https://pt.wikipedia.org/wiki/Porto_Alegre#/media/Ficheiro:Porto_Alegre_vista_a_partir_do_Morro_Santa_Teresa.jpg

ERNESTO EM PORTO ALEGRE – CRISTIANO FRETTA

Quando Ernesto chegou a Porto Alegre, ela lhe pareceu mais movimentada do que ele imaginava. Não esperava encontrar aquele formigueiro de gente e muito menos o intenso barulho de motores e buzinas de automóveis: pensava que a cidade guardaria qualquer coisa da extensão do pampa que ele tanto havia percorrido até chegar a ela, como se de qualquer canto em que estivesse fosse possível ver campos verdes e ondulados. De onde estava, no entanto, ele observava uma fumaça branca e densa que vinha de longe e aos poucos perdia sua textura sobre a cidade. À sua direita, uma agradável praça, onde inúmeros grupos de pessoas se encontravam. À sua esquerda, os prédios da Cia Previdência do Sul e da Farmácia Carvalho, além de inúmeras outras construções imponentes.

Chamou-lhe bastante a atenção outro prédio um pouco mais à frente, de estilo eclético com forte predomínio de art déco. Caminhou até ele e observou a trabalhada porta de ferro. Logo mais acima, estava a inscrição: “Club do Comércio” De dentro dele, uma linda mulher morena de vestido verde longo surgiu e olhou Ernesto de cima a baixo, com olhar sedutor. Ele acompanhou o seu caminhar se sumir no meio das outras pessoas, enquanto sorria de satisfação. Teve vontade de entrar no “Club do Comércio”, mas preferiu continuar caminhando. Ernesto vestia sapato, calça escura e camisa velha. Em suas costas, uma imensa mochila com tudo o que precisava: algumas mudas de roupas, itens básicos de higiene, dinheiro, alguns documentos, livros e cadernos de anotações. O movimento de transeuntes aumentava na calçada estreita. Caminhou até a esquina e olhou a placa. Ali dizia “Rua dos Andradas”. Ernesto ficou confuso, pois, conforme havia lhe dito o dono de um armazém a algumas quadras atrás, aquela era a “Rua da Praia”. Aquilo, para ele, no entanto, não importava: estava curioso para saber de onde saía aquela densa fumaça branca. Com o passo firme e observando as construções, Ernesto ia em direção à fumaça. Deteve-se durante alguns instantes na fachada do Hotel Majestic e, logo mais à frente, à sua esquerda, observou com certa surpresa a magnificência da imponente igreja branca. Havia muitos pedestres na rua. Alguns quarteis. Não, nenhum sinal de pampa. Automóveis. Ao final da rua já era possível observar que a fumaça saía de uma imensa chaminé. Ao lado, uma construção que parecia ser uma usina de geração de energia. Caminhou até o final da Andradas – ou da Rua da Praia. Ao se aproximar do local, observou a água marrom do rio margeando aquilo que parecia ser uma ponta de península. Dobrou à esquerda e caminhou rente a construções antigas de porta e janelas na calçada. Ernesto observou que, no outro lado da rua, ao lado da chaminé, havia um grande muro branco. Por detrás dele, uma construção que parecia um hospital. Deu-se conta de que aquilo, na verdade, não era um hospital, mas sim um presídio.

Ele achou aquele trecho muito feio e resolveu voltar, desta vez utilizando a outra rua a que havia chegado, que deveria ser paralela a tal Rua dos Andradas. Olhou para a placa que dizia “Rua Riachuelo”. Tratava-se de uma via bem mais estreita, com menos movimento de pedestres e de carros. As suas primeiras quadras eram íngremes. Os prédios não existiam em maior número do que as casas e os comércios com portas na calçada. A rua parecia ser imensa, mas Ernesto não se importou: assim como já havia feito inúmeras outras vezes, sua única preocupação era caminhar na cidade desconhecida. Caminhar por horas a fio, na certeza de que seu corpo não se cansaria e de que isso era uma característica de seu porte atlético. Carregava na sua teimosia por cumprir grandes distâncias a pé a herança do gosto pelo esporte que sua mãe e seu pai lhe haviam incutido desde cedo como uma esperança de curá-lo do mal da asma. Enquanto caminhava e cruzava ruas de uma desconhecida cidade do sul do Brasil, Ernesto lembrava com certa nostalgia das competições esportivas de rúgbi em Córdoba. É incrível como vivemos várias vidas em uma só, pensava ele enquanto atravessava mais uma rua. Por inúmeras quadras seus pensamentos se perderam em lembranças de seu passado na Argentina, e ele deixou de perceber as coisas ao seu redor. Apenas caminhou e caminhou. Caminhou e não pensou em nada. Quando se deu conta, à sua direita surgiu os fundos de um teatro de estilo neoclássico. À sua frente, do outro lado da rua, um outro prédio do mesmo estilo, com inúmeros bustos. Realmente, a cidade era mais movimentada do que ele poderia imaginar. Ernesto riu de si mesmo: de onde havia tirado a ideia de que haveria qualquer coisa de pampa em Porto Alegre?

Caminhou, absorto em suas divagações, durante mais algumas quadras. Atravessou a movimentadíssima Borges de Medeiros e se deu conta de que parecia estar de fato no coração do centro de Porto Alegre. Aquilo lhe dava ainda mais vontade de seguir caminhando. Passou por um inúmero incontável de pedestres, prédios residenciais, atravessou outra grande avenida e chegou a outra praça. À sua direita, outra grande construção. Ernesto não teve dúvida: tratava-se de um enorme hospital. Parou e contemplou com curiosidade a imensa quantidade de janelas da construção que ocupava toda a quadra e as duas torres de uma igreja incrustrada na arquitetura do imenso prédio. Há apenas 3 anos, em 1948, ele havia entrado na Faculdade de Medicina de Buenos Aires. No entanto, Ernesto nunca teve dúvida de que a carreira de médico não era feita para ele. Ou melhor: ele não era feito para a carreira de médico. Sua ânsia por liberdade, sua vontade de vivenciar, provar o diferente, atirar-se em direção ao exótico, sentir o desconhecido com todos os sentidos possíveis o deixava completamente distante de ser chamado de Doutor Ernesto. Mas afinal de contas o que o teria levado a tentar seguir tal carreira? Nem mesmo ele, que já havia atravessado a rua e chegado a uma tal de “Rua Independência”, sabia a resposta. Ernesto não queria perder muito tempo contemplando prédios: caminhar e explorar as diferentes faces da cidade era o que lhe interessava. Viu uma igreja em frente a outra praça e caminhou até ela. Parecia ser algo bem antigo, talvez um dos templos mais velhos da cidade. O movimento de pedestre havia diminuído. Ernesto percebeu que já havia caminhado bastante e que já havia se afastado da região central da cidade, embora ainda não pudesse dizer que estava em algum subúrbio. Muito pelo contrário: à sua frente, na Rua Independência, casas mais rebuscadas pareciam surgir. No entanto, ao invés de seguir em frente, resolveu dobrar à esquerda na primeira rua, à direita na próxima e novamente à esquerda. A sensação de se perder em uma cidade desconhecida dava a ele um imenso prazer. Havia feito isso em todas as cidades em que já havia estado. Cruzou uma enorme e movimentada avenida repleta de construções art decó, entrou em uma rua estreita e cheia de pequenos hotéis e pensões em construções do século XIX e dobrou à direita em uma rua que parecia ser muito comprida e que tinha trilhos de trem. Lembrou-se de olhar a placa na primeira esquia: “Rua Voluntários da Pátria”. Ernesto parou por um instante e olhou ao longe. Pela experiência de viajante que tinha, sabia que aquela rua o conduziria aos subúrbios da cidade. Havia nela uma atmosfera mais proletária e menos pomposa do que as construções pelas quais há pouco havia passado no centro da cidade.

Sentia-se bem caminhando por aquela rua de calçada estreita e cheia de armazéns e depósitos. Observava o trilho do trem e pensava que seria belo se por ali uma imensa maria-fumaça cortasse o caminho, despejando barulho e movimento àquela via. Ernesto chegava a sorrir ao observar o número de fábricas e galpões ir aumentando à medida em que mais caminhava. Nas primeiras quadras, ainda havia alguns hotéis e pousadas. No entanto, quanto mais ia em direção àquilo que indiscutivelmente era uma região de subúrbio de Porto Alegre, mais os galpões e fábricas aumentavam de tamanho.

Era óbvio que o seu namoro com Chichina nunca vingaria, pensava ele com certa satisfação. Como ele poderia exigir que ela o acompanhasse nas suas viagens? Mais do que isso: seria correto consigo próprio renunciar à sua sede por aventuras em nome de um namoro? Ernesto sabia que ainda tinha muito o que viver. Para ele, era óbvio que o futuro era infinitamente maior do que sua namorada argentina. Olhou para a esquerda e via inúmeros navios ancorados: soltou uma gargalhada de felicidade. Já havia viajado bastante. Mas ainda havia muito o que viajar. Mais do que de Chichina, sentia falta de seu amigo Alberto Granado: este sim lhe acompanharia nas viagens.

O clima de Porto Alegre estava ameno naquela tarde. Por causa disso, veio-lhe à memória Alta Garcia, a estância em Córdoba, na encosta de Sierra Chica, em que Ernesto viveu quando criança. O local ficava a seiscentos metros de altitude. Foi lá que ele e sua família chegaram a acreditar que estivesse curado da asma. Aquele sol agradável que lhe batia no rosto enquanto caminhava pela zona industrial de uma cidade quase desconhecida lhe remetia àquela que foi até então uma das melhores épocas de sua vida.

Ernesto observava inúmeras chaminés despejando fumaça e ouvia os inúmeros barulhos que denunciavam atividades repetitivas e movidas a força. Na calçada, operários sujos caminhavam apressados. Um pequeno grupo de quatro homens, todos sujos de graxa, passou por ele, falando italiano. Ernesto se surpreendeu. Porto Alegre não chegava a ser uma cidade linda, mas tinha sim as suas coisas escondidas e surpreendentes, pensou.

Ele precisava parar, sentar-se e anotar suas impressões em seu diário. Sempre fazia isso em todos os países por onde passava. Viu, logo mais à frente, um pequeno bar. Caminhou até ele e olhou para dentro. O local era mal iluminado e contava com apenas algumas mesas com cadeiras distribuídas de forma assimétrica. Sem dúvidas o chão escuro ajudava a esconder a sujeira. Atrás do balcão, um homem gordo de olhos pequenos sumidos atrás de grandes óculos olhava para a rua com um olhar perdido. Sentado em um canto, um tipo meio gaúcho, de bombacha velha e bigode escuro, tomava um martelinho. Ernesto achou o ambiente e achou-o pouco convidativo, um tanto quanto exótico e pouco amistoso, e por isso mesmo resolveu entrar.

“Buenas tardes”, disse ele, aproximando-se da primeira cadeira à sua direita e puxando-a. Sentou-se com prazer. Suas pernas latejavam. Quantos quilômetros havia caminhado?

Para sua surpresa, o homem que estava atrás do balcão surgiu quase que imediatamente ao seu lado e, simpático, perguntou, com um fortíssimo sotaque alemão:

“Boa tarde, amigo, o que desejas?”

Ernesto olhou bem no fundo dos olhos do outro e disse, em um ar de súplica que tinha qualquer coisa de cômico:
“Una cerveza, por favor.”

O outro sorriu e disse:
“Quantas quiser, amigo”.

Ernesto sentiu o peito chiar. Era ela, sua já tão conhecida asma. Quanto sofrimento ela já havia causado em sua vida. Ao sentir o ar lhe faltar, ele sempre lembrava de sua mãe. Celia era nadadora e, quando pequeno, o levava ao Clube Náutico de San Isidro, às margens do rio da Prata. Numa manhã de maio, ela foi nadar e deixou Ernesto, com apenas 2 anos, do lado de fora da piscina. O tempo estava agradável, no entanto rapidamente mudou e se transformou em vento e frio. Seu pai chegou ao clube com a intenção de levá-lo para almoçar e encontrou seu filho tremendo do lado de fora da piscina. Desde aquele dia, a asma nunca mais o abandonou. A culpa também nunca mais abandonou o peito de sua mãe. E o pai, sempre que podia, a culpabilizava.

O primeiro gole da cerveja caiu como um paraíso gelado em sua garganta. Bebeu todo o copo de uma só vez. Colocou-o sobre a mesa e olhou para o outro lado da Voluntários da Pátria. Outro grupo de operários passou falando alto. Entre dois galpões era possível observar o rio e sua água marrom. Ernesto pensou em como as metáforas que falavam sobre rios eram simples e ao mesmo tempo verdadeiras e se deu conta de que muitas vezes para que se pudesse perceber as verdades universais não era necessária muita teoria, mas sim poder de observação da realidade. Como ele se sentia vivo quando tinha esse tipo de epifania. Quando seu pai arranjou uma amante, Raquel Hevia, e passou a viver com ela um relacionamento de que todo mundo tinha conhecimento, Ernesto havia se dado conta de algo muito simples: a monogamia era uma convenção social complexa e preguiçosa da qual talvez todos os homens em alguma medida eram reféns.

Ele tomava a sua cerveja e deixava-se vagarosamente velejar em seus pensamentos. Após o terceiro copo, chamou o dono do bar:

“Che, boludo, vení acá, por favor.”

O outro imediatamente saiu de trás do balcão e se dirigiu até ele.

“Pois não.”

Ernesto se reclinou na cadeira, olhou-o mais uma vez bem nos olhos e perguntou:

“¿Qué parte de Porto Alegre es esa?”

“Que região?”

“!Sí! ¿qué región?”, insistiu.

O dono do bar pareceu não entender bem a pergunta, mas tentou responder.

“Bom, aqui é a Voluntário da Pátria, zona norte.”

“Zona Norte”, repetiu Ernesto.

Houve uma pequena pausa. No canto do bar, o outro homem tomava mais um martelinho de pinga.

“¿Lo que más tenemos acá? ¿fábricas, operarios?”

“Desculpe, não te entendi.”

“¿Hay muchos trabajadores por acá?”

O outro arregalou os pequenos olhos ao compreender:

“Sim, sim, muitos trabalhadores, toda essa região aqui é cheia de fábricas, é um bairro repleto de indústria.”

“Vi un grupo de italianos pasando por la acera ahora hace poco.”

“Italianos da Itália.”

“¿De dónde podrían ser? ¿chinos?”, perguntou Ernesto, rindo.

O dono do bar pareceu não entender.

“Tem muitos italianos por aqui, mas sabe quem começou este bairro todo aqui?”

“¿Quién?”

O outro bateu no peito e respondeu:

“Nós, os alemães.”

Ernesto fez uma cara séria de concordância, encheu mais um copo de cerveja e disse pausadamente:

“Me gustan las alemanas, compa.”

Os dois se compreenderam mutuamente e riram. Do outro canto do bar, o gaúcho de bigodes e bombacha velha também riu.

“!Dale! Una cerveza más ”, bradou Ernesto.

“Claro, claro, e de onde é o amigo?”

“Rosario, Argentina.”

“Vai trabalhar por aqui?”

“No, estoy de paso por la ciudad.”

O outro se surpreendeu:

“Visitando a Voluntários da Pátria, no meio de tanto operário feio?”

Ernesto levantou o dedo em riste, em tom de importância e disse:

“Pero es justo ahí que está el ser humano, tenemos que buscar lo bello en las cosas sencillas, la lucha en los pequeños detalles, el triunfo en las cosas chicas.”

“Tu fala estranho, mas gostei.”

Ernesto riu.

“Gracias, amigo, gracias.”

Ernesto, aos poucos, começava a sentir a tontura gostosa produzida pelo álcool em seu corpo. Era agradável observar aquela região da cidade. Assim que descansasse mais um pouco, se embrenharia naquelas ruas e observaria as fachadas das fábricas. Sua asma, no entanto, não dava nenhum sinal de passar. Pelo menos não estava piorando. Por experiência própria, mais alguns instantes sentado já seriam suficientes para que os sintomas melhorassem e para que ele pudesse então seguir caminhando.

Voltou-se durante alguns instantes para dentro do bar. Era realmente imundo. Havia alguns sanduíches prontos por trás do balcão, bem como salgados murchos e outras coisas dentro de imensas compotas em conserva. No canto, o homem de bigodes não tirava os olhos de Ernesto, que já havia terminado sua cerveja. Virou-se novamente para o alemão e gritou:
“Alemán, alemán, baja una más al argentino.”

O dono do bar quase que instantaneamente pegou outra garrafa e levou-a até Ernesto. Abriu-a e encheu novamente o seu copo.

“Pero, che, no sé tu nombre.”

“Aaron”, respondeu o outro, sorrindo por detrás de seus óculos pequenos.

“Perdóname, pero que nombre raro, nunca lo he escuchado.”

“É um nome muito comum na Alemanha.”

Ernesto bebeu metade do copo de cerveja e continuou:

“No lo sabia.”

“Não é o primeiro a achar o meu nome estranho, pode ter certeza”, disse Aaron, rindo.

Ernesto olhou o rio bem na hora em que dois barcos a vapor se cruzaram em direções opostas.

“¿Y vos? ¿entendés bien el castellano? Veo que me comprendes sin dificultad.”

“Aqui no quarto distrito, principalmente num bar, a gente tem que saber falar todas as línguas do mundo, português, espanhol, italiano, até mesmo polonês, tem gente de todo mundo aqui, como se fosse uma Babel.”

Ernesto arregalou os olhos: não esperava aquela referência cultural.

“Una Babel, una Babel, la real Babel, mi amigo alemano.”

Houve alguns segundos de silêncio em que os dois permaneceram olhando para a frente.

“Vejo que você também compreende bem o português.”

“Intento tener un buen oído. Si no lo entiendo, lo invento, pero, es importante no quedarnos en silencio, aunque cuando no sepamos algo.”

“Falou bonito de novo.”

“Si pensás que hablé hermoso, entonces estoy de acuerdo.”

“O que faz na Argentina?”

“Estudio medicina.”

“Falta muito para te formar?”

“Sí, el infinito.”

“Não entendi.”

“Quise decir que nunca seré doctor.”

“Por quê?”

“Porque no tengo llamamiento.”

Aaron observava Ernesto enquanto ele tomava o resto de cerveja do copo e o enchia de novo.

“Bom, não sei o que é isso, mas vou cuidar desse bar aqui, se precisar de mais alguma coisa, me chama”, disse, se levantando.

“Espera, espera um rato”, e Ernesto puxou-o pelo braço.

“O que foi?”, perguntou Aaron, meio assustado.

Ernesto baixou bem o tom de voz e perguntou, rente ao rosto do outro:

“¿Quién es aquel hombre sentado allí en el rincón, bebiendo unas cañas?”

Aaron recuou um pouco, franziu o cenho e respondeu:

“É o Lúcio.”

Fez uma pausa e continuou:

“Não dá bola para ele, vive de arranjar confusão depois de tomar umas pingas, não dá bola para ele.”

Ernesto, que ainda segurava Aaron pelo braço, disse:

“No tengo miedo de pelotudos, sé muy bien como tratarlos.”

“Por favor, amigo, não quero confusão no meu bar.”

“Seguro que no será un lío”, disse Ernesto, largando o braço e voltando a beber sua cerveja e contemplar o rio.

Respirou fundo o máximo que pode. Para a sua satisfação, o chiado no peito parecia ter diminuído. Olhou para trás e viu Aaron cochichar com o bêbado, que continuava a encará-lo. Ele conseguiu ouvir com nitidez:

“Não vai me arranjar confusão hoje aqui, não vai começar a ofender as pessoas.”

Ernesto virou-se novamente para o seu copo de cerveja, pegou sua mochila do chão e abriu-a. De dentro dela tirou seu bloco de anotações, um lápis e observou o velho volume amassado de poesias de García Lorca. Serviu mais um copo de cerveja e pensou em escrever. No entanto, suas palavras falhavam. O álcool no sangue fazia sua cabeça levemente flutuar, e a sensação de bem estar lhe tirava a habilidade da escrita.

Ouviu o barulho de cadeira se mexendo e pressentiu que o tal Lúcio havia se levantado e caminhava em sua direção. Ernesto observava os movimentos do homem com o canto do olho. Sentiu o cheiro de cachaça quando ele se aproximou e parou cambaleante ao seu lado.

“Então, tu é argentino?”, perguntou, arrastando as sílabas, completamente bêbado.

“Si, soy argentino”, respondeu Ernesto, olhando-o de cima a baixo.

O bêbado vestia, além de bombachas muito velhas, umas chinelas igualmente usadas e uma camisa branca aberta ao peito. Tinha cabelos escuros e mal penteados e um bigode escuro com vários fios grisalhos se destacando. Encarou Ernesto durante vários segundos, cambaleando.

“¿Qué fue? ¿nunca me viste?”

“Eu não gosto de castelhanos”, disse Lúcio.

Ernesto franziu os olhos e perguntou:

“¿Y por qué no?”
O outro tropeçou nas próprias pernas, reestabeleceu-se e lentamente fez um sinal de degola no próprio pescoço. Ernesto riu:

“¿Qué fue? ¿me va a cortar la cabeza?”

“Tu quer?”

“Che, de la manera que estás, tú no consigues cortar un trozo de mantequilla.”

“Não entendi o que tu disse, fala português.”

“Yo no hablo portugués porque yo soy argentino.”

“Fala português”, disse o bêbado, em tom de voz mais alto.

“Solo si tu hablas polonés, Aaron dijo que por acá hay muchos polacos”, continuou Ernesto, ainda rindo.

Lúcio tropeçou um passo em direção a Ernesto. De trás do balcão, Aaron gritou:

“Pelo amor de Deus, Lúcio, não vai me arranjar confusão de novo aqui, todo dia tu brigas com alguém no meu bar, que inferno vou te colocar pra rua e tu nunca mais vai entrar aqui.”

No entanto, ele não deu a mínima para o aviso:

“Argentino de merda, eu odeio a tua raça, acho vocês uns bostas.”

Ernesto fechou o semblante imediatamente. Aaron, que estava debruçado por sobre o balcão, pôs-se reto e arregalou os pequenos olhos. Lúcio cambaleava e só faltava espumar pela boca. Ernesto tomou o resto de cerveja que havia no copo, limpou a boca com o dorso da mão, ajeitou-se na cadeira e olhou fixamente para o outro. E subitamente rompeu uma inesperada gargalhada, batendo com os punhos na mesa.

“Se não fosse nós, gaúchos, colocar vocês para correr, vocês tinham tomado conta de tudo, vocês são uns ratos da terra, eu odeio vocês”, continuou.

Ernesto tinha dificuldade para parar de rir.

“A gente fez essas fronteiras aqui com muito sangue e muita luta, lutando contra muito castelhano filho da puta, o Brasil deve muito para nós.”

“Oye, escucha, hijo de puta, no te conozco y tengo más lo que hacer de mi vida, pero si quieres pelea, yo no huyo”, disse Ernesto, já sem marcas de sorriso no rosto.

Aaron já havia saído de trás do balcão e se aproximado dos dois.

“Meu amigo, me desculpe, todo dia ele faz isso, não pode ver uma pessoa aqui dentro que começa a xingar, é um bêbado sem vergonha, ele já vai embora.”

E virando-se para Lúcio, continuou:

“Saí já daqui, seu bêbado de merda, todo dia me causando confusão, não quero mais te ver por aqui.”

No entanto, Lúcio continuava vociferando contra Ernesto:

“Não acredito que tu seja mais homem do que os homens daqui.”

“Desde ahora, te voy a tratar como mereces”, disse Ernesto, colocando um resto de cerveja no copo.

“Que revolução que vocês fizeram lá, seu merdinha, me diz, que revolução que vocês fizeram?”

Ernesto olhava para o rio.

“Aqui é que tem homem de palavra, homem de valor, foram um monte de briga, ó, deixa eu te mostrar.”

E o bêbado piscava olhos enquanto tentava contar nos dedos:

“Foi a Cisplatina, Farroupilha, teve Bento Gonçalves, Davi Canabarro, e todos os outros, depois teve Guerra do Paraguai, 1893, 1923, me diz que lugar no mundo se tem tanta coragem, me diz?, a gente quando faz uma promessa, a gente faz a promessa pelo fio do bigode, e não tem nada mais importante no mundo do que fazer uma promessa pelo fio do bigode, gaúcho é assim mesmo.”

Ernesto tossiu levemente e coçou a sobrancelha.

“Aqui no Rio Grande a gente não tolera maricas, a gente faz é virar macho, não gosta dessas coisas de mulherzinhas, lá na Argentina eu sei que deve estar cheio de gente assim.”

“¡Alemán! ¿desde cuando hay alemanes aquí en este lugar?”, perguntou Ernesto com tranquilidade.

“A gente chegou aqui no meio do século passado”, respondeu Aaron, com a voz oscilante.

O bêbado continuou:

“As china daqui são umas potrancas, e a gente também não deixa se criar, não, quem manda é a gente, não tem esse negócio de mulher querer mandar no marido, se for preciso a gente trabalha, meu vô era lá de fora da estância, meu bisavô também, era um centauro, o velho, dizem que não sabiam onde terminava o homem e começava o cavalo, comia capim e bosta de cavalo de tão homem que era, morreu com 106 anos o desgraçado do velho e hoje essa molecada que anda por aí não sabe nem segurar uma arma, são todos uns bostinhas de merda, se não fossem os gaúchos expulsar a castelhanada nojenta, hoje isso daqui era um nojo só, a gente não ia ver um só homem trabalhando aqui pela região, ia ser tudo um bando de preguiçoso, os alemão vieram pra cá e aprenderam com o gaúcho como é que se trabalha, os polonês também, os italiano também, porque aqui é que se tem homem de verdade.”

Ernesto mais uma vez olhou para o dono do bar e perguntou:

“¿Acá, cuándo llueve, se inunda la ciudad?”

Aaron não sabia se olhava para Ernesto ou para Lúcio. Estava tenso. Respondeu, mais uma vez com voz oscilante:

“Sim, às vezes alaga isso aqui tudo, de vinte em vinte anos, mais ou menos, dá uma grande enchente.”

Ernesto assentiu positivamente e permaneceu calado, olhando o rio.

O bêbado continuou:

“Às vezes dá uma vontade danada de dar uns tiros por aí, estourar uns miolos de uns maricas, dar umas facadas, mas sempre me falta um argentino que se preste, um marica à altura de sofrer nas minhas mãos, de ser sangrado por um homem de verdade, eu já te disse que aqui a gente faz revolução como ninguém, quantas revoluções vocês já fizeram?, acho que nem cuspir no chão vocês conseguem, vocês não são homem, aqui se toma pinga como se fosse água, se transa com as china como se respira.”
Ernesto continuava olhando o rio.

“Vocês fizeram o que lá na Argentina?, tudo um bando de fresco, tudo um bando de fresco”, gritava Lúcio, enquanto Aaron tentava contê-lo e colocá-lo para fora do bar.

Ernesto se serviu do resto de cerveja e tomou tudo de uma vez só.

“Se vocês fossem um pouquinho como o gaúcho seriam homens de verdade, mas se tu quiser eu posso deixar tu beber um pouquinho do meu xixi, sabe, xixi de macho, pau de macho de verdade”, e Aaron finalmente conseguiu fazê-lo sair do bar, aos empurrões.

“Desculpe, amigo, desculpe, esse idiota não tem jeito mesmo”, disse Aaron a Ernesto.

“Me voy, alemán.”

“Obrigado por não ter tratado ele como merecia.”

“Pero lo traté como merecía.”

Ernesto levantou-se da mesa, tirou de dentro do bolso da mochila umas notas amassadas, contou-as e colocou em cima da mesa.

“¡Cuídate!, alemán, me gusta este bar ”, disse ele, dando uns tapas no braço de Aaron.

“Também se cuide, doutor Ernesto”, respondeu, em tom de brincadeira.

“No quiero ser doctor, che”, disse Ernesto já na rua, rindo.

“Até mais, che”, disse Aaron, dando ênfase debochada à última palavra. Porém o argentino não ouviu.

Dobrou à direita e caminhou até a próxima esquina. Não estava muito bêbado, porém os seus pensamentos já vagavam no indefinido. Se sentia feliz. A tarde, aos poucos, começava a cair. O movimento de operários pelas ruas só aumentava. Ernesto dobrou à direita. Parecia que todas as ruas daquela região eram retas. Só havia fábricas e mais fábricas. Na próxima quadra, dobrou à esquerda. No meio da quadra, entre duas árvores meio tortas e sobre um calçamento completamente irregular, um grupo de meninos jogava um improvisado futebol com uma velha bola murcha. De onde teriam saído, já que por ali aparentemente não havia moradias?, questionou-se Ernesto. Estavam meio maltrapilhos, porém extremamente felizes. A bola escapou por entre as pernas de um deles, que fazia o papel de goleiro entre duas pequenas caixas amassadas de papelão. Em um susto, Ernesto dominou-a, fez duas embaixadinhas mal feitas e jogou-a de volta ao grupo. Um dos meninos agradeceu-lhe rapidamente com um acendo de mão. Ernesto seguiu pelo meio da rua para não atrapalhar o jogo. O argentino sorria. Dobrou novamente à esquerda na próxima rua, caminhou mais uma vez pela frente de fábricas e voltou à Voluntários da Pátria. Atravessou-a por entre o movimento de carros. Caminhou um pouco e encontrou o local por entre as duas construções em que há poucos instantes estava observando de dentro do bar. Foi até a beira do rio e sentou-se. A areia era grossa, meio amarelada. O rio tinha um cheiro estranho. Do outro lado da margem, Ernesto conseguia identificar inúmeros barcos de pescadores ancorados em pequenos trapiches numa densa paisagem verde. Sentia-se embriagado. Abriu sua mochila e tirou seu caderno de anotações. Pegou o lápis e começou a escrever: “Tengo ganas de meter un balazo en la cabeza de estos hijos de putas que me cruzan el camino.”. Levantou os olhos e olhou mais uma vez para o rio. A seguir, riscou várias vezes a frase que havia acabado de escrever. Lembrou-se, então, da mulher com quem havia cruzado em frente ao “Club do Comércio”. Neste momento, sentiu uma terrível saudade de sua família. Precisava escrever uma carta para algum familiar. Virou a página e começou: “Estoy bien, principalmente porque las mujeres aquí de Porto Alegre son muy calientes”, mas parou mais uma vez. Olhou para a esquerda e viu, ao longe, a imensa chaminé soltando a densa fumaça branca. No entanto, ela agora estava indo na direção oposta à da cidade, desfazendo-se por sobre o rio. O vento havia mudado de direção.

Cristiano Fretta tem 33 anos, é mestre em Letras pela UFRGS, músico e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras “Chão de Areia”, “Tortos Caminhos” e “A luz que entrava pela janela”.

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