ESTAMOS PERDENDO O VIÇO DA MALDADE – GUSTAVO MELO CZEKSTER

Sejamos sinceros: escritores não são boa gente. São pessoas repletas de manias, delicadas a ponto de tecer odes a cebolas ou criaturas insensíveis capazes de ver o pai morrendo e, ao invés de confortá-lo, pegar uma pena e descrever os seus egoístas pensamentos. São indiscretos; nenhum segredo está a salvo deles. São vingativos – você nunca terá certeza se determinado personagem escroto não é a resposta cheia de rancor a uma antiga briga. São infantis e déspotas, falastrões e irônicos, vaidosos em relação às próprias obras e petulantes sobre as suas capacidades. Eles pensam ter poderes divinos, e o fato de Santo Agostinho, em um trecho das “Confissões”, brincar (acredito que seja uma brincadeira, mas, com Santo Agostinho, nunca se sabe) que Deus foi o primeiro e último escritor que existiu, pois, após criar o universo e o mundo no Gênesis, “olhou a sua obra e ficou satisfeito”, não ajuda em nada para debelar tamanha presunção.

No entanto, os maiores escritores são os cruéis. Aqueles que estão pouco se lixando, não somente com o seu leitor, mas com prêmios literários, com honrarias, com listas, com dinheiro, com entrevistas. Aqueles que só estão no ofício literário para ter o pretexto legalizado de pegar um bando de personagens e fazer bullying com eles até cansar. Usar a obra como um “sparring” e derrubá-la seguindo as regras do ringue da Literatura e, quando os juízes intervirem, continuar acertando golpes baixos no corpo caído.

É uma pena que a pós-modernidade nos amoleceu, transformando-nos em uma massa amorfa de cordeiros balbuciando as mesmas verdades engessadas enquanto fazemos corações com os dedos. Estamos perdendo o viço da maldade e, se existe algo importante que a Literatura nos mostra, é a capacidade do homem de ser cruel com o seu semelhante. Não é algo ruim: é a velha catarse mencionada por Aristóteles, o desejo quase indecente de expiar nossos pensamentos malvados por meio da identificação com o drama alheio. No entanto, do jeito que as coisas vão, em breve não existirá mais maldade nos textos ou personagens completamente desprezíveis. Teremos uma Literatura feita para unicórnios – ou para pandas.

Uma das poucas coisas que me orgulha nas releituras que faço do meu livro e de outros textos é que reconheço ser um crápula em relação às minhas histórias. Não tenho sentimentos bonitos de libertação ou de alívio, como leio nas frases de outras entrevistas. Nada disso. Para mim, a literatura funciona mesmo é na base da violência; agrido ou serei agredido e, neste espírito, sempre prefiro dar o primeiro soco.

No final, existem duas opções: ou as palavras seguem aquilo que eu quero ou serão destruídas. Os leitores não conseguem ver tamanha tirania, pois está bem escondida atrás de camadas de palavras bonitas, mas, ultrapassando os muitos vernizes que passei sobre as minhas ideias, existe um espírito animalesco contorcido, gritando por um copo de água. “A mad man in the attic”: um escravo aprisionado no porão da minha criatividade. Às vezes, eu abro a janela e deixo entrar uma lufada de ar fresco, mas logo volto a encerrá-lo no seu catre úmido e sombrio. Consigo ver a origem desprezível de cada história, a forma com que peguei um sentimento genuíno e o transformei em aberração, e, por causa disto, toda a minha experiência literária é uma tentativa de disfarçar os caminhos que deslindarão a maldade do espírito que anima meu corpo.

Menos mal que não estou sozinho neste percurso impregnado de crueldade. Algum tempo atrás, emprestaram-me um livro fascinante, “Lectures on Don Quixote”, de Vladimir Nabokov, contendo as aulas que o escritor russo ministrou em Harvard sobre o livro de Miguel de Cervantes. Após uma análise detalhada do clássico, contando personagens, motivos, cenários e outros detalhes – um começo bastante chato, aliás -, Nabokov apresenta uma ideia revolucionária. Para ele, “Dom Quixote” é uma das obras mais cruéis da Literatura. Cervantes pegou uma personagem com problemas mentais, colocando-a dentro do livro com o intuito exclusivo de debochar das suas desventuras. Em termos mais grosseiros, Cervantes aproveitou-se das deficiências mentais de um homem para debochar dele e eternizar a sua estultícia. A extensão avantajada do livro demonstra o tamanho da maldade do autor, que criou a personagem só para poder torturá-la e humilhá-la de todas as formas possíveis. A conclusão de Nabokov é aterradora: Cervantes escreveu “Dom Quixote” ao mesmo tempo em que gargalhava das maldades criadas, sendo possível escutar as suas risadas maléficas por entre as frases do livro.

Esta é a leitura que Nabokov fez de “Dom Quixote”. Talvez tenha forçado algumas conclusões, mas é uma visão sedutora: deixar de ver a obra como a trama de um homem imerso no conflito entre a imaginação e a realidade, passando a encará-la como um longo exercício de degradação da personagem. Nossas risadas assumem caráter desconfortável, e Cervantes deixa de ser um exímio fabulista para se transformar em um torturador de extremo requinte, capaz de fazer a sua personagem sofrer diante da plateia – e ainda ganhar aplausos. Para Nabokov, gostamos em “Dom Quixote” é justamente a sua capacidade de atrair por meio da maldade do autor. Ele não tira a importância da obra para a História da Literatura, mas a considera dotada de um humor duvidoso e bárbaro.

Contudo, Nabokov desconsidera o fato de que, se os escritores não forem cruéis com as suas tramas e com as personagens, eles serão escravizados. É uma luta inglória, gangorra que nunca está equilibrada; se não estamos batendo, é por que estamos apanhando.

Nesta hora, recordo de “Cartas Exemplares”, de Gustave Flaubert. Após “A tentação de Santo Antonio”, Flaubert isolou-se da sociedade parisiense, mudando para o campo. Tinha a ideia de escrever o romance definitivo, algo que nunca tinha sido tentado antes: um livro que, no futuro, se transformaria em “Madame Bovary”.

As cartas de Flaubert são dolorosas. Seu método de escrita foi lento, excruciante. Nos dias bons, ele escrevia uma ou duas páginas; nos dias ruins, rasgava estas páginas boas e sobravam somente um parágrafo ou uma frase. Existem poucas situações mais frustrantes do que passar um dia inteiro tentando criar um livro para sair uma única frase. O escritor francês passava a manhã caminhando e respondendo cartas, em preparação física para o momento de trabalhar. As tardes arrastavam-se sem que a obra avançasse, e as lamúrias de Flaubert demonstram o massacre sem piedade que ele sofreu.

Lendo as cartas, fica visível que “Madame Bovary”, a personagem, deu uma surra inesquecível e diária no seu autor. Mostrou quem mandava na história e, se o livro existe hoje, não foi por mérito do seu criador, mas por graça e obra da criatura, que se permitiu vir ao mundo. Ao contrário do detectado por Nabokov em “Dom Quixote”, na correspondência deixada por Gustave Flaubert é possível escutar as risadas de Emma Bovary enquanto tortura o responsável pela sua criação sem piedade alguma.

Os críticos leem as “Cartas Exemplares” (só a parte correspondente à criação de “Madame Bovary”, pois, após o seu lançamento, as cartas de Flaubert passaram a ser engraçadas missivas explicando para leitores que, não, a história não era real e, não, nenhuma das personagens correspondia a pessoas existentes na sociedade francesa) como “a cuidadosa e detalhada elaboração de uma obra literária”. No entanto, por trás do aspecto técnico, existe uma verdade incômoda: Flaubert apanhou da sua personagem. Quase enlouqueceu por causa dela. No esforço de dar voz e concretude para Emma Bovary, o escritor francês teve que se submeter à escravidão e à exaustão física.

A descrição da sua rotina de trabalho revela a sova que o livro lhe aplicou de forma incessante, durante cinco anos, conforme carta enviada para Louise Colet:  “Eu estou arrasado, o cérebro se põe a dançar no crânio. Acabo, isto desde ontem das dez da noite até agora, de recopiar setenta e sete páginas de vez que não dão mais que cinquenta e três. É embrutecedor. A coluna vertebral está no pescoço, como observaria M. Enault, quebrada por causa da cabeça abaixada tanto tempo. Quantas repetições de palavras eu acabo de surpreender! Quantos todo, mas, pois, entretanto! É isto que é diabólico na prosa, que faz com que nunca esteja terminada. No entanto há boas páginas, e eu creio que o conjunto funciona, mas eu duvido que eu esteja pronto para ler no domingo tudo isto para Bouilhet. Assim, desde o fim de fevereiro, eu escrevi cinquenta e três páginas! Que ofício encantador! Que creme desgraçado de bater, que vale por mármores a serem carregados!”

São dois exemplos extremos: o autor que tortura intencionalmente a sua personagem e o escritor que precisa se submeter aos caprichos e veleidades da própria criação. Conforme Sócrates, a literatura amortece a vida, e contra isto devíamos nos insurgir. É possível ver toda a experiência artística como um flerte incessante com a noção de crueldade e com aquilo que existe de pior no espírito humano. Victor Hugo dizia que mesmo o grotesco tinha um aspecto sublime e, assim, é difícil de entender o motivo pelo qual tantos escritores atuais tratam com tanta civilidade as suas personagens e vice versa. O mundo era um local bem melhor quando assistíamos aos banhos de sangue nas tragédias gregas ou líamos obras escritas não para ganhar dinheiro, mas ao som alegre dos chicotaços distribuídos por personagens dominadores. Pelo menos, não éramos tão cínicos a ponto de achar que o mundo é um local bom e que a Literatura só eleva o espírito humano, quando, na realidade, ela deveria ser um espelho da nossa imorredoura crueldade – o animal que não gostaríamos que morasse no fundo dos nossos olhos.

O ensaio faz parte de uma cole-
tânea por ser lançada em breve.

Gustavo Melo Czekster é formado em Direito pela PUC-RS, mestre em Letras (Literatura Comparada) pela UFRGS e doutor em Escrita Criativa pela PUC-RS. É palestrante de temas ligados à literatura, resenhista de sites e ministrante de oficinas literárias. É escritor, autor de dois livros de contos: “O homem despedaçado” (2013) e “Não há amanhã” (2017). Com o segundo livro, foi vencedor do prêmio Açorianos 2017 (categoria Contos), do prêmio AGES de Literatura (categoria Contos e categoria Livro do Ano) e do prêmio Minuano de Literatura (categoria Contos), tendo sido finalista do Prêmio Jabuti 2018 (categoria Contos).

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