O ‘UIVO’, DE GINSBERG, POR VITOR RAMIL

“O Uivo de Allen Ginsberg, lançado em 1956, continua a se fazer ouvir, reverbera em nossa alma, toca nossa consciência. Estamos todos internados, perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo. Assim estavam Ginsberg e Carl Solomon, a quem o poema é dedicado, quando se conheceram numa instituição psiquiátrica norte-americana. Eu estou com você em Rockland, diz o poeta. “Eu estou com você”, dizemos nós, à distância, às pessoas que amamos. Os Estados Unidos tossem a noite toda. Na porta do nosso chalé dentro da Noite Ocidental vemo-nos de repente em nosso sistema biológico: portas proteicas abertas para o inimigo, células doentes, células de defesa que as destroem, células que se autodestroem. Inflamados, da soleira da nossa racionalidade vemos a rua e entendemos que, biologicamente, não diferimos muito do sistema social que criamos para nós. Estamos socialmente infectados, doentes: no ataque, na defesa, em desequilíbrio, aprofundando desigualdades, destruindo a natureza. Olhamos ao redor e não vemos o inimigo. “Somos cegos e vivemos nossa vida na cegueira”, escreveu William Carlos Williams no prefácio da primeira edição do Uivo. O pensamento, essa faculdade que nos permite olhar para dentro e para fora, que nos permite viver em sociedade e nos aperfeiçoarmos, é a mesma que nos destrói. Precisamos desenvolver imunidade a nós mesmos. Nossa alma já não é inocente e imortal.

Musiquei a terceira parte do Uivo, na linda tradução de Cláudio Willer, há quase 20 anos, como parte de uma espécie de tríptico com outro poema de Ginsberg, Para Lindsay, e um de Sam Shepard, que nomeei Crônica de Motel. Muitas canções minhas esperaram anos pelo momento certo de ganhar a rua. Ramilonga e Noite de São João, por exemplo, passaram 10 e 15 anos, respectivamente, soando apenas dentro de casa. Uivo só era conhecida pela Ana Ruth, minha companheira há quarenta anos. É ela quem me filma agora, com o celular, para registrar essa canção em que a música, diante da relevância do poema, é só uma curiosidade, um modo de dizer. O poema fala em martelar um piano catatônico. Foi assim que a compus. No caso, o piano vai desafinado mesmo, já que o afinador está isolado em sua casa. Acho que este é o momento dessa canção. Agradeço ao amigo Eduardo Bueno que me botou a pilha que faltava para mostrá-la. Quero que este Uivo chegue até ele e a todos os meus amigos, àqueles que me escutam e leem, aos que leio e escuto, aos meus filhos, minha família, em especial à minha neta Nina, com quem eu e a Ana temos brincado apenas virtualmente, e à minha mãe, Dalva, na saúde dos seus 94 anos. Escuta aí, mãe. 7 de abril, é o dia do meu aniversário, lembras? Nasci hoje às 15:10h. Nascer leva tempo. Saúde e paz para todos. Fiquem em casa. Eu estou com vocês.”

No dia de seu aniversário, 7 de abril, Vitor publicou nas suas redes sociais um trecho de Uivo, de Allen Ginsberg (na tradução de Claudio Willer) que musicou e resultou neste vídeo gravado em sua casa, em Satolep. Reproduzido com a autorização do autor.

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