DE ‘CARINGI – AGORA ESTOU ALI EM BRONZE’, DE LÍLIA SENTINGER MANFROI

“Herta, são vinte e cinco horas, ­­ por que chegaste tão tarde? ” Esta pergunta ouvi retumbar em minha cabeça, a vida toda.

Quando consegui sair de Berlim, muito depois de ti, Rafael, eu mesma dizia: “Herta, são vinte e cinco horas! O que vais fazer no Brasil? ” 

Naquela época, querido, eu não suspeitava de viver até o final do século. O ano de 1997 não existia no meu calendário alemão.  Mas aqui estou, em Porto Alegre, na Galeria da Caixa Econômica Federal. Na exposição que tenta resgatar tua memória, Rafael Millano.

Não é uma retrospectiva, mas é a tua primeira exposição em Porto Alegre, uma coisa que esperei a vida toda. Era o que faltava para me deixar morrer.  Feliz.

Somos de outra época. Tudo é passado. Quintana dizia, “eles passarão, eu passarinho. ” Mas o mundo pensa o futuro sentado no passado. Todos carregamos uma história. E as tuas esculturas presentes em nossas praças falam de heróis que a época pedia.

O Laçador, que nos recebe próximo ao aeroporto, é a prova, símbolo da capital deste Rio Grande do Sul, que tão bem recebe imigrantes.

                                                                 XIV    

A madressilva está crivada de flores e o forte perfume, possivelmente, incomodaria aos olfatos mais sensíveis.

Gertrudes e Guilherme não sentem. Ela está acostumada, faz muitos anos que, junto com Theo, plantou a muda que hoje os acolhe num farto caramanchão nos fundos do quintal. Ele, ou melhor, o nariz dele, com o passar dos tempos, transformou-se. Não sente mais os aromas perfumados, nem de flores, nem de mulheres; apenas fica aguçado, ao cheirar intrigas ou traições políticas. Ricardo, o terceiro membro do grupo, tem os sentidos jovens, mas, atento para rebater as palavras dos dois, não percebe nada a sua volta, nem mesmo o cheiro das flores. Está ali apenas para fazer as apresentações, os velhos ainda não se conheciam. Mas a conversa envereda tão rápido contra Hitler, que ele permanece, vai se envolvendo e defende-o de tal maneira, que evidencia seu lado partidário.

— Hitler quer apenas o poder para o seu partido, — rebate Ricardo, sentando-se no banco ao lado do avô, — para pôr nos eixos a Alemanha. Ele não quer a dissolução da ordem política, das tradições nacionais, da Igreja e, muito menos, o domínio de uma única classe. —Acrescenta, enquanto desamarra e amarra o coturno.   — Depois, qualquer partido quer o poder, não é o que vocês querem? 

Gertrudes intervém sem contradizê-lo: 

— Tu sabes, pelo menos, de onde saiu este nacionalista, este demagogo do Partido dos Trabalhadores Alemães que transpira ditadura até pelos poros?

— Sim, ¾concorda o avô. ¾ Hitler é um macaco vaidoso que, não podendo ser reconhecido como pintor, achou um outro modo de ser reverenciado. Era um lagarto com a língua afiada à espera da oportunidade e, depois de viver até os vinte um anos com algumas coroas da pensão de órfão, saiu fugido de Viena para não prestar o serviço militar.

— Tudo bem, como é que vou discutir com dois militantes comunistas empedernidos? Mas para quem não queria fazer o serviço militar, não acham que ele foi muito longe? — Ironiza Ricardo, levantando-se para sair.

¾ Oh! Menino, tu nem sabes o que estás dizendo, senta-te aí, escuta! A política caiu do céu para ele, quando descobriu que sabia discursar. Até o fato de ter levado um tiro de raspão na guerra o ajudou a receber a graduação de cabo ¾ acrescenta Guilherme.

¾ É, mas vocês estão esquecendo que ele foi condecorado com a Cruz de Ferro! — Intervém Ricardo.

Indignada, Gertrudes levanta-se esgrimindo o indicador no nariz de Ricardo.

— Exato, e não se sabe até hoje a razão desta condecoração, todas as dos outros têm registro do motivo no boletim do regimento.  E por que seríamos melhores que os judeus? ¾ Comenta a professora com veemência, lembrando da partida do marido naquele fatídico agosto. Como os outros, carregava uma espingarda enfeitada   de flores e sorria, dizendo que o esperasse para a Hanukka1, em dezembro.

O avô não lhe dá tempo de responder.

¾ Tu sabes quem são os seus arregimentados, Ricardo? São ex-militares desarraigados e lojistas empobrecidos por causa da crise! Uns párias, uma gentinha de olho nos assaltos às grandes lojas dos judeus.

Ricardo comenta que se não fosse bom, o partido não teria tantos adeptos e que eles estavam esquecendo de outros tantos filhados que, além de serem aristocratas, tinham dinheiro: os industrialistas. Precisavam participar dos comícios e ver o povaréu bradando, Heil Hitler!

Depois ele apoia uma perna sobre o banco e fala com superioridade.

─ Se vocês lessem o “Völkischer Beobachter”, certamente estariam mais bem informados. ¾ Conclui, batendo com o indicador na têmpora, enquanto caminha em direção à casa.                                                  

Ainda ouve a professora rebatendo suas últimas palavras: “Oh, fedelho, então não sabes que este semanário é do Partido do Hitler há muitos anos?”

Irritado, finge não ouvir, para na porta da cozinha e chama Irma, mas ainda escuta Gertrudes perguntando sua idade, e grita-lhe com raiva, “vinte e dois”. “Está aí, Guilherme, ” ela comenta. “Como é fácil engambelar os jovens e fazer um partido crescer às custas deles. Teu neto era criança quando este jornal foi comprado pelos nazistas.”

Os dois velhos continuam confabulando sobre as proibições dos casamentos entre judeus e alemães, em particular, na anulação do dela.  Para quem os vê, passaria despercebido o fato de que se conheceram há pouco. Para Guilherme, viúvo há muitos anos, acostumado a conversar com desconhecidos, não é difícil seguir o tom da professora.  Contemporâneos da Berlim, dos oradores de esquinas, dos cantos de ódio que atingia judeus, capitalistas, comunistas, proprietários de imóveis, ricaços, o exército, fiscais públicos, políticos, industriais ricos, enfim, sabiam, a República era fraca e, deveria acabar explodindo.  No pós-guerra, a cidade era só barulho e boataria e, nas alegres casas noturnas, a falsa liberdade contagiava a todos, e a arte florescia. Todos falavam o que queriam e ouviam sobre conspirações, greves, estado de sítio e de golpes contra o poder constituído.

¾ Você lembra do assassinato de Herzberg, professora? ¾   Guilherme  observa-a mexendo com um galho fino num besouro que se remexe afoito no chão  e continua: ¾  Aquele delegado que assinou o acordo de paz, lembra dele?

¾ Sim, sim, ¾ responde a professora, enquanto o inseto, livre, voa e enterra-se num buraco da mesa de madeira carcomida.  ¾ Lembro, aquele assassinado por misteriosos compatriotas, ¾ diz a última palavra engrossando a voz. ¾ Sim, na cúpula não acontecia nada, Meissner exercia o cargo de presidente do Conselho de Estado, com toda a dignidade de um mestre-de-cerimônias da República, como seus antecessores, enquanto Rosa Luxemburgo era atirada morta no canal.

¾ Até entende-se porque Ricardo age assim…

¾ Não mesmo, este comportamento do teu neto só pode ser visto pelo ângulo da burrice, ¾ ela corta rispidamente.

¾ Não, ele não viveu os acontecimentos como nós, professora.

¾ Tudo bem, mas então que não se meta a falar com os mais velhos deste modo.

Gertrudes agacha-se e remexe nas plantas. Seu pensamento vai buscar consolo na juventude. Depois, levanta-se, puxando o corpete ajustado na cintura, e continua:

¾ Guilherme, você lembra das recepções na embaixada soviética? Todos de fraque, cartola, vestidos longos e brilhantes! E, na entrada, como se aglomeravam curiosos?

¾ Claro que lembro, eu era um dos que pedia um trocado ao abrir a porta do carro para o ilustre figurão. ¾ Ele fala rindo.

Quando ouve isto, Gertrudes dá uma gargalhada tão comprida, que a blusa sobe deixando aparecer a cintura envolta em anéis de gordura.

¾ Então tu eras um dos pedintes que nos cumprimentava: “Saúde o camará Trotssky”? ¾ Ela fala alegre.

¾ Na verdade, o que eu queria do “camará” era umas bombinhas soviéticas, ¾ ele responde cúmplice  ¾  e das damas, olhá-las por inteiro, desde as meias de seda, até o alfinete de brilhante com que prendiam os cabelos.

(…)

Lília M. Sentinger Manfroi, natural de Porto Alegre, é formada em pedagogia pela UFRGS e mestre em Avaliação. Na Escola Estadual 1º de Maio, de Porto Alegre, da qual foi aluna, desenvolveu diversas atividades pedagógicas e foi a primeira diretora eleita. Cursou a Oficina Literária 9, na PUCRS, com o escritor L. A. Assis Brasil,participou das antologias Contos de Oficina 9, 1992 e Contos no Solar, 1995 e lançou em 2005 o romance Caringi: Agora estou ali em Bronze, Ed, AGE,RS. Edita a página ALMANAQUE do Jornal Boletim Informativo de Bombinhas,Santa Catarina, Brasil. onde também escreve crônicas.

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