DE ‘HOJE NÃO VOU FALAR DE AMOR’, DE RUBEM PENZ

NÃO PERECÍVEL

A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim

Tom Jobim & Vinícius de Moraes

O amor é um sentimento perecível. Felizmente, o ódio também é. Pensando bem, o rancor, a amizade, o desprezo, a culpa e todos os demais sentimentos são efêmeros. Sejam eles dirigidos ao irmão, ao vizinho de porta, ao colega de trabalho… Quer dizer, com o tempo, tudo passa. A única exceção repousa na saudade.

Quem não percebe a fragilidade do amor e, assim, o trata sem cuidado, costuma surpreender-se quando ele estraga. De uma hora para outra, aquilo que lhe disparava o coração, ocupava os pensamentos e atiçava o ímpeto, transforma-se num estorvo. A mesma companhia para a qual os sorrisos pareciam insuficientes, passa a causar tédio, exigindo doses cada vez maiores de empenho ao relacionar-se. O que teria ocorrido? Simples: desleixo. E nenhum amor, por mais belo que tenha sido, resiste ao desleixo. Quem não conserva o seu amor, está fadado a procurar por um novo logo adiante.

O ódio, para sobreviver viçoso, também nos exige uma boa dose de empenho. Arrisco afirmar que odiar uma pessoa sai mais caro do que amá-la, obrigando, muitas vezes, a uma dedicação quase apaixonada. Um bom exemplo é daquele cronista provocativo e inteligente: o ódio que ele dispara nas pessoas que não comungam de suas opiniões precisa ser muito envolvente para, semana após semana, manter o masoquista leitor preso em sua coluna. No exato instante em que se deixa de persistir, o ódio declina e morre.

Parece ser de voz corrente que a amizade é um sentimento mais duradouro, podendo ser abandonado ao tempo sem muito risco de perder as propriedades originais. Isso não é uma verdade absoluta. Mesmo que não seja como o ódio, que morre, ou como o amor, que estraga, a amizade pode secar. O sintoma de uma amizade seca é simples: ao encontrarmos com aquele companheiro que um dia foi unha e carne conosco, a conversa não conseguirá desprender-se do passado. Parece que entramos num carro antigo, cheio de lembranças e que, no entanto, não tem energia para disparar o motor e nos levar adiante. Se novos e constantes encontros não carregarem a bateria das afinidades, pode estacionar a amizade no museu.

Aceitando a suposição de que todos os sentimentos, se nos descuidarmos, tendem a desaparecer ou perder suas propriedades, por que será que a saudade não se comporta da mesma forma? Eu, pelo menos, guardo porções consideráveis de saudade no coração. A cada amor perdido, bairro desfigurado, restaurante fechado; de cada familiar falecido, amigo distante, mestre influente; por cada sonho desfeito, projeto abandonado, esperança quebrada; em cada sabor, cheiro ou música que me leve para tempo e lugares inesquecíveis, porções de saudade me chegam intactas. É estranho que justamente este sentimento tão melancólico seja aquele não perecível. E, por mais que eu busque fugir da explicação, ela me assalta: no momento em que tudo se perde – o amor, a amizade, o ódio, o rancor, a culpa – o único alimento para a alma é a saudade. No fim, quanto mais dela juntarmos, tanto mais dela aqui deixaremos.


GPS E BATOM

Reparou que a voz a indicar os caminhos nos aparelhos de GPS é quase sempre feminina? Quer dizer, há uma mulher dizendo a quem está ao volante para onde deve seguir. Uma das razões para que seja assim passa pela suavidade – a tonalidade das mulheres é mais agradável. Outra, talvez mais importante, é que desde a infância costumamos ser dirigidos por mulheres. E, pensando bem, vozes masculinas no GPS podem gerar muitos problemas.

Por exemplo, uma moça independente, solteiríssima, cabeça feita, senhora de si desde os bancos universitários coloca uma voz de homem no GPS do carro. Ele, imediatamente, começa a ditar: vire ali, volte acolá, apanhe o caminho da esquerda. O primeiro trajeto é divertido, quase sexy. No terceiro dia, tolerável. Porém, não dou duas semanas para ela trocar por uma voz de mulher só para livrar-se daquele “homem insuportável que pensa que pode mandar nela só porque acha que conhece o caminho”.

Para quem considera o exemplo tendencioso, vamos dar um giro de cento e oitenta graus na motorista: ela agora é uma mulher casada e mãe em tempo integral. Quando o GPS masculino passa a distribuir suas ordens, algo no subconsciente começa a perturbar – já não basta o marido para regular sua vida, agora vem outro homem para mandar nela dentro do carro? Como é mais complicado dissolver o casal, dará um jeito de alterar a voz do GPS.

Mas, digamos que o fabricante do GPS identifique o aparente autoritarismo chauvinista embutido no tom mais grave como raiz do problema, e resolva dotar o sistema com um locutor educado, delicado e carinhoso. Algo que beire a afetação: “Meu anjo, quem sabe a gente pega o primeiro desvio à direita? Pode ser, lindinha?”. Desastre. Não faltaria feminista para considerar ironia, deboche ou machismo benevolente.

E voz masculina no GPS desagradaria rapazes? Lógico! Um homem, por sua natureza competitiva, desacataria os comandos de outro homem só para provar que conhece uma rota alternativa mais curta, menos movimentada, duas vezes mais rápida. Melhor: deixaria o GPS desligado sempre que soubesse mais ou menos onde fica o endereço. Isto é, absolutamente o tempo inteiro. Ou alguém já viu um homem em sã consciência assumir que está perdido?

Por fim, no caso de o GPS com voz masculina ditar ordens em um carro com um casal (homem ao volante), imagino briga na certa. Reação natural de macho alfa:

– Benhê, diminui a velocidade que ele disse para entrarmos na próxima avenida.

– Se acha que ele sabe mais, casa com ele, então…

Fique claro, então: voz de GPS precisa ser feminina. Com ela, as mulheres compreendem as indicações de rota como sendo “dicas” da amiga eletrônica. Para os homens, são “pedidos” de uma mulher digital muito simpática que, inclusive, parece estar dando mole (logo, não custa atender). Tudo na mesma lógica do casamento, a união entre uma pessoa que manda e um marido. Quer tirar a prova? Pergunte para quem está de batom.


A VOZ DA CONSCIÊNCIA

Há quem diga que todo texto literário traz dentro de si um subtexto[1]. É de se supor que a crônica, por extensão, também oculte uma segunda história nas suas entrelinhas[2]. Acidental ou propositalmente, o cronista oferece ao leitor um novo sentido, desde que ele tenha a oportunidade de uma fruição mais atenta e pormenorizada[3]. Não que isso seja uma regra, é claro[4].

Um dos maiores mistérios da criação é seu ânimo (do latim animus, razão, espírito, vida)[5]. Isto é, o que fez a obra nascer, seu sentido ou cerne. Todo cronista parte de um tema que lhe oferece tal ânimo[6]. Por esse raciocínio, o subtexto é algo urdido pelo escritor que, com talento, constrói duas narrativas: a visível e a oculta, uma em complemento da outra[7]. Enfim, terá atingido seu desígnio se, ao final, o leitor pensar “mas do que estamos falando, mesmo?”[8].

Porém, muitas vezes o escritor se vê surpreendido por um analista mais aprofundado e capaz de desvelar mensagens invisíveis ao próprio autor[9]. É esta, enfim, a inquietação que fez nascer a crônica: o ânimo, ele próprio, pode permanecer oculto do autor[10]? Nasceria um subtexto à revelia da razão[11]? Este é o momento de pedir ajuda aos universitários, sejam eles das Letras, sejam da Psicologia – talvez os mais cotados[12].[13]


[1]        Há quem diga, Rubem? Há quem diga!? Que subterfúgio mais covarde este de atirar uma opinião para cima, esperando que caia no colo de um incauto. Ou diz quem diz, ou muda este começo!

[2]        Está piorando, caro autor… Da maneira como colocas, pode-se depreender que não tens firmeza de propósito quanto ao fato de a crônica ser um “texto literário”. Um desserviço para a causa.

[3]        Argumentinho safado, este: mesmo sabendo que a crônica conta com um leitor mais fugidio, colocas como pressuposto de compreensão plena um raro vagar, absolvendo o escritor de prováveis culpas.

[4]        Ah, estás me escutando! Por isso criou essa “porta de incêndio”. Agora, quem sabe o texto melhore no segundo parágrafo.

[5]        Latim? Que lindo! Mas a pergunta que fica é: sabias mesmo, ou foi consultar no Google? Porque agora anda fácil ostentar um verniz de cultura. Ou estou mentindo?

[6]        Como assim “todo cronista”? Até parece que o Rubem Braga deixou contigo uma procuração para falar por ele. Ou o Antônio Maria, o Paulo Mendes Campos, o Verissimo. Fala por ti, meu rapaz!

[7]        Já pensou em se candidatar a vereador? Porque tu estás adotando o mesmo papinho deles: lança uma premissa e, partindo do pressuposto que ela colou, constrói uma “verdade”. Estou de olho!

[8]        Aproveito a oportunidade para perguntar: do que é que estás falando, mesmo? Já foram dois parágrafos e eu ainda estou sem saber onde essa historinha de subtexto vai levar.

[9]        Estás falando de mim? Confessa, vai! Notaste um comentarista aqui no pé da página, eu, um leitor acima da média, ainda que abaixo do texto. Segue assim, segue assim. A crônica pode ter salvação.

[10]     Eu sabia! Matei a charada! Estás falando de mim, o subtexto. Sou eu teu ânimo, tua razão, tua vida. Sou a parte mais importante da crônica e, nem por isso, costumo aparecer para ti. Muito menos impresso. Hoje, por algum motivo, estou aqui. O leitor me vê. Sabe de mim. Oi, tudo bem? Comigo, tudo ótimo…

[11]     Como assim? Estavas indo tão bem… Agora vens com essa de intromissão, de eu existir fora dos teus propósitos. Para com isso, Rubem. Somos um só, texto e subtexto. Somos parte indissociável de ti. Até mesmo quando me crias sem querer, nasci de um propósito. Não me deixes com esse complexo de filho não planejado, não desejado. Isso magoa, viu?

[12]     Doutora, é o seguinte: este texto está meio esquizofrênico. Como podes ver, eu e ele (o camarada ali acima) somos um só. Ele escreve vozes, sabe? Enquanto desenvolve o raciocínio oficial, desenvolve outro paralelo. E, o pior: não admite. Fica me negando, dizendo que sou “oculto”, que vou nascer apenas na compreensão do leitor. Logo eu, tão real e palpável. A senhora está me lendo doutora? Alou? Tem alguém aí? Rubem?

[13]     Obra livremente inspirada no conto Subtexto, de Sulivan Bressan

Rubem Penz (1964) é escritor, publicitário e músico. Cronista desde 2003, já teve colunas no Brasil e exterior, a mais recente no Metro Jornal. Atualmente publica na revista eletrônica RUBEM e em www.rubempenz.net. Possui cinco livros autorais e ministra oficinas literárias desde 2008, com destaque para a Santa Sede – crônicas de botequim, Prêmio Açorianos 2016 como Destaque Literário e 16 antologias publicadas, uma agraciada com o Livro do Ano AGES.

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