5 CRÔNICAS DE TIAGO MARIA

O dia que Deus falou comigo

Gostaria, mesmo, caros leitores, de ser pintor, e bom pintor, para colocar sob seus olhos, com fidelidade, o encantamento que aquela aparição causou em todos os Santos do Apolinário… Mas antes deixa contar aqui como Ele me salvou da morte.

Dormíamos, minha senhora e eu, como fazemos há mais de vinte anos, não mais de “conchinha”, clichê de tempos remotos, mas de “ostrinha”, cada um na sua estrutura tridimensional complexa. Ela, enrolada em camadas de lençol e edredom à moda rocambole; eu, esticado feito couro de pandeiro – quando tocou meu celular. E vocês sabem, celular tocando de madrugada é tenso, via de regra é notícia ruim. Se ele estiver na cabeceira da cama, sua senhoura atender e a voz de uma demônia disser: oi, lembra de mim? É morte, certa!

E foi nesse momento, nesse exato momento, com todos os olhos apertados, que eu lembrei de Deus. Uma luz se acendeu em mim, trouxe-me a paz e a serenidade dos justos.

É que no dia que Deus falou comigo, lá no Apolinário, me deu a resposta com sua voz mansa e um sotaque porto-alegrense raiz. Dizem que Ele não é de falar muito, e eu concordo, fica nítido nos programas de entrevista. Agora, não sei se foi o clima, aquele ambiente, o chope, sei lá, sei que tivemos um diálogo, curto, brevíssimo, em verdade, em verdade vos digo, foi uma frase, mas que salvaria a minha vida no momento em que eu mais precisava de misericórdia.

Explico melhor: a Santa Sede, oficina boêmio literária tradicional aqui de Poa, que acontece no boteco Apolinário, publicou uma antologia de crônicas em homenagem aos quarenta anos das personagens “As cobras”, tirinhas Dele, que esteve conosco em carne, osso e alguns raros cabelos, dividindo a mesa e transformando água em chope, ali mesmo, bem diante dos nossos olhos.

Foi mesmo uma aparição, nem os mais santos, nem os mais sedentos, podiam crer. Ele estava mesmo ali, como se fosse um de nós, um mortal. Fez pose para fotografias, autografou obras antigas, apertou mãos, recebeu tapinhas de um lado das costas, deu a outra face e… falou comigo. O boteco estava cheio de falsos profetas e foi um desses ímpios que se aproximou do Homem e disse: Luís Fernando, lembra de mim? Ele apenas sorriu. Foi aí que tomei uns duzentos mililitros de coragem e encaixei uma fala: “Essa pergunta é muito cruel, o melhor é sorrir, não é mesmo?”. E Deus falou comigo: “Quando a gente não sabe de quem se trata é o melhor a ser feito”.

Mas é óbvio que é só quando a gente não sabe quem é. Quando se sabe não há problema algum. Que fala mais idiota essa minha! Santa vergonha! De qualquer forma, me senti ungido. Um idiota, mas um idiota abençoado.

Então, naquela madrugada, quando o meu telefone quebrou a vidraça do sossego e o meu coração já ia descendo as escadarias com uma trouxa de roupas nos ombros, atada na ponta de um cabo de vassoura, e minha senhoura perguntou se era isso, mesmo, só desligar e sorrir, foi que eu tive uma iluminação e recordei daquelas sábias palavras: “Quando a gente não sabe de quem se trata é o melhor a ser feito”. Palavras do Senhor.

E desfizeram-se as trevas. E fez-se a luz!


Pés de gato

Na calada, eu menino, pulei novamente a janela da nossa casinha de veraneio com pés de gato. Dormiam todos. Gostava sair pela praia na madrugada alta, sob olhares intrometidos das corujas-buraqueiras. Deitar-me de costas na areia gelada, a brisa inflando meu calção. No intervalo entre ondas, bem longe, o marujo ensaia Ravel na clarineta. Pra lá da rebentação, salta uma corvina de lantejoula. Espuma a lamber meus pés. Antes de o sol desembaraçar sua cabeleira loira o céu enferruja. A bruma gelada arrepia estrelas do mar. Cerro os olhos. Oiço melhor os segredos das conchas. Equilibra-se na linha do horizonte um petroleiro mudo, quase invisível. O caranguejo, ébrio, atravessa no caminho das pedras, de lado, nem sabe pra onde. Inibe um casal de gaivotas que namorava escondido. A santa, desagradecida, devolve flores de plástico, velas azuis e bijuterias em barquinhos de gazeta que regressam à margem envergonhados. É domingo. Quase março. Entre durmo. Chora a clarineta do marujo na casinha amarela da luz melindrosa que treme ao pé do morro. Essas horas pesa em mim, grave, o silêncio de meu pai. Espreita a maré curiosa. Cartas engarrafadas atracam por toda orla a pretender terra firme e respostas. Essas que eu nunca tive. Sinto na boca o gosto azedo de manhãzinha. E os mariscos ali, mariscando, bem na minha cara. Pensar que os castelos de areia da minha infância são hoje todos ruínas. A bênção ao mar, no seu rugido imenso, antes que eu amanheça a toda sorte da maresia. A lua já se despegou. Os olhos pingando sono da exaustiva e sublime regência das marés. É quando os peixes mais velhos apavoram o cardume contando antigas histórias sobre os perigos de redes e anzóis. O primeiro surfista da primeira direita graúda me lembra de que é hora boa. Faço o caminho de volta amassando o junco orvalhado da servidão. Aromas de café passado e pão de casa. Há telhados para todos os gostos. Pulei a janela de volta com meus pés de gato. A vida é um bocejo. Enfim, “dormir; dormir, talvez sonhar.”.


Alevina

Dia desses, agora em outubro, lancei meu espinhel com uma ponta atada no dedo, pra ser puxada aos pouquinhos, com aquela precisão dos antigos marujos. A linha madre arrebentou no primeiro tranco. Deu um laçaço que se me pega me estraga. É que um distorcedor ficou preso em algum nozinho cego. Parti para um anzol niquelado, tamanho oito (pra não encharutar), chumbada sem garateia, óbvio, que fiz mergulhar pelo esôfago até a base do estômago. E provoquei quando me atravessou a garganta. E quase fisgo o meu intestino. Mas pelo jeito era o dia da pesca. Então me encharquei com os boêmios. E mesmo assim não transbordei em cardume. Foi aí que eu abri com uma peixeira do esterno até o umbigo. E vasculhei nas minhas vísceras. E apalpei o meu fígado morno. E espremi os meus rins com as duas mãos. E não vi uma ova! Daí que arranquei eu mesmo os meus olhos – à unha. E com um toco de vela, lancei luz sobre os meus escuros profundos. Também nada encontrei. Foi só quando eu destampei minha cabeça oca, e só quando ariei os meus pensamentos com um caco de telha, que alguma coisa prateada reluziu tímida e frágil, faísca de uma ideiazinha que, assim, de perto, não dava um palmo. Não tive dúvidas. Devolvi na hora para que ganhe peso. Juro que ainda te pesco, ideiazinha, te descamo, fatio em postas, te frito e saboreio com limão galego.


Rotina & Remorso

Eu nunca desejei o mal a ninguém. Tá, nunca, nunca, já é exagero. E ninguém, ninguém também é mentira. Mas normalmente eu não desejo o mal a ninguém. Acontece que eu chego ao Centro da minha Poa lá pelas sete e quarenta da manhã. Daí que só tenho vinte minutos antes de assinar o ponto no Arquivo Público do RS. Então, faço uma correria para estar na lanchonete do Bigode a tempo de pegar o jornal na bancada e pedir meu café com leite, bem branquinho, por favor, e um Farroupilha (pão francês, que aqui é cacetinho, com manteiga, presunto e queijo) prensado, por favor. O Bigode faz um sanduíche Farroupilha de dar inveja em qualquer Bento Gonçalves. Só que, de uns tempos pra cá, minha rotina vem sendo quebrada, usurpada, ou melhor, assenhoreada.

Um senhor que deve ter, sei lá, uns cento e oitenta e poucos anos, daqueles baixinhos encurvados, sabe? Usa uma boina e suspensórios. Óculos com lentes bifocais. Apoia-se em uma bengala. Pois este senhor está chegando antes do que eu na lanchonete do Bigode e fica fazendo as cruzadinhas do jornal enquanto sorve len-ta-men-te um cafezinho preto interminável. O pior é que o Bigode só tem um exemplar na lanchonete. Aí eu fico na esperança do senhorzinho acabar logo as cruzadinhas, ou o cafezinho, o que nunca acontece. Tudo bem que é só um jornal com aquelas notícias pavorosas, o horóscopo, vez que outra uma crônica do Verissimo, os classificados, o obituário, uma receita culinária, dicas de viagem e tal. Mas, pelo amor de Zeus, estamos falando aqui da minha sagrada rotina matinal!

Eu já acelerei o passo pra ver se antecipava ao ancião. Sem efeito. Já tentei atalhar pela galeria Chaves. Nada. Combinei então com o Bigode de deixar o jornal escondido em baixo dos cardápios. Cheguei até mais cedo e lá estava o senhorzinho desenterrando o jornal da bancada. Uma vez, peguei o ônibus do horário anterior ao meu, madruguei no Centro Histórico, parei na frente da lanchonete e fiquei esperando o Bigode abrir. Quando subiu a cortina de ferro adivinha quem estava lá dentro, o jornal em baixo do braço: “um cafezinho preto, bem forte, taça grande, por favor”. Olhei pro Bigode e ele ergueu os ombros. Não é possível. Só pode ser combinado. Numa outra eu já estava a uma quadra do Bigode quando o senhorzinho apontou na esquina. Pensei: “essa eu não perco”. Hoje sim! Hoje sim! Hoje não. Pois não é que o velho safado barrou minha ultrapassagem com a bengala já na porta da lancheria?

Tá, eu podia comprar o jornal toda a manhã e acabaria com essa tortura. Mas o preço do jornal é quase o valor que o Dudu Milk (governador Eduardo Leite) me paga (atrasado) de almoço. Daí fica indigesto. Esses dias pensei dar uma revista dessas de cruzadinhas para o senhorzinho se distrair enquanto eu pegava os óculos dele e sapateava em cima, depois chutava a bengala pro meio da rua e derramava o café preto todinho no chão, então eu oferecia um pedaço do meu Farroupilha pra ele e ria. Tudo isso em pensamento, é claro. O fato é que eu não consigo mais ler as notícias e tenho sonhado com o senhorzinho nu atrás de mim que estou correndo em direção ao jornal na bancada da lancheria do Bigode sem conseguir sair do lugar.

Não que eu tenha desejado o mal para esse senhor, longe disso, eu só queria a minha rotina de volta. Agora faz umas duas semanas que ele não aparece e eu não tenho coragem de pegar o jornal na bancada. Fico esperando ele entrar e pedir o cafezinho preto, o imagino ali fazendo as cruzadinhas, a bengala apoiada na cadeira, boina sobre a mesa, as mãos trêmulas… Já perdi duas vezes o meu horário. Olho pro Bigode e ele só ergue os ombros e acena com a cabeça. Se alguém conhecer esse senhorzinho, por favor, diga-lhe que tem um café por minha conta lá no Bigode. Alterar a rotina é um troço dolorido. Mas remorso é de matar.


36h

Matam uma a cada trinta e seis horas. Soco, pontapé e tapa na cara. Uma a cada trinta e seis horas. Bala, faca e paulada. A cada trinta e seis horas. Ateiam fogo, amputam membros, esmagam ossos. Trinta e seis horas.

Morre uma a cada trinta e seis horas. Asfixiada, de hemorragia interna, o pescoço quebrado. Uma a cada trinta e seis horas. Traumatismo craniano, estrangulada, a golpes de facão. A cada trinta e seis horas. Um atropelamento, um afogamento, um envenenamento. Trinta e seis horas.

Agoniza uma a cada trinta e seis horas. Sob tortura, física e psicológica. Uma a cada trinta e seis horas. Convulsiona, cospe sangue, é violada. A cada trinta e seis horas. Pede ajuda, desfalece, não resiste. Trinta e seis horas.

Perdemos (todos) uma a cada trinta e seis horas. Nas favelas, nos condomínios, em coberturas. Uma a cada trinta e seis horas. Filhas de alguém, mães de alguém, donas de si – amparadas por quem? A cada trinta e seis horas. Amam, arrependem-se e morrem. Trinta e seis horas.

Que hora termina?

E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 39 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na revista RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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