DE ‘RELATOS PÓSTUMOS DE UM SUICIDA’, DE CASSIONEI NICHES PETRY

Reprodução do primeiro capítulo
de Relatos póstumos de um suicida,
lançamento de Cassionei Niches Petry.

O ser humano é um dos seres mais repugnantes que habitam este planeta. Sim, sou um ser humano.

Me suicidei quando fiz 33 anos. É a idade do suicídio, segundo li em uma resenha que um professor de literatura escreveu em um jornal da minha cidade. Era sobre um livro de um argentino. A morte foi rápida e sem dor, no entanto necessária. Foi quando decidi levar para o inferno dantesco alguns alunos que fizeram da minha vida um inferno sartreano.

Iniciava as aulas sempre com algumas brincadeiras. Era uma forma de derrubar o muro entre professor e aluno, uma quase regra na pedagogia atual que propõe o fim de uma hierarquia e uma tentativa de atrair a atenção das crianças e nem tão crianças assim para as aulas. Sabia, porém, que, durante o ano, até na mesma semana, esse obstáculo entre nós se reergueria, mas eu ainda era um utópico, Rubem Alves e o professor Keating ainda me influenciavam. Ó, aproveitem o dia para fazer de suas vidas algo extraordinário! Abaixo a escola tradicional!

Brincadeiras, no entanto, podem ser mal interpretadas ou então ridicularizadas, principalmente quando vêm de um professor.
Foi o meu caso.

Os alunos falaram mal de mim nas redes sociais. Não citaram meu nome, mas tudo indicava que fosse eu o alvo das zombarias. Não dormi direito naquela noite, depois de ler o absurdo. Fui dar aula durante a manhã me sentindo indefeso. Se antes pensava estar agradando com minhas piadas bobas, acabei descobrindo que as risadas dos alunos eram direcionadas a me ridicularizar e não por acharem engraçado o que dizia.

Não, definitivamente eu não era engraçado.
Sim, eu achava que era.
Mas não, não era. Era ridículo sim.

Também fui ridicularizado quando escrevi para um grande jornal da capital um texto criticando os rumos que a educação vinha tomando. Toquei num nome sagrado para esses “inovadores”, que há décadas falam numa nova forma de ensinar, mas passam durante toda a carreira dando aula da mesma forma e com os mesmos conteúdos e colocam a culpa em todo o mundo por não conseguir fazer diferente. Olha o outro e aponta que ele está errado. Pois ousei falar contra o nome sagrado e fui ridicularizado mais uma vez, não diretamente, não com um artigo resposta no jornal argumentando por que estava errado. O ataque se deu nas salas dos professores, no ambiente virtual, nunca se referindo explicitamente a mim, mas àquele professor que se acha maior do que o grande mestre.

Fui ainda outra vez ridicularizado quando um aluno, também em uma rede social da internet, me chamou de retardado. Não disse meu nome, mas disse que era o professor de português. Escrevi também nas redes uma frase boba: ser chamado de retardado por um aluno do EJA é uma crítica ou um elogio? Outro aluno escreveu que não sabia se era a uma aula ou a um show de stand-up o que estava assistindo.

Me suicidei. O professor bonzinho ou bobo morreu. Mas fingiria ainda, fazia parte do plano. Que plano?

Me suicidei e decidi não morrer sozinho. Teria que levar outros comigo. Poderia começar por qualquer um que me ridicularizara esse tempo todo. Escolhi uma em especial porque, ao levá-la comigo, levaria junto, de certa forma, o seu pai, que, assim como ela, contribuiu para o meu suicídio e foi o que mais me ridicularizou quando escrevi sobre o nome sagrado.

O corpo da garota foi encontrado embaixo da ponte do pequeno rio de cor parda que corta a cidade. Não encontraram sinais de abuso sexual. Um tiro na cabeça levou a vida da pobrezinha, que destilava seu veneno nas redes sociais, não só para aquele professor, mas também para os outros, para os colegas. Manchou reputações, separou namorados, causou brigas entre amigos. Agora não mais faria isso.

Minha segunda vítima foi aquele que me chamou de retardado. Encontram-no numa rua deserta, os braços em forma de cruz. Um tiro na cabeça, bala da mesma arma do outro assassinato, como descobriram depois. A população da cidade estava apavorada. Ficaria difícil matar outros.

Ainda matei uma terceira, que disse nas redes sociais que o professor não “trocava o disco” nas aulas. Não sabia que os jovens ainda usavam essa expressão. O detalhe era que a merdinha já rodava há vários anos e por isso ouvia minhas piadas e minhas lições repetidas. Outro tiro na cabeça e dessa vez a pendurei numa árvore como se tivesse se enforcado e deixei um bilhete com uma frase do professor que citei antes e do mesmo texto que havia publicado no jornal. Ele se tornaria o suspeito?

Quanto ao que me chamou de comediante de stand-up, o sequestrei, o amarrei numa cadeira e o torturei com um show particular, antes do tiro definitivo.

Cassionei Niches Petry é Mestre em Letras e professor de Língua Espanhola e Literatura no Ensino Médio. Nasceu e mora em Santa Cruz do Sul – RS. Além de escrever crônicas e críticas literárias para jornais e sites diversos, é autor dos livros de contos “Arranhões e outras feridas” (2012) e“Cacos e outros pedaços” (2017) e dos romances “Os óculos de Paula” (2014) e “Relatos póstumos de um suicida” (2020). Mantém o blog “Uma biblioteca na cabeça (cassionei.blogspot.com).

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