A MULHER DA LAGOA – SILVANA CORRÊA

São 5h 30 da manhã, ainda está noite, o sol não apareceu para colorir com seus raios a manhã que inicia. Meus braços estão vazios, meu amor não está mais entre eles. Levanto-me ainda sentido o ritmar dos seus beijos, o pulsar do seu corpo. Olho em volta e só vejo água, meus braços estão molhados, meu corpo está molhado, meu pulmão está molhado. Adormeço novamente.

Acordo, agora assustada, tento recuperar o folego, vou à tona, nado até a margem, a noite está calma, o vento está parado. Sinto-me só, corro até a rodovia, na escuridão da noite vejo um clarão que aumenta sua intensidade conforme se aproxima. Aceno. O homem para o caminhão, olha-me de cima abaixo, abre a porta e manda-me entrar, digo a ele para me levar dali, quero fugir, mas as rodas do caminhão saem em disparada antes que eu pudesse entrar. Corro pela estrada, caio e adormeço.

Acordo, ainda estou na água, ela é turva e fria, através dela não enxergo luz. Preciso saber como sair desta prisão. Começo a lembrar da música, casais dançando, risadas, estou me divertindo e Hans não está aqui. Devo manter em minha mente que estar longe dele será melhor para nós, será melhor para todos. Apesar de todo o desejo, de toda a paixão, devemos procurar seguir nossas vidas, quero me divertir, conhecer outros homens, viver outras paixões. É muito cedo para relacionamentos intensos como o nosso.

Hans surge no meio do baile, me tira para dançar, faz uma cena. Apesar de tudo, algo em mim diz que sim, que quero tê-lo mais uma vez. Abraçamo-nos e dançamos e tudo volta: o prazer, o seu cheiro, o seu corpo, seu hálito, tudo me inebria. Antes de o baile acabar, estamos na rua de mãos dadas, dois amantes proibidos, parece tudo tão tentador, tão divertido, um amor impossível sempre é mais instigante, mais excitante.

Entramos no carro e vamos até o morro MontSerrat, onde podemos ficar a sós. Beijamo-nos, fazemos amor ali mesmo no carro, mas o que era doce, sensual, envolvente, naquele momento esfriou do jeito como estou agora: gélida. Hans falava em traição, em ser só dele, chamava-me de infiel e estava sendo bruto, estúpido, destratando-me. Por birra e por ameaça falei-lhe que aquela seria a última vez, não nos veríamos mais, que estava tudo acabado.

Ele ligou o carro e começou a dirigir, achei que iria me levar para casa e que este seria o fim de nosso relacionamento. Dirigia sem parar e não falava comigo. Eu também não queria mais discutir, as coisas entre nós haviam tomado um rumo diferente do que eu havia planejado. Ao mesmo tempo em que o queria longe de mim, instigava-o para se aproximar, uma brincadeira de pegar e largar, como o gato faz com o rato antes de devorá-lo.

Hans somente dirigia, não falava nada. Comecei a me aborrecer, tentei falar, tentei explicar o que nem eu sabia, ele simplesmente olhou-me e quando fui tocá-lo ele empurrou minha mão. Comecei a chorar para que ficasse com pena de mim, mas ele continuou dirigindo. Pelo choro e pelo cansaço, adormeci e acordei horas depois com o carro ainda em movimento. Olhei pela janela, um pouco perdida, não enxerguei muita coisa. Uma escuridão fora do carro, não podia assegurar onde estávamos. Olhei para Hans, mas não quis perguntar, pois estava com raiva dele por ter-me deixado chorar até pegar no sono como acontece com as crianças.

A certa altura do caminho, Hans entrou em um bosque escuro, havia muitas árvores e a lua tímida começou a aparecer entre as nuvens. O carro parou, Ele desceu, deu a volta no carro e abriu a porta para mim. Seu rosto havia mudado a fisionomia tensa de horas atrás havia desaparecido, ele estava sereno, confiante. Deu-me a mão e desci do carro, notei que estávamos à beira de uma lagoa, não havia vento, nenhuma folha das árvores nem dos arbustos se mexia.

Hans abraçou-me e beijou-me carinhosamente e este foi o abraço mais longo de toda a minha vida e morte. Um tiro em meu peito não foi o suficiente para que eu o largasse, continuei abraçada a Hans até ser levada para a margem da lagoa. Arames com tijolos pendurados foram amarrados a meus pés e pescoço fazendo com que as águas turvas da Lagoa dos Barros sugassem minha vida para sempre.

Ainda acordo sentindo o calor de seu abraço, corro para a estrada a fim de fazê-lo parar. Paro carros e homens que estão pela estrada, mas não encontro mais Hans. Todas as noites levanto com a mesma sensação de que Hans acaba de partir, deixando meu corpo com a sensação gostosa de seu abraço. Acho que nunca irei parar de procurá-lo.

Silvana Corrêa da Silva nasceu em Porto Alegre. É contadora de histórias e escritora de Literatura Infantil. Formada em Letras-Alemão e Francês, Biblioteconomia e Especialista em Gestão e Administração Escolar. Autora de vários livros publicados, dentre os quais, muitos adotados em várias escolas de Porto Alegre, Viamão e Novo Hamburgo. Viaja pelo Rio Grande do Sul com atividades de incentivo à leitura, levando a cultura, a alegria e a arte nas escolas e em Feiras do Livro.  Foi bailarina, trabalhou em teatro e cinema, conhecimento este que agrega em suas atividades de contação de história que são lúdico-pedagógicas, dinâmicas e interativas. Esta obra pode ser adquirida pelos contatos abaixo ou através da Academia dos Escritores do Litoral Norte- RS e-mail: silvanacorreaescritora@gmail.com whatsApp: (51)981263969

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