SANTIAGO NAUD (1930-2020) – HOMENAGEM DO INSTITUTO ESTADUAL DO LIVRO (IEL)

O Instituto Estadual do Livro (IEL) e a Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) lamentam o falecimento de um dos fundadores do IEL, o professor e escritor José Santiago Naud, ocorrido ontem (20/07). Nascido em Santiago em 24 de julho de 1930, formado em Letras Clássicas, Naud era autor de dezenas de obras, dedicando-se especialmente à poesia e à crítica literária, estando ainda entre os professores fundadores da UnB (Universidade de Brasília) e entre os fundadores da Associação Nacional de Escritores. Em 29 de janeiro de 1954, ele participou, juntamente com Manoel Sarmento Barata, da fundação do IEL, tendo atuado também na direção do instituto nos primeiros anos.

No vídeo a seguir, o IEL presta homenagem aos seus fundadores, entre os quais Santiago Naud, “A Fundação do IEL e Preservação da memória da literatura gaúcha – Nas palavras de seus fundadores”. O vídeo foi publicado no canal de YouTube do instituto durante a programação do Dia do Patrimônio (17 de agosto).

Obras de Santiago Naud: Poemas sem domingo, 1952; Cartas a Juanila, 1953; Noite elementar, 1958; Hinos quotidianos, 1960; A geometria das águas, 1963; O centauro e a lua, 1964; Ofício humano, 1966; Verbo intranquilo, 1967; Conhecimento a oeste, 1974; Dos nomes, 1977; Noção do dia, 1977; Piedra azteca, 1985; Vez de Eros, 1983; As colunas do templo, 1988; O olho reverso, 1993; Memórias de signos, 1994; Os avessos do espelho, 1996; Antologia pessoal, 2001; 20 poemas escolhidos e um falso haikai, 2005; Fábrica de ritos, 2008; 47 poemas lusitanos, 2011; Cara de cão, 2018.

‘Exílio’, de ‘Noção do Dia’ (1977)

Exílio, isto de parar no tempo
e ver todos quantos se amou sumirem
na vertigem das horas. E ter à mão
todos os minutos, instante justo
em que falávamos com eles,
fazendo a atenção virar
da direita para a esquerda
ou
da esquerda para a direita
sem mesmo acertar o ponto certo
ou deixar que a alegria se escapasse
de tudo o que podia ser, mas
nunca será. Nunca.
Roendo a crosta do remorso
em busca do seu miolo, diluído demais
para que o dente o acerte,
centrado no cerne do tempo que se escoa
em chaga aberta
paro de existir.
Toda a possibilidade de voltar cessa
na soledade de ser, pedra
irrompendo círculos cada vez maiores
na água em que caiu,
e o desfile das faces para sempre irrecuperáveis
atravessa o silêncio vazio,
enquanto lá fora os pássaros cantam,
e brotam as flores,
e no relógio da sala bate, precária,
rouca, ritmadamente,
o descompasso da história
desfiando um júbilo emaranhado
que nunca podes tecer

‘Em que lugar ficou’, de ‘Os avessos do espelho’ (1996)

Em que lugar ficou
o cruzeiro no meio do caminho
com a ermida mais adiante onde a estrada bifurca?
Já não sei.
Sei que ficou
passando a geografia para a mente
e no fundo de mim o fim da tarde
emoldurando um roble e a montanha posta do lado,
mais longe
a densa natureza da pedra e o ar fino
prende ainda ali o inverno frio
nuns fiapos de outono
e é a retidão de álamo a paisagem vazia
imóvel
dentro de mim. Não sei
nem quero saber:
essa estrada
essa curva e esse quadro
parado no fundo de mim
caminho de partir
ficando
enquanto o auto arfa e para
lentamente
arqueja e tosse a última pulsação
antes que eu baixe e te tome nos braços
meu amor
no ar fino da tarde.
Beijo fundamente a tua boca
com um beijo radical
esse quadro que ficou ali
ignoto
no ar fino da tarde
e o guardamos para sempre
apócrifo no pó dos nossos nomes.

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