À SEMELHANÇA DE OUTROS E OUTROS TRÊS TEXTOS – NELSON REGO

À semelhança de outros

O elevador é um meio de transporte encaixado em trilhos e ligado ao motor mantido fixo.

Por que faço o registro? Bom, porque existem pessoas que passam a vida a subir e descer de elevador sem conceber que estão dentro de um primo do vagão do trem elétrico.

E daí?

E daí que faço o comentário porque acho o tema do elevador parecido com o criacionismo. Há pessoas que dedicam suas vidas a negar a proximidade parental humana com os macacos, sem conceber que o grau da proximidade é apenas detalhe. O básico é que ambos, humanos e macacos, somos descendentes de seres microscópicos surgidos há várias centenas de milhões de anos.  Ainda não conseguimos precisar se somos primos em segundo ou quinto ou sétimo grau no ramo onde chimpanzés, gorilas e orangotangos saboreiam folhas tenras, mas que somos todos bisnetos do mamífero que descende do lagarto, que evoluiu do anfíbio, que num dia distante ousou sair dos mares, perder as guelras, ganhar patas e deixar de ser peixe, somos.

Ainda não definimos o detalhe da distância – se é pequena ou se é minúscula – em relação ao primos macacos, mas que os tatatatataravôs de chimpanzés, gorilas, orangotangos e humanos foram os mesmos e tiveram escamas, foram e tiveram.

Tudo ótimo que alguém escolha o criacionismo (ou diga-se escolhido). O problemão é querer forçar que sua crença torne-se crença oficial, obrigatória, única, proibitiva das ciências e da visão contrária. 

Quem sabe até se não existe um ponto no meio – no meio e acima – que possa abrigar um acordo entre humanos de boa vontade? Assim como a vida mesma – não a vida desta ou daquela espécie, mas a Vida – permanece um mistério, assim como permanece não decifrado o modo da passagem da energia do Universo para o fenômeno da Vida, quem sabe nos irmanamos no mistério desse outro fenômeno do macaco que, no brevíssimo intervalo de uns poucos milhões de anos, se tornou falante, escritor, inventor de máquinas e prisioneiro e tirano de sua sociedade? 

Bom, mas o que eu estava querendo dizer, em resumo, é que as pessoas devem prestar mais atenção quando atravessam o portal de um elevador. Podem acontecer acidentes à semelhança do que ocorre em qualquer outro meio de transporte.


Conteúdo e forma

Meu desamigo apologista do direto discurso da sinceridade me soaria mais franco sem o hábito de inconcluir as frases com reticências…


Bem-aventurança

Nesses anos todos, nunca esqueci e cada vez mais compreendo que luminoso ideal de vida me foi revelado na noite em que a velha senhora contou para mim, criança, que tinha o hábito de deitar na rede, após a janta, mirar o céu e rir, rir, rir. Achava as estrelas muito engraçadas.


Uns para os outros

Um punhado de bilhões de confusos falantes micróbios habitando arquipélagos continentais na superfície coberta de água de um pedregulho rodopiando sobre si mesmo e em volta de um foguinho na borda de uma nuvem giratória de muitos outros fogos e pedregulhos e vazios, mais vazios do que qualquer outra coisa, entre tantas outras nuvens dispersando-se em vazio ainda mais vasto, o grande vazio em expansão, e as nuvens levando fogos mais numerosos que os grãos de areia espalhados por todas as praias dos arquipélagos emersos dos mares que alastram tempestades na superfície do pedregulho dos micróbios briguentos divididos em tribos e que se acham insubstituíveis – e somos mesmo, uns para os outros. 

Nelson Rego escreveu “A Natureza Intensa”, livro de quatro contos interligados, finalista do Prêmio Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores, em 2016; “Noite-Égua”, novela; “Daimon Junto à Porta”, vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura para o melhor livro de contos, em 2011; e “Tão Grande Quase Nada”, livro de biografias ficcionais. Autor de nanocontos, aforismos e outros textos sintéticos, publicados em coluna semanal no Jornal Sul21, de 2014 a 2016. Cursou Filosofia e Geografia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é mestre em Sociologia e doutor em Educação. É professor na UFRGS e autor e organizador da coleção de livros “Geração de Ambiências”, publicada pela Editora da Universidade. Os livros da coleção reúnem apresentações e análises de práticas que unem a Geografia à criação de pedagogias ao mesmo tempo críticas e prazerosas em educação formal e não formal. É também autor e organizador de livros acadêmicos publicados pelas editoras Grupo A/Selo Penso, Edelbra, e por meio de convênio entre a UFRGS e a Universidade do Minho, Portugal.

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