DE ‘À ESPERA DE UM IGUAL’, DE THOMAZ ALBORNOZ NEVES

A prática da poesia como celebração e mistério
do prefácio de À espera de um igual
Por Rafael Courtoisie
Montevideo, setembro de 2019

“A resposta é a tristeza da pergunta”, afirmava Fernando Pessoa.

Pois bem, a poesia de Thomaz Albornoz Neves está feita de uma alegria imensa onde cada texto é a um só tempo o descobrimento do mundo e uma interrogação contínua sobre o mundo.

Se recorremos à riquíssima tradição poética em português, e em particular à poesia brasileira do século XX, encontramos a referência fundamental do Concretismo, a reflexão dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos que retomaram e ressignificaram intelectuais como Octávio Paz e Umberto Eco, a vertente realista e hiper-realista de um Ferreira Gullar e, em outro extremo, o coloquialismo comunicativo de Carlos Drummond de Andrade, as microficções poéticas com elementos narrativos de Manuel Bandeira, ou a firme e exata delicadeza de Cecília Meirelles, para citar apenas alguns nomes entre dezenas de valiosos poetas.

Dessa tradição vem Thomaz, mas também do profundo conhecimento e convivência com a poesia latino-americana fundamental em espanhol: Vallejo, Neruda, Blanca Varela, Sabines. Assim sendo, esta soma poética de extensão considerável se explica pelo salto qualitativo entre essas tradições brasileira e latino-americana em espanhol e um projeto lúcido, comunicativo, que vem se edificando

ao longo de décadas através do emprego de diversas ferramentas expressivas e o exercício prazeroso e preciso da tradução que permitiu essa desenvoltura e essa luminosidade expressiva características de Albornoz, uma construção sintática de ritmo próprio, uma riqueza lexical singular na América Latina.

Há já algumas décadas, o poeta nicaraguense Ernesto Cardenal ensaiou uma classificação da poesia latino-americana em dois grupos: o interiorismo, que se refere e expressa elementos radicalmente subjetivos, traduz realidades emocionais interiores e é, em suma, produto de uma espécie de introspecção às vezes reflexiva e metafísica, às vezes estética e afetiva; o outro é o exteriorismo, parte da realidade social imediata e se refere a acontecimentos externos, desenvolve-se em uma direção principalmente denotativa e em ocasiões está ligada a uma circunstância social concreta.

Este livro reúne a poesia escrita por Thomaz entre 1985 e 2018, quer dizer, trinta e três anos de poesia, três décadas de busca e decantação, de descobertas que permitiram novas e mais fecundas buscas, em um processo progressivo e coerente, onde cada nova época conduz a formas mais sutis e precisas de interrogar o mundo através da linguagem, formas que vão assentando uma alegria poética com um pé em cada século, que permitem que o leitor assista esse trânsito entre o século XX atribulado e amoroso e um século XXI de mudanças vertiginosas mas também de certezas.

A poesia de Thomaz Albornoz pertence, no curso dos anos, ao interiorismo e ao exteriorismo. O poeta combina com maestria o uso da função conotativa da linguagem e logra dar conta de uma profunda percepção da natureza íntima dos objetos, das ações humanas, e de si mesmo, desse eu lírico intransferível e reconhecível. Por outro lado, o mundo poético de Albornoz está notoriamente vinculado à realidade que todos vemos e apalpamos, emprega a função denotativa da linguagem para que o referente seja sempre percebido concreto e claro, reconhecível, mas transformado pelo ato da criação.

É a alegria da pergunta, da exploração do mundo interior e exterior, o que sustenta este notável projeto poético ao longo de décadas: Thomaz foi crescendo no alcance do seu dizer, mas também na intensidade com que seu estar no mundo é testemunhado inicialmente por uma poesia de cunho amoroso mas que já desde um princípio esboça um mais além erótico, a possibilidade da relação sujeito-objeto através do olhar. Um exemplo nítido se encontra no poema Eu não sou outro pertencente ao livro Renée de 1985:

Eu não sou outro
senão este
que nasce agora dos teus olhos
E agora não é somente
uma fenda no tempo
uma fonte na imobilidade
Amor que inunda a noite para ser a noite

Esse Amor que inunda a noite para ser a noite propõe um exercício introspectivo de construção de identidade no vínculo, transforma a possível expressão erótica em uma mística do olhar.

Aproximadamente dez anos depois, no livro Sol sem imagem (1996) o dizer de Albornoz concentrou-se ainda mais em certos textos que pela sua brevidade, seu ritmo e seu som parecem peças de delicada ourivesaria que mencionam elementos exteriores através de imagens que servem de fundamento para a construção do poema.

Em A onda

Emerge no mar a onda
Suspenso tempo no ar
Faz ondas no ar a onda
Imerso tempo no mar

Aqui o objeto exterior da onda é concreto e objetivo, absolutamente reconhecível, mas, ao mesmo tempo, também passa a ser motivo e modo de interpelação à realidade e à sua percepção, passa a ser elemento da metáfora.

No livro Exílio (2008) a poesia de Albornoz suspende o tempo e por momentos propõe transformar o espaço. Desde o título é colocada a temática da perda de raízes e a identidade. É exterior e interior a um só tempo, ao ser percepção da realidade é também expressão da transformação interior.

No breve poema Pampa sem fim existe uma mutação e anulação da distância lograda em apenas duas linhas:

Me torno distância contemplada
e já não há distância

Alguns anos depois, no livro Versos para poemas não escritos (2015) Albornoz Neves leva a cabo um processo de desconstrução, uma montagem de versos breves, quase aforismos, que permite apreciar a fenomenologia da sua criação e seu avanço rumo a uma expressão extremamente medida e compacta, de uma intensidade formidável: cada linha é uma unidade de sentido, como prescrevia o grande poeta chileno Vicente Huidobro, cada verso traz coerência e impulso ao conjunto como um poema único composto de células poéticas breves e autossuficientes.

Como exemplo de concisão filosófica:

Teu silêncio conta a favor das palavras

Como exemplo de reflexão sobre a criação e o criador:

Para o poema todo poeta é póstumo
para a poesia recém-nascido

Como aproximação ao poeta como “vidente” no sentido de Rimbaud:

A malha que tece a poesia
tece a premonição

Como relação dialética e estética da criação e o criador:

A poesia volta ao poeta com a beleza do poema

Logo dessa micrologia de intensidade formidável, Albornoz Neves se expande, faz o poema de fôlego profundo e a cadência envolvente de versos livres dispostos com peculiar sentido de ritmo em No capuz do olhar (2018). Ali oferece longos poemas pródigos em intertextualidade e referências biográficas literárias, construindo um sistema poético rico em vocabulário e conhecimento erudito de uma grande soltura e frescor no dizer e, ao mesmo tempo, dotado de uma profunda coreografia vital.

À espera de um igual é o testemunho de uma vida poética exigente em sua evolução e solvente em sua estrutura e em cada recurso expressivo da sua escritura. Esta soma de mais de três décadas de constante trabalho mostra que Thomaz Albornoz Neves é um dos autores mais importantes do Brasil contemporâneo. A sua proposta, sólida e comunicativa, é a de um poeta pleno que explora e interroga o mistério em uma cerimônia exuberante de luz e palavra.

(de Renée – 1985)

O escuro no quarto é infinito
e o tempo a sua ausência mais pura
Tudo se une, o abraço ao sonho
o sonho ao espaço em torno
Tu somes em mim, de ti ressurjo
e me tornas novo, o mesmo sempre
cada vez mais igual a nós
O centro de um dentro do outro

Não é tanto a dor do adeus
mas a dor de quando o linho te devolve
Tão leve que um sopro desfaria
E em saber que não vês a fuga da luz que irradiaste em mim
Ou como cada dia sobrevive à morte
por ter sido a morte um dia o único fim de nós dois
Assim, mesmo sabendo que as lembranças apagam quem foste
ainda te vejo contra o céu escada acima, a bata de aura puída
e recordo em tuas olheiras um afogamento
sentindo a ausência no ar que respiro
De regresso, a cada tarde, vou de encontro à tua volta
ou à uma carta na caixa do portão
ou à mala vermelha ainda fechada na varanda
E talvez, como antes, fosses ao Forte por peixe e vinho
Mas entre as dunas o mar picado ao sol caindo
o sempre não foi sempre, nem o jamais jamais
Mais viva que a vida é a memória da pele
A casa na areia, tão branca
O infinito do amor que é o mesmo infinito da solidão

PAMPA (de Sol sem imagem)

As folhas a um fio dos galhos
O peso do pássaro voando
na sombra do pássaro voando
No silêncio
o pedaço de silêncio
em tempo algum quebrado
No ar
o pouco de ar jamais respirado

O TOURO CEGO (de Sol sem imagem)

Pela aguada, o touro cego
costeia a cerca de pedra
De onde a cerca desmorona
o vale é estelar, sem céu
A curva do arroio repele
o véu do orvalho caindo
E um frescor de água doce
coleia os ésses do ar
O pasto se afasta em onda
Em espirais os ciprestes

O ABUTRE (de Sol sem imagem)

Tanto tempo a girar
os mesmos anéis de fome
a terra some no céu

A ver-se vagar de cima
e ao redor do próprio voo
as asas que o ar apaga

O voo sem corpo, só voo
parado no meio do nada
que redemoinha em torno

O ampara ainda esse tato
que vaza os véus do espaço
sem ter o que tocar

4 (de No capuz do olhar)
Rio de Janeiro, 1982

Peculiar leitor de poesia
Só se interessa por alguns poemas de uns poucos poetas
E mesmo o poema escolhido rara vez permanece inteiro
apagado pelo clarão daquele verso único que o captura

Tendo conhecido a força dessa experiência lendo
está determinado a repeti-la também escrevendo
Persegue a centelha, o rapto repentino
da vida pela linguagem

Não nutre interesse algum nos poetas
Ler o que se escreve sobre eles e sobre as suas obras
lhe parece uma espécie de sacrilégio
Para que dissecar a estrutura de um poema
contextualizá-lo na vida do autor e na galeria da língua
embutir-lhe um ismo, se o que vale já está ali, nele mesmo?

Sim, é sabido
Há toda uma indústria em torno do verso
guiando a voz depois que foi ouvida
que também é conhecimento
Mas para ele há mais no que ignora de Safo do que sabe sobre Rimbaud
Ou Vinícius

A Literatura, ou seja, a soma das suas leituras essenciais
resiste a ser um todo definido e definitivo
Pensar num contexto poético brasileiro
restringir o poema à sua língua
lhe parece o mesmo que reduzir o homem à sua espécie
Se termina por aprender idiomas
não o faz através de um curso sistemático
(como a lógica, a gramática o tortura)
mas através da poesia e com um dicionário
Dito em outras palavras
Se aprende uma língua é para ler poemas
Traduz para tomar posse
É um processo de revelações
Muitas vezes, no primeiro entendimento
dúbio e nebuloso
a impressão é de ter se aproximado tanto
da origem do verso na mente do autor
quanto daquele silêncio onde as palavras se formam

Aprender um idioma através do poema
remete ao silêncio onde nascem as palavras
que é o mesmo da poesia

Ainda inédito no circuito literário, Thomaz Albornoz Neves viajava pelo Brasil, América do Sul e Portugal lendo seus poemas. No Rio de Janeiro, termina o curso de Direito sem exercer a profissão e o mestrado em Letras sem ingressar na carreira acadêmica.

Abandona estudos de cinema em Roma. Escreve seis livros de poesia enquanto vive entre Londres, Florença, Sicília, Montevidéu, Paso de los Toros e Sant’Ana do Livramento.

Autor dos desenhos a nanquim de 33 esboços. Fotógrafo de 9 paisagens, memorial do mais antigo campo de golfe em atividade do Brasil, e de Fora de foco, fotos privadas, um álbum de afetos.

Seus dois volumes de poemas traduzidos reúnem a leitura de poetas como Montale, Seferiades, Schehadé ou Brodsky, uma seleção de poesia chinesa e japonesa clássicas, a versão do Tao Te King, do Shin Jin Mei e do Hokyo Man Zai.

Jogador profissional durante duas temporadas, publicou em Golfe o seu diário de treinamento. Idealizador de uma escola para crianças golfistas de bairros populares promovida pelo Clube Campestre de Livramento e da casa editorial TAN, para livros com baixa tiragem fora do mercado convencional.

Vive do campo na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai onde nasceu.

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