DE ‘DEUS NÃO PROTEGE OS CERTINHOS’ & OUTROS MINICONTOS IMPUROS’, DE JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA

Sem pureza, mas sob protesto
do prefácio de Deus não protege os certinhos
& outros minicontos impuros.
Por Laís Chaffe.

A depender de quem lê, o título deste livro pode ser interpretado como advertência ou ímã. Como propaganda enganosa, jamais. Hoje em dia, todos andam com 38, conclui um dos narradores de José Eduardo Degrazia, e o leitor percebe o mesmo nas histórias de Deus não protege os certinhos & outros minicontos impuros. Há munição de sobra, seja na agulha, seja escondida nas entrelinhas; há lâminas reais e metafóricas nas mãos de personagens e na precisão dos cortes autorais. Ao contrário de suas criaturas, o criador é honesto: dá o que promete.

Poeta, contista, novelista, Degrazia publica minicontos desde os anos 70, quando já acompanhava a produção ficcional minimalista latino-americana e colaborava com o Caderno de Sábado do Correio do Povo de Porto Alegre. Fábulas subvertidas, sem a ingenuidade da moral redentora das últimas linhas, desde então eram veículos para expor o lado menos civilizado do ser humano, opção recorrente em livros como O atleta recordista (1996), A orelha do bugre (1998) e Os leões selvagens de Tanganica (2002).

Com Deus não protege os certinhos, há uma virada formal, com reiteração de conteúdo: Degrazia opta pelo realismo para escancarar o lado primitivo do ser humano.  Em vez de animais representando a humanidade, temos pessoas cedendo aos instintos sem a mediação civilizatória, como feras disputando território, alimento, engalfinhando-se para garantir a reprodução de seus genes. Histórias que o autor ouviu ou leu na crônica policial servem de base para minicontos que escancaram as patologias de uma sociedade pronta para a fuga ou para a luta, nunca desarmada, em situações marcadas por vícios, traições, violência verbal e física. Há ladrões, assassinos, políticos corruptos – às vezes tudo junto. Estejam à frente do tráfico ou da indústria armamentista, todos parecem dizer que guerra é guerra.

A boa literatura é, se me permitem o paradoxo, má, observa a tradutora Ana Sofia Ferreira ao apresentar a versão em espanhol (2020) de A colecionadora de corujinhas, antologia de minicontos do autor lançada no Brasil em 2016. José Eduardo Degrazia, também médico oftalmologista, examina com agudeza clínica perversões que somente a impureza de contos como os deste livro poderia retratar. Como falar com brandura de torturadores ainda livres, vinte anos após suas atrocidades, ou da vingança frente à ausência de Justiça?

Quando a primeira vez é com Tânatos e não com Eros, a gente também nunca esquece. Principalmente se há habilidade narrativa e postura ética suficientes para demarcar os campos de batalha opostos de personagens (e mesmo narradores) e do autor. Ora com ironia, ora pela nem tão simples exposição de contradições, Degrazia aproxima-se da sordidez para observá-la a fundo e em seguida distanciar-se e denunciá-la. Bandido é bandido, polícia é polícia, diz um protagonista, e a narrativa demonstra o contrário, sem alarde. Deus não protege os certinhos. Degrazia constata, mas sob protesto.

SEIS FLASHES

I.

Natureza morta?
Morto está o pintor.

II.

Perdeu as duas pernas e os dois braços na guerra. Quando ia perder a cabeça, foi reformado.

III.

Primeiro caíram os seios, depois os dentes. Passou a pintar os cabelos de vermelho.

IV

Depois de quebrar os dentes, o vampiro passou a sugar o sangue de canudinho.

V

Pulou do décimo andar do edifício. Ao passar pelo quinto andar, lembrou-se que tinha deixado as luzes acesas.

VI

Era um jornal tão sensacionalista, que não se vendia em bancas, e sim, em postas, no açougue.

O SEQUESTRO

Atendeu o telefone e a voz do outro lado disse que tinham sequestrado a filha.

Morta num acidente de automóvel há dez anos!

Desligou o telefone, mas no fundo, no fundo, queria que o sequestro tivesse sido de verdade.

Ali, uma esperança.

AS UNHAS CONTINUAM A CRESCER

Aparou as unhas com cuidado quando o médico lhe deu a notícia que não iria durar muito. Morria de medo que elas crescessem sem controle no escuro do caixão.

DEUS NÃO PROTEGE OS CERTINHOS

Deus não protege os certinhos, o homem falou para o espelho na manhã depois do primeiro porre. Sempre fizera tudo certo, marido e pai extremoso, cidadão exemplar, pagando todos os impostos devidos, respeitador das leis de trânsito.

Continuou falando para a imagem no espelho: perdeste a mulher para aquele cafajeste, o teu negócio quebrou, foste multado por teres passado a 7 quilômetros a mais na frente do guarda e vais perder a carteira.

Na lápide vou gravar: DEUS NÃO PROTEGE OS CERTINHOS.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Publicou dezenas de artigos e crônicas em jornais e revistas do Brasil e do exterior. Tem publicados os livros de poemas, Lavra permanente, Cidade submersa, A porta do sol, Piano arcano, e A urna Guarani; seus livros de contos são: O atleta recordista, A orelha do bugre, A terra sem malesOs leões selvagens de Tanganica. Traduziu livros de Pablo Neruda, poetas latino-americanos e italianos. Os minicontos aqui reproduzidos pertencem ao livro Os leões selvagens de Tanganica, publicado pela Editora Movimento em 2002 e foram traduzidos por Daniela Damaris.

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