UM MUITO DO POA JAZZ FESTIVAL – CARLOS BADIA

Perguntei a uma das maiores autoridades mundiais quando o assunto é Jazz, o que afinal era Jazz? Zuza Homem de Melo não titubeou: “é a música da Liberdade”. Foi durante um dos debates/palestras promovidos pelo Poa Jazz Festival, que tinha Zuza como convidado sob o comando de nosso Juarez Fonseca, e uma audiência atenta. À noite, no show de abertura da segunda edição, o magnífico Lucio Yanel lascou com sabedoria depois da primeira música: “inicialmente estranhei ser convidado para tocar num festival de Jazz. Depois fiquei pensando que minha música essencialmente é livre, como é o Jazz. Se minha música é livre e o jazz também, então eu posso dizer que eu faço jazz”. A plateia veio abaixo em ovação ao mestre.      Sim, Zuza tem razão. E desde 2014, o Poa Jazz Festival tem nos proporcionado encantamentos como estes. Grandes encontros, reencontros, misturas de gerações, novos e antigos apreciadores do Jazz. E, para muitos, a surpreendente maciça presença de jovens e antigos músicos da cidade, todos misturados ali e a maioria presentes nas noites de shows. Como deve ser um festival.

O Poa Jazz Festival nasceu de uma insistência, de uma teimosia e – acima de tudo – de uma convicção de que com tanta gente amando o Jazz na cidade e no estado do RS, esse festival não só seria desejável e natural, mas uma espécie de obviedade. Como se Porto Alegre já tivesse o festival há muito tempo, só não tinha se dado conta. Ou alguém feito a liga. Claro que muita gente deve ter tido ideia semelhante, mas quando em 2011 surgiu a oportunidade e a primeira inscrição do festival nas leis de incentivo, parecia inacreditável que nunca haviam sequer patenteado a ideia. Era um sonho antigo meu, quase inalcançável, confesso. Até que em uma conversa com meu amigo Carlos Saul Duque sobre este sonho ele disse: “ porque você não conversa com o Augusto do BarraShoppingSul? Ele é apaixonado por Jazz e certamente pode ver a possibilidade de acolher lá no Centro de Eventos um evento assim. ” Com o telefone do Augusto em mãos liguei e não deu outra: aficionado por Jazz de imediato comprou a parada. E lá fomos nós montar um Festival depois de duas conversas exatamente assim. Convidei vários excelentes parceiros de produção e demos tratos à bola. E tínhamos ainda o desafio de convencer as pessoas de que podíamos fazer isto em um centro de eventos de um shopping.

Pois de fato criamos, com o toque luxuoso do arquiteto Edu Saorin, um ambiente extremamente favorável ao evento e que surpreendeu a todos: criamos uma espécie de pub/teatro (ou teatro/pub), pé-direito baixo, com bar, lojinhas, com a Poa Jazz Band circulando nos intervalos, enfim, para encantamento da maioria, foi gerado um impacto visual e um ambiente tão agradável que só faltava fazer o som funcionar de forma perfeita, e o Tiago Becker e o Cristiano Ferreira fizeram a mágica do som acontecer.

Caminho livre, devidamente patenteado e inscrito nas “leis”, levamos três anos para, somente em 2014, chegarmos de fato a realização do festival com a entrada, de última hora, do patrocínio da GVT. Com desconfiança de alguns e até a inicial desconsideração absoluta de parte da imprensa gaúcha, chegamos com tudo. Aí novamente aparece a insistência-teimosia junto da convicção de que não tinha como dar errado e botamos para quebrar, para sair avisando que sim, Porto Alegre havia ampliado as fronteiras do Jazz. E de largada já saiu com nomes como Ralph Towner, Grupo Pau Brasil, Hermeto Pascoal e Paquito D’Rivera. O segundo desafio foi fazer muitos acreditarem no que afirmávamos: o festival tinha surgido para ficar e aquela era apenas a primeira edição. A partir da segunda edição, através de uma iniciativa do incansável Roque Jacoby e do vereador Pujol, o Festival passou a fazer parte do Calendário Oficial de Eventos de Porto Alegre. Já após a terceira, eleito pelo Prêmio Profissionais da Música de 2017 em Brasília como o Melhor Festival de Música do Brasil, o que se repetiu em 2019, onde concomitantemente também levei o caneco de Produtor de Eventos do Ano.

Assim, para além da cidade e do estado do RS, podemos afirmar sem errar que o Poa Jazz Festival, desde outubro de 2014, fixou-se no calendário cultural brasileiro e colocou a cidade no mapa internacional dos grandes eventos de Jazz e música instrumental do mundo.

Desde sua concepção inicial, o Festival foi pensado em alguns eixos básicos:

grandes shows locais, nacionais e internacionais;

entrar no circuito dos grandes eventos de Jazz do mundo;

dar visibilidade a artistas brasileiros de grande prestígio internacional, mas pouca divulgação no Brasil;

dar visibilidade a cena musical local do RS;

criar um forte impacto educacional de música, tanto com oficinas para crianças e jovens de escolas públicas e ONGs quanto master classes para músicos e estudantes. Um dos aspectos mais importantes e um grande diferencial do PJF é a Educação Musical. Desde sua primeira edição, o Festival insere o ensino da música como forma de programação continuada e paralela as apresentações musicais nos palcos. E sonhamos com a criação de uma escola de música do Festival, que sonhamos concretizar num futuro próximo;

promover debates sobre toda cadeia produtiva da música e da cultura em geral (como o jornalismo cultural);

incentivar espaços culturais locais que abriguem grupos de música instrumental na cidade. Assim, criamos os shows em Pubs e outros locais que, durante o ano todo, promovem a cena local de jazz;

ampliar o público de jazz na cidade, dando oportunidade a todo tipo de público a ter contato com o Jazz. Baseados no seguinte argumento: as pessoas não têm como gostar daquilo que elas não conhecem;

buscar retirar o estigma/chavão de que o Jazz é uma música sofisticada, intelectualizada, da elite e, portanto, não pode ser acessível ou mesmo popularizada; O livre acesso ao Jazz para todos, é um de nossos pilares.

Nesse tempo todo, criamos alguns slogans que deram muito sentido ao que queríamos levar para as pessoas. Em 2014 foi “ Todos para o jazz! ”. Na segunda edição usamos, “ O Jazz já faz parte da cidade! ”. Na terceira, “ O Jazz vai pulsar na cidade! ”, depois “O Jazz Nosso de Cada Dia” e por último “Somos Múltiplas Conexões”.

Com lotação máxima em todas as edições, e preços muito acessíveis para se assistir 3 shows de grande qualidade por noite, o Festival teve aceitação imediata e a cidade se apropriou do evento. Quem ainda não foi ao menos já ouviu falar dele e, em geral, quer muito ir. Tenho também insistido muito para que o público perceba realmente a diferença essencial entre o que significa participar de um festival (que ocorre em vários dias, tem programação paralela e cerca de 3 shows por noite) e de ir a um show. Obviamente são naturezas muito diferentes, mas enfatizo esta questão por que o engajamento e a participação das pessoas em um festival constroem um ambiente e uma relação diferenciada do público com a música e o universo da arte. Além do que os festivais são portas democráticas para o surgimento de novas ideias, experimentações e grupos musicais. Abrem espaço de circulação e interação de artistas e de público. Este panorama de oportunidades, tanto para grupos e produtores como para a população, cria um potencial de diversidade, conhecimento, lazer e turismo (sim!) que só acontecem evidentemente em lugares onde há investimento em cultura. Portanto, é vital vislumbrarmos a necessidade de haver, se estabelecer e se desenvolver política cultural, bem como a ampliação da percepção da arte como inserida em uma cadeia produtiva geradora de desenvolvimento humano, cultural, social e econômico.

Milton Nascimento em espetáculo no Parque da Redenção

Também me parece oportuno apontar, neste espaço promissor e prodigioso da Revista Sepé, que até 2015 tivemos um festival com mais recursos. Com o aprofundamento da crise brasileira, a partir de 2016 foi gerado mais um desafio aos produtores culturais locais: mudanças significativas na LIC Estadual, promovidas pelo governo da época, reduziram a capacidade de o festival captar recursos via leis de incentivo estadual de forma brutal: cerca de 1/4 do que podíamos captar anteriormente. Mesmo sabendo que aqueles ajustes na lei poderiam até ser necessários, é imperioso afirmar que mudaram radicalmente uma série de relações comerciais, tanto do nosso festival quanto de outros eventos no RS. Esse desafio de entregar a mesma qualidade com menos dinheiro prescinde de um olhar mais atento e cauteloso para que não caiamos em armadilhas. A principal delas é a de o público e os gestores públicos concluírem que é possível entregar a mesma qualidade com menos recursos e, portanto, destinarem menos recursos as atividades culturais. Com menos recursos você pode entregar alguma qualidade, porém a duras e negativas custas: reduções de cachês, reduções de valores de fornecedores, programação menor (se não houver possibilidade de reduzir cachês), etc. Isso significa precarizar o mercado desvalorizando o valor do trabalho das pessoas e empresas. O fato, pouco comentado ainda, é que tem havido desde 2016 um sucateamento da produção cultural no RS. É importante enfatizar que as barganhas – mesmo inevitáveis – de redução de cachês de artistas e fornecedores, tem sido perniciosas para o mercado cultural. É um tema delicado e necessita de maior debate, mas muitos produtores, na ânsia de ter excelência na entrega, tem se submetido – até por falta de opção – a este arrocho de valores no financiamento e no patrocínio, com imenso prejuízo para toda cadeia produtiva da cultura a médio e longo prazo.

As limitações financeiras impostas pelo momento atual fizeram e fazem com que a cadeia produtiva como um todo se reorganize em parâmetros muito complicados. Prescindimos de criatividade e determinação para desenvolver projetos de grande porte com recursos mais enxutos. Não há alternativa por ora. Desde 2016 tem sido necessário repensar estrutura e programação, negociar com fornecedores e serviços. E, mesmo com tais limitações, temos realizado um evento de ampla repercussão ao estado e que não deixou de lado a qualidade pela qual sempre primamos desde a primeira edição, apesar de tudo. Na última edição diminuímos o evento principal para dois dias apenas. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de lutar, nem nos conformarmos com que as verbas simplesmente diminuam. Elas continuam sempre importantes e, para a maioria dos produtores culturais, momentos de crises precisam ser percebidos como passageiros e exceções e não como uma normalidade. E isto para que a qualidade dos eventos e dos profissionais envolvidos sejam contempladas como merecem e adequadamente.

Feito este importante registro, afirmo que o ato de compartilhar se torna cada vez mais significativo ao Poa Jazz Festival. As trocas durante o evento têm a capacidade de gerar muitos frutos: são produtores que se encontram e formam novas parcerias, músicos que ganham visibilidade e são convidados para novos trabalhos, estudantes que aprendem com profissionais mais experientes entre tantas positividades. Percebemos, a partir disso, as possibilidades que o próprio Festival tem de relacionar-se com o meio, gerando parcerias benéficas também com outros festivais.

Vale aqui citar o Lúcio Brancato, jornalista e músico, ao lembrar uma das essências do Festival, que é abrir novas possibilidades musicais para o jazz na capital: “O Poa Jazz Festival deixa algumas certezas. Existe um público interessado, receptivo e de ouvidos abertos para o desconhecido. Um voto de confiança que se construiu em cada edição. Mesmo quando não há nomes conhecidos do grande público as noites de festival lotam. Quando se entrega algo de qualidade e bom gosto as pessoas vão. Um dos papéis dos festivais é apresentar o que você de repente nunca ouviu. É proporcionar um menu de possibilidades”. O que o Lúcio menciona aqui faz parte de uma das conquistas mais significativas para o Poa Jazz: a confiança do público de que, independente da atração ser conhecida ou não do grande público, o festival sempre primará por uma qualidade que vale a pena conhecer.

Para finalizar este já longo texto, cito a felicidade da nova parceria que tive a partir da 4ª. edição: o fantástico Carlos Branco, que dispensa apresentações a despeito de ser um dos principais produtores do Brasil e um fiel amante do Jazz, e Rafael Rhoden, cuja produtora de som, estúdio e unidade móvel de gravação filmou e gravou todas as edições do Festival e, portanto, também amante do Jazz.

Outra expectativa importante é que a partir desta consolidação cada vez mais visível do festival, ele possa, quem sabe em breve, conquistar em algum nível, mais independência das leis de incentivo, mesmo elas ainda sendo fundamentais e desejáveis como política de Estado. E para isso só com bom planejamento, engajamento das pessoas, um público fiel e uma agenda repleta de boas alternativas culturais. O processo atual de captação tem sido muito penoso, e gerar uma possível independência futura pode ser uma conquista importante. Hoje, infelizmente, muitas empresas buscam nos eventos culturais elementos que contemplem a área de “responsabilidade social”, as quais elas têm compromissos legais. Esta distorção tem se acentuado a ponto de, em muitos casos, ser o critério principal de escolha de projetos culturais para ganharem o benefício do patrocínio via Lei Incentivada. Tal desvirtuamento precisa ser LOGO enfrentado, sob pena de perdermos o foco na Cultura. 

O Poa Jazz é um evento plural que oferece inúmeras oportunidades ao público e à cultura brasileira. É composto por uma programação qualificada em um palco dividido por músicos renomados do cenário internacional, nacional e artistas reconhecidos da cena local. Produz troca de conhecimentos e estimula os jovens artistas ao coloca-los em contato com profissionais experientes. Promove o diálogo sobre a cadeia produtiva da produção cultural. Compartilha e se fortalece a partir de parcerias com outros festivais. Um evento de música em que os músicos da cidade que não tem condições de adquirir os ingressos são convidados a assistir aos shows de forma gratuita. São essas possibilidades que fazem o Festival crescer e se consolidar a cada ano. E acreditamos que há muito mais pela frente!

Abaixo listo artistas que já passaram pelo Festival.

Paulo Dorfman – Michel Dorfman – Grupo Pau Brasil – Paquito D’Rivera – Trio Corrente – Ralph Towner – Sandro Albert  – Nivaldo Ornelas – Filó Machado – Hermeto Pascoal – João Donato – Milton Nascimento – Lúcio Yanel – Pedro Tagliani – Nelson Ayres – Fábio Torres – Jonathan Kreisberg – Sachal Vasandani – Marlui Miranda – Hique Gomez – Bianca Gismonti – Gastão Villeroy – Swami Jr – John Surman -New York Gypsy All Stars – Paulo Bellinati – Marco Pereira – Marcos Paiva – Daniel Grajew – Alegre Corrêa  Kula Jazz – Julio Herrlein – Mani Padme Trio – Jorginho do Trompete – Adrián Iaies  – Rodrigo Agudelo – Maurice John Vaughn – André Mehmari – Tuti Moreno – Nailor Proveta – Rodolfo Stroeter – Mônica Salmaso – Omer Avital – João Bosco – Mariano Loiácomo – Rudresh Mahanthappa – Instrumental Picumã – Maurício Einhorn – Nelson Farias – Guto Wirtti – Vítor Arantes – Marmota Jazz – Bourbon Sweethearts – Gilson Peranzzetta – Edu Ribeiro – Davina and the Vagabons – Silibrina – Jasper Blom – Raiz de Pedra – Sexteto Gaúcho – Rafuagi Jazz Combo – Tributo A Geraldo Flach com Cristian Sperandir e grupo – Cyrille Aimée – Diego Figueiredo

Também Ron Carter e John Pizzarelli fora da programação do Festival.

Acompanhando atrações:
Zeca Assumpção – Paulinho Braga – Gabriel Grossi – Robertinho Silva – Luiz Alves – Jesse Van Ruller – Will Winson… Entre tantos outros.

Carlos Badia é músico, escritor e ativador cultural.

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