DE ‘A ESCRITA DO CHÃO’, DE RONALDO LUCENA

A ESCRITA DO CHÃO

Minha mão se perdeu na mão grossa de meu avô. Vi nos olhos dele mais urgências que qualquer ou­tra coisa. Deixei meus carrinhos no pátio, minhas cidades e ruas desenhadas com pedriscos, meus amigos imaginá­rios na sombra do jacarandá. Com passos duplos, tentando acompanhar as botas enlameadas, fomos até a horta. Por entre os desenhos dos canteiros, nos fundos da casa, com­pletei a sujeira de meus dedos na terra úmida abrindo uma pequena cova. Ele colocou dois grãos dourados na palma da minha mão. Eu os escondi no côncavo do chão, com olhos de perguntas. Um pouco de água por cima, todos os dias, e a promessa de um milagre. Tempo de esperas.

Esperas surgiam nos dedos de minha mãe. Mãos que preparavam bordados e afagavam o ventre que crescia. Cer­zia as roupas, disfarçando os remendos. Tinha olhos de bri­lhos e a voz doce quando ninava as cantigas. Contava luas na expectativa de alegrias novas que invadiriam nossa casa. Olhares que miravam no tempo uma morada cheia de gen­tes. Sementes que meu pai havia plantado nela.

Não havia silêncios nos nossos dias. Rodeava-nos um quintal de terra boa com hortaliças, frutas, temperos e chás. Das mãos de meu avô, paciente contador de histórias, aprendi o plantio. Descobri que sementes jogadas em solo fértil, com mãos de afagos, quase sempre germinam.

Numa manhã de movimentos na casa, encontrei os de­dos nervosos de meu avô em mãos que não se aquietavam.

Nos fundos da lavoura, sentado na pedra, os olhos por si irrigavam o plantio. Não vi urgência nas retinas, nem a cla­ridade longe de quem vem colhendo as fábulas. Não tinham os calores das águas que ferviam no fogão da cozinha, nem a brancura dos panos limpos que circulavam pelo quarto.

Os sapatos de meu pai marcavam o chão em círculos imperfeitos. Parecia que contavam os passos em sincronia. Um corpo de ânsias que se comprimia a cada contração. Nas dores da alma ansiosa por um choro, por um sinal de novas existências.

A manhã de sol morno terminou em chuvas no almo­ço de pratos e talheres intocados. Os sabores da comida se perderam diante de olhos desfocados. Nem uma palavra no tempo que se arrastou e abafou as dores mais agudas.

Fui levado pela mão doída de meu pai ao sementerio. Num pequeno caixote branco, a promessa de milagre de meu irmãozinho foi semeada no côncavo da terra. Voltei para casa com minha mão suja, nas mãos silenciosas de meu avô. Os pés, mais pesados, não rezavam as ave-marias no cascalho. Os tempos de esperas brotaram em nuvens negras e em sóis desbotados. Sobraram dúvidas sobre os milagres.

Nasceram silêncios em minha mãe.

Os olhos de meu pai não encontravam respostas.

Passei a vigiar o milharal farto de meu avô. Na lavoura de meu irmãozinho, nada cresceu. Só flores de plástico.

O tempo me fez medir as distâncias da casa até a es­cola. O peso dos livros não me impedia de esticar o olhar comparando as plantações. Aprendi a juntar as letras e os sons. Os silêncios de minhas esperas foram se desmontando na ponta do grafite. Plantei palavras na minha cartilha que desmoronaram, diante dos meus olhos, as esperanças dos milagres. Muito dolorosa a compreensão de minhas suspei­tas: as sementes que fazem a vida renascer, sair do chão, não estão nas letras do cemitério. As grafias são desiguais.


O SEGUNDO DIA

Quando Boaventura decidiu morrer, calou-se no pri­meiro dia.

No seguinte, bateu com a faca no vidro do copo que, prontamente, foi preenchido pelo vinho azedo. Separou os alimentos no prato e tentou guardar na memória os sabores preparados pela mulher. Não distribuiu olhares, abstendo­-se das palavras. Desobrigou-se do corpo cansado dos tra­balhos duros e pouco recompensados. A cabeça calva, no contraste de uma barba rala, não acompanhou os movi­mentos pesados da mulher à sua volta. Há muito vivia no mundo dos gestos. Há pouco, mergulhado num universo de vazios.

Quando Mina resolveu deixar o marido morrer, calou­-se no primeiro dia.

No seguinte, bateu com paciência nos veios da carne. Usou da destreza do martelo para que os bifes fossem macios e dessem descanso aos dentes postiços do marido. Banhou nas gemas e claras remexidas, secando na farinha, antes da fritura. Esmagou com firmeza a mistura para a pasta. Cortou a massa em filetes da melhor espessura. Fatiou os tomates, as cebolas e os temperos antes de se misturarem na caçaro­la de molhos. Cobriu a mesa com flores bordadas na toalha e preencheu a taça de vinho após o esperado toque do aço no cristal. Mesmo velha, carregava os excessos do corpo pela cozinha, domínios de seus domínios. Os cabelos, presos no branco dos anos, somente os soltava no quarto, deixando os dedos do velho ainda os alisarem, nas esperanças de amores em declínio. Procuravam, tateando, as já decoradas aventu­ras. Ambos desalinhados, em noites sem dormir, nas últimas ereções perdidas. O silêncio da casa não os preenchia.

Quando o velho decidiu morrer, lembrou-se de muitas noites.

Lembrou-se dos finais de tarde em que preparava o ani­mal, agasalhava o corpo, emborcava uma bebida forte, mon­tava e desaparecia. Não dizia nada, nem dava respostas aos olhos da mulher. Deixava a porta aberta, esfriando a casa, para que o vissem cruzando os limites da porteira. Muitas tardes de suor do trabalho deixou nas mesas do carteado. A ninguém contou das noites maldormidas em camas de rou­pas suadas, risos e gemidos nas ereções sucessivas. Músicas e algazarra preencheram os silêncios.

Quando a velha resolveu deixar o marido morrer, lem­brou muitas noites.

Lembrou-se de madrugadas em que cuidava de filhos que nasciam antes do tempo e morriam sem qualquer tem­po. Finais de semana em que sozinha paria, banhava e aque­cia à beira do fogão de lenhas a pequena criatura. O frio não cortava sua dor, atravessando as poucas roupas, quando os enterrava sem cruzes. Ferviam então, no corpo, as febres vespertinas, os ódios da cama fria nas alvoradas. Teceu to­alhas e colchas de esperas. Fazia não perceber, na volta do marido, o esquecimento de suas prenhidões. A ausência de choros na casa não preenchia os silêncios.

Quando o traste resolveu morrer, chorou diante dos filhos.

Reconheceu em cada um os pecados cometidos, as he­ranças desastradas das ausências, os castigos desmerecidos na pele. Não viu neles as lições de justiça, que foram escas­sas. Não temeu o fio da navalha arrancando tocos de sua barba; percebeu mãos de perdão. Com esforço enfiou os pés nas botas, vestiu o casaco, o chapéu e se escondeu no mato. Não restou sequer esperança de olhos menos imploradores. Ficou a casa cheia de perguntas.

Quando a trouxa resolveu deixar o marido morrer, não chorou mais diante dos filhos.

Tirou o lenço da cabeça, não permitindo que lhe que­brassem os silêncios de seus gestos. Calçou as chinelas de solado ralo e caminhou com dificuldade, carregando suas medidas por entre as sombras da mata. Não se lembrou de doerem as juntas. Deixou a casa com mais ausências.

Quando os dois se reencontraram, resolveram abando­nar-se, comungando as mesmas decisões. Ela deu liberdade aos cabelos que clarearam os olhos do marido. Não lhe se­cou as lágrimas. Não deixou que ele a visse diferente de sua imagem desfocada habitual. Estendeu a mão e o ergueu de seus martírios.

Preparou um banho com águas cheirosas e aquecidas. Banhou o corpo enrugado. Tateou cada músculo, cada re­côndito; acariciou as mais preciosas e desesperançadas car­nes. Desenhou o peito arfante e os olhos fechados. Umede­ceu os lábios com os olhos. Cortou as unhas e aparou os es­cassos pelos desalinhados. Usou a mais felpuda toalha, para não arranhar a pele. Cheirou o hálito, sondou os pulmões. Preparou a leve canja para a noite quente que se desenhava. Os mesmos preparos serviram seu corpo. A casa, depois de aquecida, viu os filhos partirem leves.

A sopa trouxe calores aos corpos da noite. Sentados lado a lado, sorveram as amarguras que construíram por anos. Em cada um dos silêncios, a certeza de perdões nunca ditos, jamais consentidos, nem cogitados. Descobriram que a morte habitou a vida por muitos e muitos anos. A separa­ção viveu indiferente por muitas datas. Tiveram a certeza de que qualquer partida não seria para lamentos.

Amanheceram lado a lado, desconhecidos, quietos, des­cobrindo-se vivos num mar de perguntas, já com respostas. O abandono de cada um refletido no espelho do outro, a não separação de suas sombras, o mesmo gosto amargo dos remédios. Tão diferentes e tão distantes, dependentes e inseparados de suas dores. Tanta marca rasgada em cada história.


FEITO PEDRA

Quando Olinto abriu os olhos, percebeu que as coisas es­tavam como sempre. Ainda não tinha aparecido a cla­ridade do dia. Ouviu o resmungo do gado que já se agitava, meia dúzia de vacas enfileiradas nos limites da casa esperan­do pela ordenha. Os galos e a passarada já cantavam. Dese­jou, como de outras vezes, que tudo aquilo não fosse verdade. O ar abafado e gasto da noite se comprimia entre as paredes do quarto. Nem os primeiros sinais de brisa da manhã espan­tavam os calores de um fevereiro de poucas chuvas.

Olinto ergueu-se da cama com todas as limitações de suas décadas. Reencontrou-se com os chinelos deixados ao lado. Olhou novamente o rosto distante de sua Merinda – a mulher que já não cuidava de sua comida, de suas roupas, de seus de­sejos, vivendo afundada em outros mundos. Ambos encontra­dos numa velhice de poucas cores, insistente em dias.

Saiu do quarto sem abrir as janelas, como de costume.

Olinto Barro era homem de campo. Abandonado nos fundões da propriedade onde cuidava a mulher de saúde pouca. Por companheiro somente o chimarrão nas manhãs que se mostravam cinzentas. Conversavam em silêncio. Poucas perguntas para escassas respostas da erva lavada. O velho perdera os calores da vida e já não lembrava as solici­tudes que o corpo sempre exige. Merinda, a mulher, depois de anos colhendo as chuvas e os estios, criando os filhos, servindo o marido, agora só tinha vida para o leito e seus murmúrios desconexos.

Rodeava-os um campo cheio de macegas, um gado ma­gro, uma lavoura pouca. Uma porção de galinhas de penas ralas e quase sem cores persistia. Do riacho sobravam pei­xes, pois Olinto não pescava e não permitia que outros o fizessem. Perdizes empesteavam o campo e ele também não caçava, nem permitia que abatessem os animais. Mantinha os quartos da casa vazios com portas trancadas. A carreta apodrecia na sombra do abacateiro, junto ao galpão atro­lhado de passados. Na horta, mantinha alguma coisa para consumo próprio. Não temia os barulhos da noite. A velha espingarda não se lembrava do último estampido, talvez bem antes de Olinto herdá-la do avô.

Quando abriu a porta da casa, naquela manhã, para es­pantar os cães magros, encontrou a cara de espera do vizi­nho: logo vi que a cachorrada não uivava só pra lua. Até pare­ce que não me conhecem, vizinho Olinto. Eles bem sabem o que farejam. Desta vez só te trouxe o que sei que precisas. Do que preciso eu mesmo sei. Como vai Dona Merinda? Mais firme do que nós. A minha Eula quer visitar a comadre!

Depois que a mulher adoeceu, o velho perdeu o brilho das palavras. Não procurou mais a força do gado, o viço da lavoura, a correnteza das águas do rio. Não importavam as mudanças do tempo. Tornou-se estranho aos olhos dos vizinhos, às vezes acusado de louco e lunático. Ensimesma­do, começou a comprar ossos. Correu pela redondeza que o velho Olinto pagava por ossos bem descarnados e limpos. Mesmo remoendo qualquer curiosidade, os vizinhos acor­riam sempre que encontravam alguma ossada no campo. Quando do abate de reses, raspavam bem os músculos, ten­dões e nervos. Não se importavam com o destino dos ossos, acreditando em mais uma das tantas esquisitices do velho. Trocavam por alguns dinheiros. Olinto negociava pela qua­lidade. Pagava após medir o peso.

Nem sempre justo é o preço que se paga, respondia a qualquer tipo de barganha. Justiça não vem do resto do pra­to dos outros.

Muitas manhãs se via o velho, nas terras ácidas, mace­rando os ossos. Eram esfarelados no pilão com o baque se­nil da haste, remoídos nas febres e forças exíguas dos braços atrofiados. Semelhante aos grãos de milho ou trigo, os ossos viravam farinha, misturados a gotas de suor.

Olinto acrescentava essa farinha nas comidas que pre­parava para sua Merinda. Fazia sopas e mingaus que servia, colher por colher, na paciência amorosa de um condenado. Alimentava a velha nas suas impossibilidades. Cuidava do corpo com os banhos necessários. Merinda repetia palavras estranhas e grunhidos de animais. Os sons muito pareciam imitar os animais que tinham os ossos esfarelados. Eram mugidos na maioria das vezes. Outras imitava porcos e ga­linhas. Chegou a roncar como os bugios da beira do açude. O marido redobrou os cuidados na compra de ossos quan­do Merinda começou a falar em outras línguas, chamando pelo nome de pessoas. Tudo isso quando surgiram rumores de que o cemitério da vila começou a ser saqueado.

Raramente aparecia alguém. Quando chegavam, Olinto dava um jeito de azedar suas intenções e amainar as curio­sidades. A solidão pertencia ao casal, e ele só recebia alguém se fosse a negócio. Os filhos não mandavam mais notícias. Quando apareciam, o velho escondia-se das correrias dos netos, dos sermões e falatórios da família. Ficava no galpão triturando ossos. Ruminava até que os filhos encontrassem as desculpas decoradas e partissem.

O velho manteve os poucos cuidados que suas terras exigiam. Pouco pasto para escassos animais. Deixou o mato recuperar o perdido nas queimadas e no desbaste dos tra­tores. Tinha o leite necessário, algumas verduras e frutas. Buscava na cidade, todo início de mês, o pouco dinheiro de sua pensão. Na venda da cooperativa comprava alguns mantimentos e remédios.

Quando o corpo de Merinda de todo enrijeceu, Olinto não sentiu mais as dores pelo corpo, não careceu mais tritu­rar ossos. Lavou a nudez e o silêncio da mulher. Com muito esforço carregou o corpo para o galpão. Juntou-o aos restos e tralhas do passado. Levou dias e noites velando. Os únicos cheiros eram do próprio corpo. Quebrou os relógios, liber­tou os animais, apagou as luzes. Definhou em dias. Havia esquecido quantas costelas tinha. Agora podia contá-las, se assim quisesse.

Quando as labaredas se ergueram alto, iluminando o resto de noite no campo, Olinto baixou os olhos e sentiu pesarem os braços. O galpão ardia, estourando telhas, ex­plodindo vidros, derretendo quinquilharias. Alarmou os animais no pasto, mas o avançar das horas não despertou a curiosidade de ninguém. O velho, então, ignorou os limites do campo. Saiu a passos desobedecendo as estradas, trocan­do a fumaça dos olhos por um ar mais limpo, não sentindo o peso dos próprios ossos.

A manhã amanheceu com chuva. Nos escombros do galpão, coberto de fuligem, ficou Merinda, feito pedra.

Ronaldo Lucena nasceu em Caxias do Sul. Formado em medicina, pós-graduado em Letras, MBA em desenvolvimento de gestores, mestre em Engenharia, mas prefere ser apenas mais um peregrino dos Caminhos de Compostela.

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