O SORRISO DA BONECA DE PLÁSTICO – DORALINO SOUZA

A frase da carcereira gritada com força ecoa na cela. “Saracura, vem pro pátio, Saracura”. Cabisbaixa, ela não dá atenção, sentada à beira da cama, continua penteando o cabelo da boneca, horas a fio na escovação. A carcereira parada à entrada do cubículo, mão apoiada na grade de ferro da porta, outra na cintura, insiste: “Lá fora tem sol que faz bem pro corpo, tem ar puro, vem, Saracura, já resolvemos a questão, está tudo bem agora, ninguém vai te aborrecer”. A outra parece não ouvir. Deixa a escova descer num cuidado compassado. Enquanto alisava os fios de náilon, lembrou-se da doutora explicando que todos necessitam cuidados. Só que isso ninguém lhe deu, pensou, já na primeira noite teve os beiços inchados. “Putinha de merda, eu quero um dente por semana, toda terça”, dizia a gorda com sovaco cabeludo. Os incisivos e os caninos saíram fáceis. Brabo foram os molares, não tinha soco que arrebentava. Tentaram joelhadas e chutes e, por fim, o alicate improvisado que a gorda usou sem dó. “Nem cadela faz o que tu fez, sua putinha, cuida dessa boneca”, a gorda gritava esbravejando raiva, “teu compromisso de agora em diante”. No dia em que Saracura pisou no pátio sem a boneca, foi arrastada pelos cabelos, teve as tetas perfuradas e enfiavam coisas em sua xoxota durante um mês. Agora não larga a boneca. Não mais. Dá banho, troca de roupa, arruma cabelo. Sempre no colo. Embalando. Até canção de ninar aprendeu.

A doutora dizia que precisava compreender o que aconteceu. Pedia cooperação para que pudesse entender, Saracura nunca soube explicar a causa daquilo. As vezes lembrava da banheira derramando espuma, lembrava que segurou a recém-nascida lá no fundo e, enquanto a segurava, olhou através da janela, viu o pé de jacarandá mimoso, achou tão lindas as flores azuladas e imaginou que não tinha como a vida ser ruim dali para frente. Depois imaginou que poderia vender a casa e reiniciar sua vida numa cidadezinha do litoral, porque ela sempre gostou das caminhadas à beira mar, e tem certeza que merece recomeçar noutro lugar, completamente sozinha.

A carcereira dá um passo à frente. “Saracura, vamos pro pátio, já mandei, não precisa mais brincar de mamãe, pode parar com essa merda”, diz irritada, e solta a bofetada, jogando a boneca no canto da cela.

A carcereira notou o olhar arregalado da mulher magrela, feia e desdentada que todas chamam de Saracura. Ouviu uma espécie de urro vindo do fundo da garganta da outra, parecia um ronco de algum animal querendo acordar. Ela sentiu medo, no entanto, não conseguiu pedir socorro a tempo. Saracura avançou com fúria empurrando-a contra as grades de ferro, apertando sua cabeça até espremer sangue e ensopar o uniforme. Os dedos furando olhos, a baba branca e gosmenta escorrendo da boca. O corpo da carcereira revirando num lodo até ficar inerte.

Depois Saracura recolheu a boneca no chão, ajeitou-a com carinho sobre a cama, deu dois passos para trás e ficou admirando o belo sorriso.

Doralino Souza é ativista cultural, jornalista e escritor. Dentes no copo de uísque & outros contos (2019) é seu terceiro livro. Anjos também usam boné (2014) e O cânion de dentro (2016) são suas obras anteriores, ambas finalistas ao Prêmio Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores – AGES – Tem contos premiados e diversas participações em antologias. Colunista do Site Panorama, publica quinzenalmente um conto. É fundador e presidente da Associação Lítero Cultural Igrejinhense – ALICI – e preside o Conselho Municipal de Cultura na cidade onde mora, em Igrejinha/RS. Adquira os livros em: vendas@jm2d.com.br  ou na Amazon

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