CRÔNICA DOS MIL REINOS: ARAUCÁRIA – CHRISTIAN DAVID

Todos acharam que podiam confiar no Diretor, realmente acreditaram nisso. Ele garantiu que daria tudo certo, que, na hora da necessidade, o prédio protegeria os seus. É bem provável que ele não se elegesse nunca mais depois desse acontecimento. A família de Osvaldo era, devido à simpatia e carisma de Mariana, a esposa grávida, bem querida na pequena comunidade e todos sofreriam com ela se o parto tivesse ainda mais complicações. Foi uma péssima ideia emprestar o obstetra justamente nesse momento. O que deveria ser simplesmente uma visita de cortesia para acompanhar o parto da esposa do soberano do prédio a seis quarteirões do Araucária acabou se tornando um grande problema. Uma guerra entre dois prédios menores que não mantinham relações amigáveis com o Araucária bloqueava o caminho para o retorno do médico, e era provável que fosse esse o problema, mas ninguém sabia com certeza. Dessa forma, Mariana, que já tinha agendado o difícil parto com o Doutor, viu-se sem ninguém para fazer o procedimento. O Doutor já havia sinalizado que algo estava errado: o bebê estava em uma posição difícil e só ele tinha competência para aquela situação. Seus assistentes, que haviam ficado no Araucária, pareciam mais apavorados que a família.

Com tudo isso, Osvaldo estava em um estado lastimável. Sempre quisera pertencer ao Araucária. Além de ser o primeiro prédio a conquistar independência há quase duzentos anos, diziam ter excesso de mulheres em idade de casamento, e esse era um dos sonhos do homem, construir família e deixar descendência. Quando abriram uma vaga para técnico em elevadores, ele logo pediu permissão para emigrar do seu antigo prédio e naturalizou-se Araucariano. O prédio novo não era tudo que ele pensava, mas, ainda assim, encontrou uma esposa, viúva do primeiro marido, que aceitou casar-se com um homem já entrando na meia-idade. Os três, havia um enteado também, acabaram se entendendo bem.

O menino, agora com dezesseis anos de idade, havia perdido o pai há duas guerras atrás, quando beirava os seis anos, tendo sido criado pela mãe somente, o que o tornou bem independente. Apesar de o Araucária ser considerado um prédio-nação bastante rico, não era fácil viver sem que os dois pais fossem úteis à comunidade, ainda mais sendo considerado um menino estranho, sempre rodeado daqueles livros antigos pré-fracionamento. Para que a nação pudesse sobreviver adequadamente e manter a soberania, era necessário que os três mil habitantes desenvolvessem ocupações produtivas. Rafael acabara tendo que tomar o lugar do pai falecido na comunidade, mas há dois anos, quando a mãe casou de novo, ele pôde voltar aos estudos e aos livros. Adorava todas aquelas histórias sobre castelos e missões de caça a dragões e resgate de princesas. Mais de uma vez, se viu alvo de chacota por gostar de fábulas, contos de fada e histórias cheias de magia e fantasia.

O Araucária, inicialmente, com seus trinta e cinco andares de altura, sem contar os cinco subterrâneos, era um prédio comercial, e foi graças ao laboratório que ocupava três andares que a nova era dos prédios-nação começou. Quando surgiu a nova epidemia, no início do século vinte e um, somente o Laboratório de Pesquisas Oliveira Zatti desenvolveu uma vacina que tinha alguma eficácia. Quando um terço da população mundial pereceu devido à epidemia, o laboratório passou a ser o centro das atenções do planeta. Pressionado para entregar os dados para que outros laboratórios pelo mundo pudessem também produzir a vacina, o Biomédico Irineu Zatti exigiu a independência total de seu laboratório, queria que o prédio todo fosse declarado uma espécie de Vaticano da Ciência, uma expressão que correu o mundo na época. Zatti, após conseguir o que queria e liberar os dados da pesquisa, comprou o prédio inteiro e fundou uma nação independente. Muitos empresários pelo mundo todo – que dominavam outros elos da cadeia de sobrevivência, principalmente na área de produção de alimentos, transporte, remédios e eletrônicos – requisitaram também a independência. Com as forças armadas abaladas e a humanidade fragilizada como estava, ninguém conseguiu impedir o que ficou conhecida com a Era do Fracionamento. Cinco mil outras nações surgiram. Aos poucos, os países foram enfraquecendo e quem não pertencia aos prédios emancipados acabou vivendo em total anarquia. Finalmente, a maioria das nações tradicionais se extinguiram e o planeta virou uma série de pequenos reinos, dinastias, repúblicas e empresas independentes das mais variados formas. Alguns homens e mulheres, com o uso da força, acabaram dominando prédios e regiões menores e o mundo tomou uma nova conformação. Antes que a vacina fizesse efeito, em torno de dois terços da população foi afetada. A maioria morreu em agonia, e, fora dos prédios emancipados ou conquistados, sobraram farrapos humanos vivendo como podiam.

Portanto, viver em um prédio como o Araucária era uma benção, mas se a mãe morresse devido às dificuldades no parto, não confiava em Osvaldo para apadrinhá-lo, talvez fosse expulso e tivesse que viver nas ruas. Antes de ocupar uma posição fixa e receber um certificado de alguma Ordem profissional, os moradores eram considerados um estorvo. Ainda mais um rapaz estranho como ele, que preferia ler repetidamente aqueles livros empoeirados e que, portanto, não era tido como alguém de grande futuro. E Osvaldo, apesar de bem quisto, mais pela esposa que tinha, era fraco e não faria nada para resolver a situação. Teria que ser Rafael a enfrentar a rua dessa vez para que nunca mais tivesse que fazê-lo. Perder a mãe não era uma opção para aquela família. As fábulas cheias de animais falantes e os contos de fada com dragões, cavalos e cavaleiros, princesas que precisavam ser salvas e missões impossíveis precisariam esperar.

Colocou o melhor calçado que tinha. Era um par de botas no qual uma das solas tinha um furo do tamanho de uma moeda. Osvaldo mal se dignou a falar com ele, apenas ficava ao lado da esposa tentando aliviar suas dores. Sem o médico, não tinham certeza nem qual remédio poderiam ministrar sem risco. Rafael conseguiu um mapa bastante usado, mas muito útil, e se informou sobre exatamente onde era o tal prédio no qual se encontrava o médico, considerando que ele tivesse chegado lá, em primeiro lugar. Sabiam que se tratava de um reinado, mas não se tinha mais informações: se tratava-se de um déspota cruel ou algum outro tipo de monarca, considerando-se que houvesse algum outro tipo. Tinha, a seu favor, a estatura ainda não totalmente desenvolvida, o corpo ágil e pernas velozes. Ele sabia que talvez precisasse lutar, mas tinha certeza que correr e se esgueirar era o que contaria pontos lá fora. Como desvantagem, tinha a inexperiência em viver e se locomover fora do prédio e a total falta de ideias sobre como resolver o problema.

O diretor havia dado a ele um tapinha no ombro e uma carta de apresentação, mas todos temiam que, além da guerra que bloqueava o caminho, o médico houvesse ficado retido permanentemente pelo até então reino amigo, que não tinha um médico fixo e cobiçava o de Araucária há um bom tempo, fato que deixaram bem claro nas poucas vezes em que entraram em contato presencial, já que diziam não possuir nenhum equipamento de comunicação.

Quando ouviu a porta bater atrás de si, o coração de Rafael quase saltou pela boca. Uma espécie de névoa densa e mal cheirosa varria em ondas as ruas até onde o olhar alcançava. O menino ficou por ali uns dois minutos sem se mexer, aguardando o ritmo cardíaco normalizar-se. Tinha sido um tanto egoísta até agora, pensando só em si mesmo e não no sofrimento da mãe, mas ao se ver fora do prédio percebeu o quanto ela era importante em sua vida e o quanto queria que ela fosse feliz com o novo bebê. Desceu vagarosamente os degraus que compunham parte da fachada do Araucária e tirou o mapa do bolso. Precisava tomar a direita e percorrer os seis quarteirões que seriam o trajeto natural do médico. Caso não o encontrasse, deveria apresentar-se no Reino de Timbaúva e torcer para que o médico estivesse lá e em segurança. Fora isso que os cinco guerreiros que vieram escoltar o médico até o Timbaúva disseram que aconteceria, que a travessia era totalmente segura. Na carta de apresentação que Rafael levava, o Diretor Juliano explicava a situação e pedia o retorno imediato do Doutor Marcelo. Tudo poderia ser resolvido em poucas horas ou Rafael poderia se tornar somente mais um morador dos prédios que nunca voltaria para casa depois de um passeio do lado de fora.

Não era exatamente o medo de morrer ou do que vinha depois da morte, mas sim do sofrimento que as armas utilizadas nessas pequenas guerras particulares entre os prédios poderiam trazer. Conquistar um outro prédio sem destruição de patrimônio era meio que um acordo implícito entre os opositores, então as armas tinham o requinte de matar os indivíduos das mais variadas formas, mas sem destruição ou contaminação duradoura dos ambientes. Com esse novo arsenal, um indivíduo podia ser imobilizado instantaneamente e ser assado de dentro pra fora, ter a sua pele arrancada, ter o corpo derretido, afogar-se com o próprio vômito, ser desmembrado e deixado como comida para os animais que agora infestavam a cidade, entre outras coisas. Todas essas formas de matar eram possíveis, em diversas combinações de sadismo e, geralmente, de forma bem lenta. Ou seja, viver nas ruas ou em permanente guerra era a última coisa que Rafael tinha vontade de fazer. Precisava encontrar o médico e salvar sua mãe, e a si próprio.

Se as seis quadras até Timbaúva fossem tão fáceis quanto a primeira, Rafael não teria com o que se preocupar, mas é claro que a história foi outra. Ao colocar o pé na segunda quadra, o garoto sentiu um cheiro diferente, meio metálico, meio doce. Ele já tinha ouvido falar disso através dos viajantes que visitavam Araucária, mas não imaginava que teria a oportunidade de sentir o tal cheiro. Durante o desenrolar da epidemia, descobriu-se que até os animais estavam sendo afetados, mas que neles a doença causava terríveis mutações em vez de morte. Entrar em qualquer beco nunca mais foi uma experiência tranquila, gatos e cães vadios eram agora terríveis predadores de quase dois metros de altura, mas, segundo os viajantes, cães e gatos não eram os piores. O cheiro metálico doce que agora Rafael reconhecia pertencia a um outro animal acostumado à vida urbana.

Coberto de pelo lustroso de um preto profundo, dentes que pareciam não caber na boca e asas coriáceas de quase cinco metros de envergadura, o animal que se assemelhava a um morcego pousou repentinamente na frente de Rafael. Uma baba verde e fumegante pingava do canto da sua bocarra. O animal respirava pesadamente e por sorte o menino conseguiu perceber que se preparava para expelir algo. Desviou-se a tempo de evitar um jato da gosma verde e fedorenta que derreteu boa parte de um carro velho. Rafael só pensava em correr e se esconder como fazia quando a mãe lia para ele as histórias de dragões nos contos de fada. Por mais de uma vez, a mãe encontrou-o dormindo debaixo da cama no meio da noite. Mas ali não havia cama para escondê-lo. Rafael correu até um beco estreito e escuro, mas o animal perseguiu-o com seu passo desajeitado. Apesar do tamanho das asas, o bicho encontrou um meio de apertar-se e entrar no beco. Rafael andou de costas para o fundo escuro que lhe pareceu bem menos amedrontador do que um morcego que cuspia ácido.

Quando somente em torno dez metros o separavam do morcego, o garoto ouviu um ruído estranho. Parecia um ronco de motor envenenado que soava repetidamente com um tom grave. Mal Rafael teve tempo de virar o rosto para descobrir a origem do som, sentiu algo imenso pulando sobre si. Uma garra arranhou dolorosamente seu ombro, mas não se deteve. Em um novo ataque, rumou para o morcego, que já assumia uma posição de defesa. A origem do som de motor envenenado, da garra mortífera e da cautela repentina do morcego era um imenso gato que Rafael avaliou em três metros de comprimento. Parecia mesmo um leão, porém maior e mais esguio e sem a juba característica. Talvez um gato de rua que tivesse crescido demais ficasse exatamente com aquela aparência, e, logo Rafael percebeu, devia mesmo ser a mutação de um gato de rua o imenso animal que ele contemplava.

Os dois gigantes mutantes em combate bloquearam a saída do beco, mas, mesmo com o corte no ombro e um medo que nunca havia sentido, o garoto buscava um meio de se afastar daquela briga. Em um momento no qual os animais caíram engalfinhados trocando poderosas mordidas, Rafael conseguiu uma brecha e fugiu correndo daquele lugar. Ouviu um urro estridente quando virou-se a tempo de ver o morcego sendo decapitado pelo gato gigante, mas o felino não teve sorte e ficou preso por debaixo da carcaça pesada. Rafael deteve-se um momento e retornou. Com o uso de uma viga de metal tentou, mesmo sem saber exatamente o porquê, libertar o gato se valendo da viga como alavanca. Apesar da dor, do cansaço e da aparente falta de sabedoria do ato, com algum esforço e várias tentativas, o felino se viu liberto. Diante da libertação do animal, o menino saiu em disparada e só parou para respirar quando havia percorrido outras duas quadras. Com o sangue já parando de escorrer da ferida do ombro e com fôlego renovado, Rafael percebeu que só faltavam outras três quadras e até agora nada do Doutor Marcelo, pelo menos podia ter a esperança que ele estivesse são e salvo no seu destino.

Mais uma quadra foi percorrida sem que nada digno de nota acontecesse, mas logo à frente o garoto percebeu que havia uma troca de tiros, pequenas bombas e armas químicas entre dois prédios em lados opostos da rua. O possível problema que haviam antecipado. Pessoas corriam de um lado para o outro tentando chegar à base adversária sem serem vistas ou atingidas. Rafael considerou contornar a quadra, mas isso aumentaria seu trajeto e o faria percorrer um caminho ainda mais perigoso. Vários minutos se passaram e o garoto não via alternativa a não ser se meter no meio do tiroteio e esperar que um milagre o ajudasse a passar incólume entre as balas e explosões. Repentinamente, após uma explosão mais luminosa, os soldados, ou o que quer fossem aquelas pessoas em guerra, voltaram o mais rápido possível para as suas bases. Simplesmente desistiram de continuar a batalha. Era bom demais para ser verdade, Rafael considerou que o seu “milagre” havia ocorrido, afinal de contas. Tratou de correr o mais rápido que pôde ao cruzar a quadra antes obstruída.

Logo no início, sentiu uma sensação de queimação na sola do pé, mas prosseguiu sem dar importância. Após mais alguns passos, percebeu onde havia se metido e o porquê do repentino desaparecimento dos exércitos opositores. Já tinha ouvido falar daquela situação, mas não havia relacionado com a sua experiência presente. Era comum para esses pequenos exércitos utilizarem armas dessa natureza, e havia uma especialmente terrível e dolorosa. Era uma pequena bomba que espalhava um gel de aparência inocente mas que tinha propriedades paralisantes e corrosivas, o infeliz que pisasse na parte do chão coberta pelo gel começava a derreter a partir da sola do sapato, e quando o gel atingia a carne o sujeito, paralisado após alguns segundos de contato, ficava impotente assistindo o seu próprio derretimento, sentindo uma dor excruciante. O furo na sola do sapato de Rafael propiciou-lhe um pequeno contato com o gel, o que fez com que percebesse a arma antes do que geralmente se percebe, que é quando já se está no meio da zona inundada de gel e os poucos segundos antes da paralisia já não são suficientes nem para prosseguir, nem para retornar. Eram poucos os que se salvavam dessa armadilha. Rafael viu-se então em uma encruzilhada, podia arriscar outro milagre e correr como o vento ou retroceder e desistir, o que significava a morte da mãe e talvez mesmo a sua. Em uma fração de segundo, o menino decidiu correr o risco. A uns dez passos do final da zona de conflito, sentiu as pernas travarem e o corpo enrijecer. Mal teve tempo de olhar para trás e verificar o quanto havia progredido inutilmente. Paralisou-se nessa posição esquisita. Quando sentiu que a sola dos sapatos já estavam na última fase de derretimento e a pele dos pés começava a arder intensamente, avistou algo se aproximando em alta velocidade pelo caminho que havia percorrido, não ainda na parte afetada pelo gel, mas nas quadras anteriores. As ondas de névoa atrapalhavam a visão, mas Rafael conseguiu ver que alguma coisa grande deu um salto em sua direção antes de entrar na zona do gel. Parecia que o gato supercrescido tinha gostado do gosto ou do cheiro do menino e queria terminar a refeição. O garoto pensou que, diante das circunstâncias, uma morte rápida na mão de um animal selvagem era melhor do que derreter no asfalto, e fechou os olhos, isso se o bicho também não ficasse preso. Sentiu uma forte batida no peito e a sensação de ser arremessado. Caiu, ainda paralisado e atordoado, no chão seco.

O baque havia lhe tirado o ar dos pulmões. Abriu um olho de cada vez. O gato gigante se aproximava dele vagarosamente. Sentiu o hálito do animal bem perto. Quando se preparava para a primeira mordida e morte certa, sentiu uma áspera língua lamber seu ferimento. Depois, meio desajeitadamente, mas com gentileza, o bichano jogou-o nas costas e ficou parado. Ainda recuperando os movimentos, Rafael, apesar de não entender bem o que acontecia, agarrou-se como pôde ao pelo da criatura e executou a única ideia que lhe veio à mente: apontou com uma mão amolecida em direção às duas quadras restantes. O animal começou a andar lentamente, mas à medida que percebeu que Rafael se encontrava bem acomodado, aumentou a velocidade e logo se encontravam em frente ao Timbaúva. Assim que saltou do cavalo improvisado, já recuperado, teve a certeza que estava seguro e que as fábulas que lia desde criança não eram tão fantasiosas ou impossíveis quanto imaginava. O gato, após uma troca de olhares mais significativa que qualquer palavra que pudesse ser dita, desapareceu em segundos.

Dois guardas com capacetes e pesadas espadas na cintura olharam aquela cena bizarra e aguardaram de boca aberta enquanto o rapaz se aproximava.

– Eu sou da casa de Araucária e vim buscar o Doutor Marcelo. Gostaria de ser anunciado, se vocês não se importarem – aquilo saiu meio que sem planejamento, nunca havia ensaiado dizer uma frase daquelas, quase que saída de um livro de fantasia. Tentou manter uma certa dignidade, apesar dos pés descalços que o faziam parecer ainda mais estranho.

Os dois guardas ficaram alguns segundos parados e então indicaram que entrasse. Um deles guiou-o através de alguns corredores até uma sala que parecia ficar no setor hospitalar, lá encontrou o Doutor Marcelo com os dois braços enfaixados e um Rei muito exaltado. Pareciam discutir ao som de gemidos vindos de um lugar mais distante. Assim que viu Rafael, o Doutor ficou visivelmente aliviado, mas o Rei continuava com o rosto transtornado, então seu olhar pousou no rapaz.

Antes que se dissesse qualquer coisa, o Doutor Marcelo foi logo anunciando.

– Eu imaginei que isso pudesse acontecer. Sua Majestade, conheça meu pupilo mais promissor, o Senhor Rafael Quintus, a solução para os nossos problemas.

Rafael sentiu como se estivesse engolindo um cacto. Pareceu ter apagado por alguns segundos, mesmo em pé. Só voltou a encarar a realidade quando o Doutor Marcelo pediu alguns minutos de privacidade com o garoto para dar instruções em relação ao parto.

– Ficou louco, Doutor! Eu não tenho a mínima ideia de como fazer um parto! E nem a vontade de saber como! Além do mais, tô com um corte dolorido no ombro e moído de cansaço!

– Ainda assim, está bem melhor que eu, Rafael. Eu sim, não tenho condições de realizar um parto. Nos deparamos com um bando de saqueadores quando vínhamos para cá e quebrei os dois braços enquanto tentava me proteger da briga. Só cheguei vivo porque estava acompanhado dos guardas do Rei, que agora não me deixa ir embora se eu não der um jeito de ajudar a esposa dele. Se algo der errado acho que nem eu, e agora nem você, conseguiremos sair com vida desse prédio. Você vai ter que colaborar comigo.

Rafael já havia feito tanta coisa que julgava impossível naquela última hora que resolveu ouvir o Doutor.

– Não vou negar que é um parto difícil, mas não é uma situação rara, eu mesmo já fiz meia dúzia de partos semelhantes e li bastante a respeito do assunto. Na verdade, a Rainha se encontra na mesma situação da sua mãe, como já falei, não será fácil, mas é só uma questão de colocar o bebê na posição certa e deixar a natureza seguir seu curso. Tenho confiança que, se você seguir minhas instruções, podemos fazer funcionar.

– E por que alguém daqui mesmo já não te ajudou a fazer o parto? Deve ter gente mais qualificada que eu nesse prédio.

– Até tem, mas alguém daqui é louco de correr o risco? Preferem deixar a rainha e o bebê morrerem a se arriscarem que algo dê errado. Provavelmente pagariam com a vida. E como o Rei não sabe quem realmente teria a qualificação, não tem como obrigar alguém sem arriscar a vida da esposa.

Diante da imobilidade do menino, o bom Doutor teve que enfatizar a questão.

– Decida logo, rapaz. Dois partos com a mesma complicação a seis quarteirões de distância e no mesmo dia. Não pode ser só coincidência. A vida quer te ensinar alguma coisa e quando ela quer fazer isso só se tem uma opção: aprender. E ainda temos que salvar sua mãe, não é verdade? Eu já deveria ter voltado e começado a preparação para resolver o caso dela.

Um homem em desespero é dado a cometer loucuras, um rapaz como Rafael, então, nem saberia que era uma loucura o que estivesse cometendo. Quando viu já estava sendo preparado para o parto. Fez todo aquele ritual de esfregar as mãos com sabão e colocar aqueles aventais esquisitos. Felizmente, os anos de leitura na biblioteca do Araucária haviam lhe fornecido conhecimentos gerais sobre tudo, ele podia não ser um médico, mas sabia como parecer um. O Rei, acompanhado de sua filha mais velha, uma menina com idade próxima a de Rafael, veio desejar boa sorte e dar um recado, “se tudo der certo, tenho uma proposta maravilhosa pra você meu rapaz, um emprego de ouro!”.

Foram, talvez, os momentos mais constrangedores que um rapaz de dezesseis anos havia passado até então. Rafael tentou aparentar conhecimento e naturalidade, duas coisas que ele, absolutamente, não possuía naquela situação, mas tudo deu certo. O Doutor Marcelo orientou-o muito bem durante todo o procedimento e o bebê, um menino, nasceu gritando alto e forte. O Rei não cabia em si de contentamento.

Tanto Rafael quanto o Doutor, assim que o parto foi concluído, rapidamente se aprontaram para voltar sem demora para o Araucária. Felizmente, agora bem mais calmo ao receber o herdeiro de seu reino, o Rei providenciou uma forte escolta para a jornada de volta, e botas novas. Aos olhos de todos que os encaravam ao passar pelos corredores, eles pareciam heróis lendários. Especialmente, para a Princesa, dona dos profundos olhos negros, Rafael sentiu-se como um cavaleiro igual ao dos livros que tanto lia.

Já na porta do prédio-castelo, o Rei colocou a mão no ombro de Rafael e disse em tom solene:

– Deixe-me falar sobre aquela proposta. Sendo você o pupilo mais promissor do bom doutor, saiba que quando acabar seus estudos terá um belo emprego a sua espera em meu reino, tenho certeza que o Doutor o liberaria, não? – levantou uma de suas espessas sobrancelhas ao olhar para Marcelo, que assentiu com a cabeça. – E, além disso, algo melhor do que um emprego pode ser arranjado para você, meu rapaz. Você provou seu valor ao chegar aqui são e salvo e desempenhar tão bem sua missão. É possível que tenhamos aqui uma Princesa interessada em algo mais do que um médico – a menina, que se encontrava presente, ficou vermelha e saiu indignada pisando firme, bem se notava que aquelas últimas palavras não eram ideias dela.

Rafael engoliu em seco e agradeceu, sem saber muito o que dizer.

Talvez a poderosa guarda nem tivesse sido necessária, pois a volta foi de uma tranquilidade absurda, ou talvez justamente devido à guarda reforçada isso tenha acontecido.

Ao chegarem no Araucária, um prédio com muito mais recursos e pessoal, Rafael precisou participar somente como consultor do parto do próprio irmão, e tudo correu muito bem de novo.

Aos poucos, através do relato do Doutor Marcelo e do próprio Rafael, a história se tornou conhecida e o menino, agora já considerado um homem, já que ninguém que voltava a salvo para o prédio poderia continuar sendo considerado um menino, se viu no centro das atenções por vários meses.

Havia enfrentado bestas terríveis, salvado um gato gigante, conquistado uma montaria, entrado no meio de uma guerra, sobrevivido a uma terrível arma química, salvado uma rainha e um príncipe, conhecido uma princesa e, o mais importante de tudo, salvado a própria mãe.

Nunca mais alguém falaria mal de seus hábitos de leitura.

Christian David é graduado em Biologia e pós-graduado em Literatura Brasileira pela UFRGS. Participante e organizador de diversos movimentos que procuram valorizar a literatura como a Confraria Reinações e a Odisseia de Literatura Fantástica. Já recebeu diversos prêmios como o Prêmio Saraiva 100 anos, Prêmio AGES, Prêmio Off-flip, Prêmio Sintrajufe-RS pelo conjunto da obra, inclusão no Catálogo de Bolonha, Acervo Básico da FNLIJ e Selo Altamente Recomendável da FNLIJ. Nascido e criado em Porto Alegre, vive cercado de livros e filmes de ficção científica e fantasia com os quais têm uma antiga e duradoura relação. Utiliza-se de cenários cotidianos ou fantásticos para contar suas histórias e discutir suas inquietações, e não planeja parar tão cedo. Tem participado de mesas-redondas abordando a literatura infantojuvenil e de encontros com alunos em diversas escolas

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