UMA ODE À HUMANIDADE (SÓFOCLES) – TRAD. POR RAFAEL BRUNHARA

(Sófocles, Antígone, versos 332-375)

Muitos prodígios e terrores há;
nenhum maior que o ser humano.
Ele atravessa o mar cinzento
junto dos ventos invernais,
ele vaga e vence rugentes
ondas que o cercam e exaure
a mais suprema deusa,
a Terra imortal e incansável,
ano a ano lavrando-a vai
com o arado e seu cavalo.

A raça de aves lépidas
O rebanho de feras
as criaturas marinhas
ele enlaça e leva
na rede que urdiu,
homem perspicaz;
vence com artes a rude
fera dos montes e põe
o jugo no pescoço
do corcel crinudo
e do touro chucro;

Aprendeu a língua, sutis
pensamentos e modos civis;
a abrigar-se do frio inóspito
e das tormentas lancinantes;
apurado, nunca em apuros
no porvir: só da morte
não saberá fugir;
de doenças invencíveis
concebe a fuga.

Seu engenho e arte
superando a esperança
leva-o ora ao mal, ora ao bem;
quando honra as soências da terra
e as Leis que jura aos Deuses
se eleva na pólis; sem pólis
quando se atreve a cometer o mal:
não venha ao meu lar
nem partilhe comigo seu pensar
quem age assim!

Rafael Brunhara é doutor em Letras Clássicas e professor de língua e literatura grega na UFRGS. Autor de Elegias de Tirteu (Humanitas, 2014) e de traduções de poesia grega antiga: Hinário Antigo (Martelo Editorial, no prelo) e Elegia Grega: uma antologia de poesia arcaica (Ateliê Editorial, no prelo).

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