‘A MULHER SUBMERSA’, DE MAR BECKER

Por Thomaz Albornoz Neves

De Mar Becker sei que nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e que é gêmea de Marieli Becker. Sua mãe, Meiri, costurava em casa e sua avó, Maria Manoela, foi vítima de uma tragédia não revelada às netas crianças. Que estudou filosofia e hoje mora em São Paulo, na reserva de Guarapiranga, com Domênico, seu marido. Sei que é leitora voraz, que tem bom gosto poético e que é culta, que gosta de cavalos, cães, gatos, Zitarrosa, de música nativista e de Glen Gould. Que toca violão e canta, gauchinha, com voz meiga, quase infantil. Sei outras coisas que, como estas, importam pouco, são letra fria diante do que ela escreve e da forma como escreve os poemas de “A mulher submersa”, seu livro de estreia publicado pela editora Urutau. 

A primeira impressão de leitura é de que esses poemas foram impelidos por instinto de urgente sobrevivência. Apesar da urgência, há neles lenta maturação e extremo refinamento. A leitura nos deixa quietos, maravilhados muitas vezes, enternecidos e comovidos em outras. 

Mar Becker olha para o mundo e para si desde uma perspectiva atemporal onde sua condição humana é motivo de perplexidade e estranhamento. Ela habita uma “menina ainda se tornando gente”. Ao mesmo tempo sentimos que essa menina se tornando gente é uma velha sábia, dotada de recursos ancestrais. E à inocência e à sabedoria de ambas, se soma a mulher que encarna outra complexa contradição. A de um corpo dotado de uma sensualidade concreta, sexuada, mas também impalpável, que tende, através da intensidade dos sentidos, à dissolução e ao incorpóreo. 

Pois bem, essa força poética tão rara de se encontrar em nossa literatura contemporânea, ao falar de si dá voz às outras. À mãe, à irmã, à vizinha, à avó assassinada e à toda uma linhagem de antepassadas. Mas não apenas, dá voz também ao arquétipo feminino que habita em todos nós. 

Detalhes pueris do cotidiano que passam despercebidos, sob o olhar de Mar Becker adquirem aura, como as larvas pretas na água parada ou o crucifixo preso por um imã na porta da geladeira. Há nela algo de monja. Não é difícil imaginá-la em um claustro buscando no silêncio a linguagem dos anjos e tratando de divino o que há de mais profano. Há tanto vigor no seu universo que temos a impressão de estar diante de um estado volátil, preso a si mesmo e ao seu corpo por um fio metafísico, amoroso. 

As suicidas fatais, Safo, Plath, Ana C., Virginia Woolf, Alfonsina Storni estão presentes não por um elogio à própria consumação, mas como um exorcismo. Tê-las consigo é uma forma de reconhecer o abismo que as atraiu e assim também uma forma de repeli-lo. 

Mar Becker possui toda as palavras. Clássica e original, transborda tanta inspiração que a dosa em gotas. No meio da página, de passagem como se nada, ela sustenta uma série inteira, com aquela imagem. Aquele soco.

É um livro pleno de poemas preferidos, à escolha do freguês. Eu tenho uma estrela na agulha de costura ao sol como o dedo inox de um deus doméstico, um cristal de sal no cílio, o rumor numa pia bastimal, as varizes subindo como cordas grossas numa perna cansada e essa nova, inédita, galeria de heroínas feita de poderosas mulheres caseiras.

Há poetas que não chamam a atenção para si com as palavras. Os versos servem ao conteúdo, obedecem humildemente o que há para ser dito. E dizem com contida precisão e elegância. A melhor poesia nomeia o que há em todos, e ao nomear, desperta sentimentos que nos recordam quem somos, que nos parecemos, que somos uma só espécie. Através da mulher, de um universo que é fêmea, Mar Becker nos humaniza. E o faz, repito, desde uma dimensão anterior à linguagem.

os vivos morrem logosão os mortos que morrem devagar

são os mortos que seguem morrendo depois que os velamos, que os enterramos

passam-se dias, e ainda há fios de cabelo espalhados pela casa

passam-se meses, e ainda vemos o livro

o marcador guardando o fogo da última palavra lida

passam-se anos, e descobrimos na gaveta uma carta escrita de próprio punho e que nunca chegou a ser enviada

são lentos, os mortos

demoram-se nisto de nos revelarem em cadernos um amor que foi calado por toda uma vida

são lentos

como é lento o amor

como é lento reconhecer uma letra, que nos faz lembrar as mãos

como é lento imaginar as mãos, que nos fazem lembrar o pulso

como é lento pressentir o pulso, que nos atravessa

como sangue

em uma hora de hemorragia intensa os vivos perdem todo o sangue dos seus corpos

os mortos no entanto continuam sangrando

sangram por décadas, por gerações

sangram como mênstruo, pelos corpos das mulheres que habitam a casa

sangram no silêncio compartilhado entre mãe e filha

entre duas irmãs

.

e topamos com seus rostos renascendo em outros rostos

não só os da família, mas também daqueles que cruzam por nós na rua

e que não conhecemos

.

sempre acabamos encontrando nossos mortos por aí

eles acham jeito de voltar

de permanecer

eles acham jeito de surgir num sorriso

na cor que certos olhos assumem em tardes mais luminosas

num gesto breve

qualquer

os mortos, os mortos

tão vivos

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POESIA

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