AVENTURAS PELA LEITURA E ESCRITA: TRABALHO, LEMBRANÇAS, FILMES INESQUECÍVEIS – VERA IONE MOLINA

O que você está lendo?

A maioria das pessoas que se aproximam de mim para conversar perguntam o que eu estou lendo.  Para falar a verdade, estou sempre lendo, até sobre assuntos que não me interessam. Trabalho com revisão, tradução e por esse motivo leio o que os outros encomendam.

Isso, ao longo dos anos, interfere muito no prazer da leitura. Mas é claro que existem livros irresistíveis, que pegamos e nos dedicamos exclusivamente a eles. Por muitos anos, ao ver imagens da Feira do Livro de Porto Alegre na televisão, tive muita vontade de estar lá, caminhando entre as caixas de saldos, vendo as novidades que ainda não tive tempo de examinar.

Na Feira do Livro, descobri autores que mudaram a minha vida, entre eles o argentino Manuel Puig, um dos meus favoritos, autor de O beijo da mulher aranha, Boquitas pintadas, A traição de Rita Hayworth. Esses livros foram dos que muitas vezes me ajudaram a matar as saudades de Uruguaiana, porque as histórias eram muito identificadas com a vida uruguaianense dos anos 50-60. Descobri também os uruguaios Mario Arregui e Mario Benedetti, este último autor de A trégua, Gracias por el fuego, La vecina orilla e excelente poeta. Sem dúvida, o meu escritor latino-americano favorito.

Com o passar do tempo, passei a ir para a Feira com a lista dos livros indispensáveis, aqueles recomendados num grupo de estudos, na oficina literária, no curso de pós-graduação em Teoria da Literatura.

Nossas vidas são de contínua adaptação e temos uma tendência a achar que outras fases passadas foram melhores. Até dos tempos em que mais problemas enfrentamos sentimos saudade.

Em Uruguaiana, onde voltei a morar por alguns anos, entre 2004 e 2016, coordenei uma oficina de criação literária na Secretaria Municipal de Cultura, na qual pude compartilhar bons autores com meus alunos, alguns do Rio Grande do Sul. Estavam entre eles o uruguaianense, Tabajara Ruas; o alegretense que morou em Uruguaiana, Sergio Faracco e outros brasileiros, argentinos, uruguaios. Para a grande maioria dos oficinandos era tudo novidade e para mim foi pura gratificação.

Hoje vou retomar a leitura de Os limites do impossível, do também fronteirista,  Aldyr Garcia Schlee, assim posso responder: “estou lendo Contos gardelianos”, que é o subtítulo do livro.


Olá e buenas

Não recordo se foi a famosa antologia de contos Os nove do Sul (1), editada nos anos 1960, da qual participaram vários autores conhecidos, entre eles, Moacyr Scliar e Tania Faillace, adquirida no Brique da Redenção, ou após palestras que se sucediam aos sábados de manhã, promovidas pela Coordenadoria do Livro da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre e organizadas pelo saudoso escritor e livreiro Arnaldo Campos, que encontrei o autor Aldyr Schlee.

O escritor é nascido em Jaguarão, embora tenha morado grande parte de sua vida em Pelotas, onde atuou como promotor público e professor universitário. Sendo Schlee nascido na fronteira, também ele tinha uma ponte que o levava para um outro país de fala espanhola.

Eu morava em Porto Alegre fazia mais de uma década e nunca deixava de me imaginar em Uruguaiana, melhor ainda se atravessando a ponte para Paso de los Libres. Li Schlee talvez porque alguém recomendou em palestra e, naquela época, nos intervalos dos cafés nos dirigíamos para as mesas arrumadas no saguão do Teatro Renascença e escolhíamos mais de um livro daqueles que haviam sido mencionados. Na minha vida, os anos 1980 foram os anos de maior aprendizagem, através dos cursos, palestras e painéis sobre a obra de um autor por vez.  Esses eventos eram frequentados por pessoas apaixonadas por leitura e valia a pena investir as manhãs inteiras de sábado escutando e fazendo anotações sobre diferentes temas.

A obra que tenho hoje em mãos me foi recomendada no dia que autografei a segunda edição da novela Quarentena, em 2011, na Palavraria, em Porto Alegre. O professor, doutor Luiz Herón Silva, falou-me com tanto prazer no livro de contos que, lidos em qualquer ordem, formavam um romance porque todos eles eram fragmentos (embora contos completos) da suposta história de como teria sido a vida de Carlos Gardel se tivesse nascido em Taquarembó (Uruguai), na concepção de doze vozes femininas (2).

O primeiro conto narra a história da filha de um fazendeiro que levanta todas as manhãs de madrugada para receber o leite das mãos do filho do tambeiro, que apenas diz “ola” ao se ajoelhar para derramá-lo na vasilha, sem que seus olhares se encontrem, e “buenas” quando tem às mãos o recipiente vazio e volta-se para ir embora.

Clara segue sua rotina com o filho do tambeiro desde a sua meninice até a idade em que seus pais lhe arranjam um casamento.

A narradora-protagonista, Clara, adota a segunda pessoa do singular, já outros contos são narrados de diferentes formas. Schlee cria em seus contos muitos narradores especialíssimos, que nos contam a história de forma que pensamos que ela não poderia ser contada de outra forma, vide o livro Relendo Vereda (3), uma amostra da geração de escritores que estavam se organizando com destaque nos anos 1960-70.


Minhas lembranças, minhas leituras, meus filmes

Penso que depois que passar o corona vírus e o atual governo, os adultos que deveriam estar no mercado de trabalho, estarão vivendo como aqueles personagens de livros do Somerset Maughan em O fio da navalha, entre outros (4), frutos do período pós- guerra (tanto a I quanto a II). Quem não for de família rica, talvez precise viver de biscate. Tenho pensado muito nisso e estava assistindo aquela cena famosa do filme Picnic (5) baseado na peça teatral homônima de William Inge, na qual William Holden dança com Kim Novak. O personagem era um homem bonito, educado, dançava lindamente e andava por aí fazendo pequenos serviços para sobreviver. Aqui no Brasil surgiu  O feijão e o sonho, de Orígenes Lessa (6), no qual a personagem casa com um poeta e tem de lutar muito pela sobrevivência da família. São ideias soltas para escrever/um ensaio. Não defendo que as moças devam procurar “bons partidos”, como se dizia antigamente, mas a mulher, em geral, não trabalhava fora  e se apaixonava por um rapaz que aparecia do nada e arrebatava seu desejo. Mais tarde, Manuel Puig resgatou a temática em Boquitas pintadas de rojo carmesi (7). Vou aproveitar esse tempo de reclusão para  escrever sobre minhas lembranças, minhas leituras, os filmes que me encantaram e encantam até hoje..


Entretenimento

Ando numa fase de produzir entretenimento. Tenho um livro infantojuvenil com ilustrações de Renato Canini (e aí está seu maior valor) que vai ter lindas figuras para colorir, tanto para a criança quanto para sua vovó, já que temos uma série intitulada Histórias da vovó, publicada pela Editora Bestiário.

Nos últimos anos, escrevi um livro de Historietas. Não são contos, são narrativas mais popularescas, tipo causos, só que com histórias urbanas; um outro de literatura infantojuvenil, que tem um cãozinho como narrador-protagonista, ilustrado pelo Francisco Juska Filho. O livro de poesia intitulado Pampeanas, acho que não quero que seja publicado. Sou muito insegura com relação aos meus poemas.

Eram quatro livros para serem publicados em 2020. Acredito que só tenha vontade de publicar um deles, o infantojuvenil. Vamos ter de nos dedicar muito às crianças e jovens quando terminar essa fase. Elas também viveram a “peste” e terão de ser estimuladas nas suas leituras, reflexões, para se situarem em um novo normal. Isso exigirá uma mudança radical de valores. Hora de fazer valer as nossas lembranças, leituras e filmes. Afinal, ser idosa não significa apenas grupo de risco para a Covid 19, significa também ter sabedoria, paciência e empenho em ser útil para nós mesmas e para os outros.

Vera Ione Molina é graduada em Letras (Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas) e pós-graduada em Teoria da Literatura (ambos na PUC-RS). Nos anos 90, ministrou oficinas literárias na Casa de Cultura Mário Quintana e no Centro Municipal de Cultura em Porto Alegre. Foi jurada do Prêmio Açorianos de Literatura, do Prêmio Histórias do Trabalho em 2003 e integrou a Academia do Prêmio Fato Literário, promovida pela RBS. Atualmente realiza trabalhos de revisão e leituras críticas em prosa de ficção. Publicou ensaios e artigos em diversos jornais e revistas do estado, com ênfase para Uruguaiana, sua terra natal. Além de fazer parte de inúmeras antologias, entre elas “O Livro das Mulheres, org. Charles Kiefer, Mercado Aberto, 1997), Concurso Binacional Moviarte 90 (Biblioteca Pública de Pelotas e Grupo Eslobon Cantando La Paz, Canelones, Uruguai), organizou várias coletâneas de prosa e poesia. Vera Ione Molina publicou, entre outros gêneros , os romances “Quarentena”(IEL/Alves Editora, 1994 e PROA, 2011. Em 2017, a novela Quarentena ganhou terceira edição e novo título: “Notícias da guerra e o destino de Laura”, pela Editora Bestiário, “O Outro Lado da Ponte”, (Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1997) e “Gemido da Morte sob a Sola dos Sapatos” (Editora Bestiário, 2016). E também os livros de contos “Outros Caminhos” (Mercado Aberto, 1996) e “O quarto amarelo” (Editora Bestiário, 2015) “Outra e Mais Outra e Mais Outras Vezes”, contos eróticos ilustrados por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário, 2016) e “Quanto Soam as Horas”, Contos Fantásticos (Editora Bestiário, 2016). Ainda teve o livro infantojuvenil “Eram duas vezes – Histórias da vovó”, ilustração Yuji Schmidt e “Catarina abre um caminho de magia – Histórias da Vovó”, ilustração Francisco Juska Filho, ambos pela Editora Bestiário, 2016 e 2017 respectivamente.

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