DE ‘VOZES DA ANCESTRALIDADE’, DE NEUSA DEMARTINI

Ramirez, vestido como um charrua, usava botas de garrão de potro, chiripá e poncho, laçou-a ágil, como se deve laçar uma potranca selvagem, mas também com a brutalidade de quem não está acostumado a lidar com gente. Puxou o laço imobilizando-a, arrastou-a até o cavalo, agarrou-a pela cintura fazendo-a montar entre suas pernas e, excitado, passou a  mão áspera pelos seus peitinhos, ainda tão pouco apontados.

  –  Ala pucha!

Além do calor úmido das tenras bolinhas, deve ter percebido que estavam no ponto. Era como colher goiaba na beira da estrada, no ponto, nem verdes nem maduras. Sentiu a boca  se encher d’ água como também  o volume entre as pernas.

Acomodados os dois, enveredou pelas ruas de Santo Ângelo; contornou a face sul da praça passando pela frente da igreja e  da casa dos religiosos dando um grito de vitória, acompanhado de um tiro de garrucha, num sinal para o Padre Fermín. Feito isso, quase derrapando no barro, saiu com seu bando de tropeiros ladrões de gado, e Maria de la Concepción, montada de vez na garupa do cavalo de Ramirez, foi-se para sempre com aquele homem tão grandalhão e tão peludo, como jamais havia visto outro em sua vida.

 –  Jesuita hijo de puta! Vengo recoger lo que es mio!

 A risada debochada de Ramirez assustou ainda mais a índia. O bruto passando por ali, e vendo a novilha no pasto, tinha resolvido vingar-se do reitor por causa de uma antiga querela até então não cobrada.

A infeliz tentou virar a cabeça para ver as irmãs que ainda corriam na lavoura. Levou um safanão que lhe fez doer o braço por um bom tempo. Destroncado e calcificado torto, não se ajeitou nunca mais. O braço virou motivo de chacota dos homens do bando, e do próprio Ramirez. É que, quando a índia ia  servir comida ao Coronel e à indiada, tinha que se virar de lado, senão tudo caía fora dos canecos e dos pratos, dado o estado em que ficou.

 A vida desde então foi um correr sem fim atrás de gado, selvagem ou não, nos pastos espalhados por toda a região de domínio do animalesco barbudo, que ia desde Natividade, no planalto médio, às margens do Ivaí, afluente do Ibicuí, até o pampa do outro lado do rio Uruguay, onde o homem veio a falecer, com o título de Coronel dado pelos seus próprios homens, já que acompanhavam, de longe, o exército, somente com o objetivo de saquear.  Era um bando constituído de vinte indivíduos, todos unidos pelo gosto da vida fácil, sem fronteiras, e sem destino.

Ramirez morreu duas décadas depois daquele episódio, deixando filhos – todos machos, segundo ele mesmo – também espalhados pelos  lugares  onde passava. Seis foram de Maria de la Concepción, que nem pôde crescer e se desenvolver mais, de tanto que lhe sugaram o corpo e a saúde. Muitos, sem conta, de tantas outras índias meninas que o velho gostava de usar, sempre que não podia dispor daquele corpo miúdo posto por ele mesmo a sua disposição.  Não precisava estar longe de Maria de la Concepción para abusar das outras. Cada vez que a infeliz estava emprenhada e quase para parir, ia o gaudério pelos pastos em busca de  cabacinhos, como fanfarroneava para os companheiros do bando.

Esposa viria a ser  Doña Consuelo Fernandez y  Cabrera,  com quem casou-se quando, abandonando os pagos lusitanos e a vida de cuatrero, bandeou-se para  o outro lado do rio Uruguay  e passou então a ser um honrado esposo e respeitável criador de gado. Antes de casar mandou embora a índia, enxotada pela peonada, como uma cadela velha e faminta.

  • Que se vaya la tuerta! Que se vaya la tuerta! – Gritavam os homens escorraçando-a.

O Coronel ganhou  muitas terras e  apoderou-se de outras tantas. Veio a ser estancieiro, além de fornecedor de suprimentos para o exército da Coroa Espanhola em guerra com os luso-brasileiros. Homem já com idade avançada, fedorento, barbudo e bruto, era governado e mandado por Doña Consuelo. Não tinha mais boca para nada e tudo o que fazia passava pela aprovação da mulher. Doña  Consuelo , de solteira Fernandez y Cabrera,  apesar de algumas poucas vezes ter consentido em  ser tocada pelo coronel, nunca lhe deu filhos pois, como diziam dela as mulheres da peonada, era seca por dentro.

O velho asqueroso graças a Deus, um dia finalmente, foi encontrado, além de morto, apodrecido. Provavelmente tinha sido fulminado por um ataque cardíaco enquanto cavalgava, vindo a falecer talvez até montado no cavalo, que pastava tranquilamente a alguns metros dali. Uma matilha de cães selvagens, liderada por uma cadela preta, havia devorado alguns pedaços de seu corpo, e o que sobrara  das vísceras estrebuchadas fora deixado  espalhado por ali mesmo. Quando Doña Consuelo chegou com os peões, bastante aliviada com a notícia de sua morte e sem remorso algum das súplicas que tanto fizera a Deus para que isto acontecesse logo, a matilha se foi. Antes a senhora  ouviu, arrepiada, o uivo da cadela preta.

Depois de enxotada pelos peões,  contavam que a índia vagou pelos pampas e pelo planalto procurando pelo cheiro, como um animal, os filhotes que o coronel a obrigara a abandonar por aquele mundo tão vasto. Foi, como ele, também encontrada morta,  atrás das ruínas de um dos  túmulos do cemitério índio, lugar onde vivera depois que não tinha mais forças para andar sob o sol e a chuva.

Tinha voltado para a missão; viu quando os luso-brasileiros a conquistaram; viu a resistência dos índios em sair dali, quando os Sete Povos das Missões foram negociados, num acerto entre espanhóis e portugueses, por outros territórios conquistados. Como Maria de la Concepción, nenhum índio queria abandonar seus antepassados mortos, por isso desobedeciam aos padres jesuítas. Pelos cálculos feitos pelos padres a mulher índia deveria ter, pelo menos, uns cem anos. Viveu fumando  palheiro,  mascando fumo  e se alimentando de raízes,  frutos das palmeiras e laranjas, o que havia em abundância nos passeios do cemitério.  Raras vezes as viúvas do cotiguaçu lhe atiraram uma roupa tecida em algodão ou lã. Na sua solidão, falava com os espíritos dos antepassados. Nunca mais teve contato com outros brancos e quem, por acaso, passasse por ali, via a índia acocorada, de olhos fechados,  falando ou gritando sons que ninguém entendia. Às vezes brandia no ar um pedaço de pau, como se defendendo de alguém que queria atacá-la.  Em noite de lua cheia Maria de la Concepción uivava junto com os cães da matilha que ali  também se escondiam. Jamais encontrou um dos  seus filhos, mas não morreu solita. Estava  com todos os seus espíritos.

Dentre eles, o padre Fermín, que estava sentado na escada da igreja e ladeado pelos outros jesuítas. Assistia às danças e representações. Os meninos dançavam e carregavam os estandartes de Jesus, de Nossa Senhora e de todos os outros santos.  As meninas, as índias mulheres e os índios homens batiam palmas. Outros meninos cantavam no coro e agora, já a procissão andava pelas ruas, levando o andor com San Izidro. Alguns outros meninos também tocavam tambores e flautas, e as índias riam, riam enquanto todos bebiam o vinho feito de milho mascado com a saliva das virgens.

Maria de la Concepción  ia casar, junto com outras virgens. O índio criança tinha dezessete anos e ela tinha tecido a rede, modelado as tigelas de barro, cortado os porongos e feito um banco de pau. O índio criança vinha junto com outros e ela também ia junto com outras índias crianças para casarem, todos juntos. A festa era esplendorosa. Os anjinhos loiros e gordinhos desciam das janelas e voavam em torno de Nossa Senhora da Conceição. Concepción flutuava sobre a lua e vestia branco-transparente, com um manto azul. Era agora a mãe das três Marias: Encarnación, Ascención e  Imaculada que, antes, era a sua própria mãe. Concepción, com o manto azul, levava o arco e a flecha enquanto caminhava pelas ruas da Redução, e era o dia em que seu avô, o velho cacique havia morrido. Atirou suas flechas em direção ao sol, a mando da mãe Imaculada que estava com raiva da morte que o roubara e tinha, por isso, o desejo de matá-lo para que não levasse mais ninguém.

No seu delírio, a indiazinha cantou, muito baixo, cantos indígenas até o seu próprio espírito esvair-se daquele corpo miudinho. Porém, apesar dos apelos das outras almas, a de Maria de la Concepción não se juntou a elas. Ficou vagando pelos campos, junto com boitatá, da mula sem cabeça e do negrinho do pastoreio. E depois disso os campos eram como tapetes para a procissão de Nossa Senhora, cheios de flores para o dia de Corpus Christi e ornamentados com os mais belos tecidos produzidos na Redução. Penas vistosas em tamanho e cores e arranjos de flores e ervas aromáticas enfeitavam os caminhos, enquanto que anjinhos loiros junto com papagaios, tucanos e outros pássaros esvoaçavam em torno de Nossa Senhora Concepción, mãe índia que, antes da enfermidade que a levou, quis apunhalar o próprio coração para ficar igual a uma Virgem Maria. A procissão era acompanhada pelo cacique, pelo reitor, pelos padres, os índios, os meninos, as índias e as meninas. Menina Maria de la Concepción tocava com seus dedinhos as asas dos anjos rosados e encaracolados. Mater Dolorosa tinha sete punhais fincados no coração, cada um por um filho que pariu e que lhe foi roubado para ser abandonado no caminho.

Neusa Demartini Nasceu em Porto Alegre (1946). Jornalista, formada pela UFRGS, realizou doutorado em Comunicação pela Universidade Complutense de Madrid. Dedica-se à literatura desde muito jovem, tendo já vasta obra acadêmica na área da Comunicação Política. Aposentada como docente da UFSM, UFRGS e PUCRS, já recebeu duas indicações para o Prêmio Açorianos. Na narrativa longa publicou Vozes da Ancestralidade (Ed. Metamorfose), Quatro Mulheres (Ed.ClassBestiário). (neusademartini@gmail.com)

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