DA JANELA, O TERRAÇO – LETÍCIA MÖLLER

Amanhece.

Se fossem tempos normais, muito cedo eu já estaria vestida, dando café aos meninos, apressando-os, olhos no relógio. Já estaria apresentável para abrir a vidraça e dar bom dia a Dona B., que no seu terraço alimenta os pássaros. Seriam seis e meia da manhã. Uma cumplicidade no bom dia por sabermos que cada uma amanhece cuidando dos seus.

Não sendo tempos normais, não há pressa. Chego à sala uma hora mais tarde, de camisola, olhos pequenos e cabelo bagunçado. Silenciosa, espreito. Não abro a vidraça para não acusar minha presença. Oculta pela cortina de voal, posso observar sem ser vista.

Lá fora, os pássaros catam as migalhas de pão. Sopra uma brisa. Não a sinto, mas vejo os cabelos brancos de Dona B. em dança delicada. Está trabalhando, as mãos ocupadas em moldar a argila. Seu rosto é sereno, sorriso discreto desenhado nos lábios.

Enquanto os dias amanhecem estranhos, o corpo mole sobre a cama e a mente que ainda volta do seu passeio noturno sendo despertados de soco pela lembrança súbita da circunstância em que estamos enfiados, lá está ela, Dona B., em seu brando amanhecer, igual a todos os dias.

Ela não imagina, mas me acalma e conforta vê-la no terraço, o lenço no cabelo, a vitalidade de menina, atribulada entre vasos, tintas e azulejos. E embora consciente do tanto que há de irracional, me apego à ideia de que sua mera presença assegura que tudo estará bem. Enquanto Dona B. estiver alimentando os pássaros, cuidando das plantas, esticando a roupa no varal, moldando a argila e compondo seus mosaicos coloridos, a vida continua e há esperança.

Então me vestirei, cuidarei eu também dos meus, e abrirei a vidraça para o nosso bom dia, aspirando fundo essa aragem de paz.


O VENTO

Vendaval em Porto Alegre. O assobio furioso corre pelas frestas, rompendo o silêncio. Janelas batem, portas oscilam, o varal com panos brancos quase decola.

Vejo Bibiana Terra em sua cadeira de balanço na noite da estância. O vento enlouquecedor de Almodóvar em Volver. A praia da infância, nordestão fustigando a pele e a corrida atrás do guarda-sol colorido que voou em ridículas acrobacias. O vento invadindo nosso apartamento italiano de janelas escancaradas, arregimentando o pó dos cantos para formar bizarra bola de sujeira rodopiante.

Na suspensão do tempo que rege os dias, hesito entre o sono e a vigília e rumino lembranças reais e inventadas, acompanhada dos meus fantasmas e personagens, numa mistura de ficção e vida.

Letícia Möller (Porto Alegre, 1979) é escritora e advogada. Publicou livros para a infância e ensaios sobre bioética e direitos humanos. É Mestre em Direito pela Unisinos e Doutora em Sistemas Jurídicos e Político-Sociais Comparados pela Università del Salento, em Lecce, Itália. Foi bolsista do Programa de Bolsas de Alto Nível da União Europeia para a América Latina – ALBAN. Dentre seus livros, destaca “Os peixes, o vovô e o tempo” (Libretos Ed.).

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