‘A UTILIDADE DO INÚTIL’, DE NUCCIO ORDINE

Por Pablo Morenno

Seria a humanidade o que é sem os saberes inúteis? Essa é a pergunta cuja resposta procura o filósofo italiano Nuccio Ordine em seu livro A utilidade do inútil, um manifesto, Editora Zahar. Deveríamos substituir as flores das cidades por batatas, já que essas são mais úteis que aquelas? Então, por que o vaso sanitário não é de ouro, se é a peça mais útil de uma casa?

Quem fala sobre a importância da inutilidade para que sejamos humanos não é Nuccio. Ele apenas traz em seu manifesto as falas de Platão, Aristóteles, Montaigne, Kant, Shakespeare, Victor Hugo, Cervantes, Dickens, Garcia Lorca, Calvino, Euclides, Arquimedes… Todos eles, filósofos ou matemáticos, escritores ou cientistas, proclamam a importância dos saberes inúteis para a civilização.

No primeiro capítulo, “A útil inutilidade da literatura”, o autor relembra metáforas de obras clássicas nas quais o confronto entre o inútil e o útil transforma o enredo e cria os significados mais completos. Os peixinhos de ouro do Coronel Buendía se encontram na libra de carne de O mercador de Veneza. O belo de Kant dá mãos à loucura de Dom Quixote. Os penicos de ouro de Thomas More se revestem da poesia de Ovídio. Os homens livres de Aristóteles são aqueles que não tem hora para iniciar ou terminar uma conversa sobre a verdade. Para encerrar o capítulo, Ordine reconta um trecho de Emil Cioran, do livro “Desmembramento”, em que Sócrates, enquanto lhe preparavam a cicuta, exercitava-se em uma ária na flauta. Quando lhe perguntaram, “Para que te servirá isso”, Sócrates respondera “Para saber essa ária antes de morrer”. Esse amor desinteressado pelas coisas inúteis é que nos torna diferentes dos animais.

O título da segunda parte é “A universidade-empresa e os estudantes-clientes”, algo que eu já  havia percebido  mas não conseguia explicar teoricamente. Além de denunciar a mercantilização da educação, especialmente das Universidades, mais preocupadas em formar técnicos do que pessoas, aponta o descaso total dos governos com bibliotecas, artes, literatura, ou música, minguando os orçamentos para qualquer tipo de atividade cultural.

Para encerrar, um ensaio inédito (consta apenas na edição em Português), do educador americano Abraham Flexner, prova que também nas Ciências (no sentido estrito) os saberes inúteis são fundantes e necessários. No ensaio, descobrimos o rádio de Marconi só aconteceu por um estudo do professor Clerk Maxwell, sobre equações abstratas sobre magnetismo,  publicado em 1873,  e que Koch não teria descoberto o bacilo da tuberculose se não fosse um estudante alemão que, muitos anos antes, separou em cores “bichinhos” encontrados em cadáveres, mais tarde chamados de “bactérias”. O estudante alemão dizia a seu professor que  brincava com cores. Ele se chamava Ehrlich e, à época, não tinha ideia do que estava fazendo. Movia-se apenas por curiosidade, sem saber que fundava a bacteriologia.

Esse livro, ao qual retornei este ano por várias vezes, é leitura imprescindível para todo artista, educador humanista, pessoa… Devia ser leitura obrigatória nas escolas e universidades, especialmente as particulares, que se tornaram fábrica de vasos. “A utilidade do inútil” é um manifesto a favor da civilização e contra a barbárie. E, apesar destes tempos nonsenses, ainda não é tarde. Eu, por exemplo, prefiro plantar flores a batatas, no jardim aqui de casa, onde invisto mais do que no vaso sanitário. Mas sempre há os que pensem o contrário.

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