‘A MANIPULAÇÃO DAS OSTRAS’, DE LUIZ MAURÍCIO AZEVEDO

Por Juremir Machado da Silva

Que livro me marcou mais neste ano da peste? Num sincerídio, eu diria: “Acordei negro” (Sulina/Figura de Linguagem), de minha modesta autoria, que publiquei em 2019 e reli agora durante a quarentena. Eu me releio. Como não é recomendável ser autorreferente a esse nível e, como disse Carlos Heitor Cony sobre os anos que passou sem publicar, ninguém tomou providências, faço melhor falando dos outros. Li três ótimos livros: “O avesso da pele”, de Jeferson Tenório” (Cia das Letras), “Os supridores” (Todavia), de José Falero, e “A manipulação das ostras” (Figura de Linguagem), de Luiz Maurício Azevedo. Esses caras são muito bons e vão tomar conta do futuro literário brasileiro.

Tenório já conquistou o país e começa a voar para outros lugares. Falero também deu o salto neste final de ano. Luiz Maurício tem um projeto mais complexo: publicar pela sua editora, uma casa voltada para autores negros, casa caseira, sofisticada, autoral, com assinatura, negação do mainstream, marginalidade central, caminho mais longo e, ao mesmo tempo, fascinante. Luiz Maurício é crítico literário, ensaísta, transbordando de cultura, e tudo isso vai para a sua obra. O texto de Tenório tem uma dança singular; o de Falero, uma crueza deliciosa e selvagem; o do Luiz Maurício, uma sinfonia. Fronteiras rompidas, gêneros confundidos, árvores tombadas, nada permanece no lugar. O leitor sente o vento na cara e navega solto.

Falero luta de peito aberto. Tenório entra por veredas simbólicas. Luiz Maurício Azevedo faz guerra de trincheiras. Os títulos dizem tudo: um cola na pele, pelo avesso; outro traz a vila como um sapo que virou príncipe para a grande narrativa; o terceiro conta história e conta a linguagem que conta manipulando ostras. São autores com pegada, impressão digital em tempos virtuais, relevância, temáticas saídas direto da esquina para consumo externo. Desses autores, tenho duas experiências com cada um: “O beijo na parede” e “O avesso da pele”, de Tenório; “Vila Sapo” e “Os supridores”, de Falero: “Pequeno espólio do mal” e “A manipulação das ostras”, de Azevedo. Eles são diferentes e iguais em cada livro. Há continuidade e ruptura.

Eu ia recomendar um livro. Indiquei seis. O leitor sai ganhando. Eu ia falar de um autor. Fiquei com três. Para que escolher se dá para abraçar (metaforicamente em tempos de pandemia) todos. Três autores negros, vivendo em Porto Alegre, abrindo caminho a golpes de talento, jogando a literatice para escanteio, renovando a literatura nacional que dormia em berço esplêndido e andava a passo de jabuti. Tenório escreve com o tato; Falero, com o ouvido; Luiz Maurício, com o coração e cérebro. Alguém pode objetar que cerebral não é elogio em arte. Discordo: o cérebro sozinho pode ficar árido; temperado com o coração tem sabor de inteligência emocional. É só provar para ter certeza.

E como fica o tal “Acordei negro”? Descansa em paz. Aliás, combina com o título de outro bom livro do ano, do francês Vincent Petitet, publicado pela valorosa Sulina, trincheira gaúcha defendida com unhas e dentes por Luís Gomes: “Os mortos não estão mais sós”.

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