal devidamente tapado pelo polegar direito, ajeitou bem o morro, deixando-o lisinho, lisinho. Completou o nível da água, com a chaleira de tromba fumegante, e, quando estava se preparando, já de beicinho feito, para chupar a bomba, o velho perguntou: Quer que eu escorropiche? Disse isso pensando nos têtos da morena. São dois poronguitos lindos! São dois poronguitos! Lindos! São dois! E assim, sem mais, assobiou uma marchita campeira: São largas mis penas viejas, como las noches son largas, y así las veo cruzando, mateando la yerva amarga…

Não precisa, eu mesma escorropicho,respondeu Manoelita. Esse velho não perde uma, pensou, arqueando as grossas sobrancelhas.

Ainda te dou um pealo de cucharra, fantasiou o cuera. Son largas mis penas viejas, como las noches son largas…

Cláudio B. Carlos – poeta e contista. Nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS. Tem diversos livros publicados. Coordena o Grupo de Escritores O Bodoque. Atua no mercado literário como editor, preparador e revisor de textos. Vive em Cachoeira do Sul, RS – é editor da Editora Coralina e da Saraquá Edições.

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